Brasil em Pleno Emprego: Crescimento Forte, Juros Altos e o Desafio da Sustentabilidade Fiscal

A economia brasileira atravessa um momento de pleno emprego, com a taxa de desemprego no menor nível da série histórica e uma forte geração de vagas desde 2020. O rendimento médio real e a massa salarial estão em recorde, o que garante tração ao consumo e sustenta a atividade econômica. Esse dinamismo do mercado de trabalho, porém, mantém a inflação de serviços elevada e dificulta a convergência do IPCA para a meta, mesmo com um cenário de desaceleração global. A demanda interna segue robusta, e isso ajuda a explicar por que o crescimento vem surpreendendo positivamente nos últimos trimestres.

Para conter a pressão inflacionária, o Banco Central manteve a Selic em torno de 15%, garantindo que o IPCA não rodasse acima de 6% ao ano. Essa política monetária restritiva reforçou a validade da curva de Phillips no Brasil: um mercado de trabalho aquecido pressiona preços, e só juros elevados seguram o repasse para a inflação. O debate público, no entanto, começa a questionar se o aperto não foi exagerado e se uma normalização mais rápida da política monetária não seria possível diante da desaceleração de alguns indicadores de crédito e investimento.

No campo fiscal, o Estado brasileiro injeta cerca de R$ 1,5 trilhão por ano em políticas de bem-estar social indexadas ao salário mínimo. Essa transferência de renda é um potente motor de demanda agregada, garantindo um impulso permanente para o consumo, mas também gera pressão sobre as contas públicas. O custo financeiro dessa escolha é elevado: o pagamento de juros da dívida pública alcança quase R$ 900 bilhões por ano, contribuindo para um déficit nominal expressivo e para o aumento da dívida bruta.

Esse quadro gera um dilema de política econômica. De um lado, os gastos sociais sustentam o crescimento e evitam uma recessão, mas, de outro, a política monetária segue freando a economia para conter a inflação, criando uma espécie de cabo de guerra entre Tesouro e Banco Central. Se o crescimento perder força, a arrecadação pode cair e dificultar o cumprimento do arcabouço fiscal. Se os juros caírem cedo demais, há o risco de reaquecer a inflação e exigir novo aperto no futuro.

O cenário para 2026 é de possível início de um ciclo de queda de juros, especialmente se a inflação seguir convergindo para a meta e o ambiente externo permitir. Isso reduziria o custo de carregamento da dívida e poderia destravar investimentos privados. Para sustentar um crescimento mais equilibrado, porém, será necessário avançar em reformas que aumentem a produtividade, ampliem a formalização do trabalho e reduzam a dependência de transferências de renda como motor principal da economia.

Nesse contexto, o papel do Banco Central foi crucial para evitar um descontrole maior. Sob Galípolo, a instituição conseguiu ancorar expectativas e manter os juros longos em torno de 13%, impedindo que voltássemos a um cenário semelhante ao “revival” da era Tombini, com inflação projetada em 6% e juros futuros acima de 17% ao ano. O desafio agora é equilibrar o crescimento sustentado pelo impulso fiscal e pelo pleno emprego com a necessidade de conter pressões inflacionárias, evitando que o excesso de demanda exija uma política monetária ainda mais restritiva no futuro.

Outro fator determinante foi o forte “carry trade” provocado pela Selic a 15% ao ano, que atraiu capitais estrangeiros em busca de rendimento elevado. Esse fluxo apreciou o real de forma consistente, reduzindo o custo dos bens importados e ajudando a segurar a inflação, especialmente de bens comercializáveis. O câmbio mais forte funcionou como âncora adicional de preços, potencializando o efeito da política monetária e evitando que o choque de demanda se traduzisse em uma espiral inflacionária ainda mais intensa.

Sem aumento de complexidade produtiva, o Brasil permanece preso a um modelo de crescimento frágil e dependente de commodities. É a sofisticação da estrutura produtiva — com mais tecnologia, maior diversificação e maior valor agregado — que permite salários mais altos, produtividade crescente e estabilidade macroeconômica de longo prazo. Sem essa transformação, o país seguirá vulnerável aos ciclos de preços internacionais, às flutuações de capital e à necessidade recorrente de juros altos para conter pressões inflacionárias. O verdadeiro caminho para escapar desse “stop and go” histórico é investir em inovação, indústria avançada e serviços intensivos em conhecimento, criando um motor de crescimento sustentado.

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