*escrito com Igor Rocha
O Brasil vive um dilema de desenvolvimento que pode ser compreendido pela metáfora de estar entre dois riscos históricos: o peronismo argentino e a mexicanização pós-NAFTA. De um lado, há o perigo de repetir a trajetória da Argentina, onde políticas populistas de gasto desenfreado e expansão monetária sem lastro acabaram corroendo a credibilidade das instituições, acelerando a inflação e levando à hiperinflação nos anos 1980. De outro, existe o risco de seguir o caminho do México, que, após a abertura comercial e o tratado de livre comércio com os Estados Unidos, consolidou-se como uma economia dependente de capitais externos, com baixa capacidade de inovação própria, funcionando essencialmente como maquila de produtos norte-americanos.
O chamado “peronismo à brasileira” corresponderia a um modelo econômico sustentado por estímulos de curto prazo, expansão de gasto público e crédito fácil, mas sem um plano claro de ganhos de produtividade e inovação. Tal trajetória tende a gerar crescimento medíocre, crises fiscais recorrentes e inflação estrutural. A história argentina mostra como esse tipo de política, ainda que atraente no curto prazo, resulta em perda de estabilidade macroeconômica e em crises que corroem a confiança da população e dos investidores. Para o Brasil, repetir esse caminho seria voltar a um ciclo que já conhecemos bem nos anos 1980 e início dos anos 1990.
Por outro lado, a “mexicanização” representa o risco da inserção passiva na economia global. Desde os anos 1990, o México aprofundou sua integração às cadeias de valor dos EUA, mas sem desenvolver marcas próprias, sem estimular pesquisa e desenvolvimento locais e sem construir setores industriais com autonomia tecnológica. Isso gerou um modelo baseado na montagem de produtos com insumos importados, em que o valor agregado e as inovações permanecem no exterior. O resultado foi um crescimento baixo, estagnação da produtividade e manutenção de profundas desigualdades sociais. Para o Brasil, cair nessa armadilha significaria aceitar o papel de fornecedor de commodities e montador de produtos alheios, sem protagonismo tecnológico.
Ao mesmo tempo, o país viu o fortalecimento de um verdadeiro narcoestado, com cartéis e milícias infiltrados na burocracia e em esferas políticas, corroendo a autoridade estatal. O resultado foi um modelo baseado em montagem de produtos com insumos importados e em instituições fragilizadas, onde o valor agregado e a soberania se dissipam. Para o Brasil, a armadilha seria dupla: de um lado, aceitar o papel de fornecedor de commodities e montador de produtos alheios; de outro, tolerar a expansão de milícias e organizações criminosas que, como no México, ameaçam capturar parte do Estado e comprometer o próprio projeto nacional de desenvolvimento.
Esse dilema revela que o Brasil está, de fato, “entre a cruz e a espada”. Se ceder às tentações populistas, corre o risco de perder a estabilidade econômica conquistada a duras penas desde o Plano Real. Se, ao contrário, optar apenas pela abertura passiva e pela dependência de capitais externos, poderá comprometer sua capacidade de desenvolver uma base produtiva própria e de disputar posições relevantes nas cadeias globais de valor. Nenhum dos dois caminhos oferece um futuro de desenvolvimento sustentável, inclusivo e inovador.
O desafio, portanto, é construir uma terceira via: uma estratégia nacional de desenvolvimento produtivo que una responsabilidade macroeconômica e política industrial ativa. É preciso manter a disciplina fiscal e monetária para evitar aventuras inflacionárias, mas, ao mesmo tempo, estimular inovação, marcas próprias e complexidade produtiva. Isso implica usar o poder de compra do Estado, as estatais estratégicas, os bancos de desenvolvimento e os programas de ciência e tecnologia como motores de criação de novos setores e mercados.
Mais do que evitar os erros da Argentina ou os limites do México, o Brasil precisa definir um projeto de país que combine estabilidade com ambição. A integração internacional deve ser estratégica, criando capacidades internas em vez de apenas abrir espaço para empresas estrangeiras. O futuro dependerá da habilidade de evitar os atalhos fáceis do populismo e da dependência externa, construindo um modelo de crescimento que una inovação, soberania e inclusão social. Esse é o verdadeiro ponto de equilíbrio para escapar das duas armadilhas que ameaçam nossa trajetória histórica.

