Brasil exporta commodities e importa complexidade

Os dados da balança comercial brasileira por intensidade tecnológica no primeiro semestre trazem um retrato bastante preocupante da nossa estrutura produtiva. O déficit comercial da indústria de transformação chegou a cerca de US$ 38 bilhões, revelando mais uma vez uma fragilidade que o Brasil carrega há décadas: somos altamente competitivos na produção de commodities e produtos de menor intensidade tecnológica, mas profundamente dependentes de importações nos setores mais sofisticados da economia.

O problema aparece com clareza quando abrimos os números. O déficit está fortemente concentrado nos segmentos de alta e média-alta intensidade tecnológica. Entre eles aparecem a indústria farmacêutica, o complexo eletrônico, a indústria química, máquinas e equipamentos e veículos. A indústria aeronáutica é uma exceção importante, com forte capacidade exportadora e desempenho comercial muito melhor, graças principalmente à Embraer.

Na indústria química, a situação chama especialmente a atenção. O déficit comercial se aproxima de US$ 20 bilhões apenas no primeiro semestre. É um setor particularmente relevante porque fornece insumos para praticamente toda a economia e concentra atividades de maior intensidade tecnológica, produtividade e geração de conhecimento. Na indústria automobilística, por sua vez, o avanço recente das importações, especialmente de veículos chineses, também vem pressionando o saldo comercial.

Do outro lado da balança está uma das grandes forças brasileiras: alimentos processados. Nesse segmento, o país apresenta um superávit próximo de US$ 29 bilhões. O Brasil deixou há muito tempo de ser apenas o “celeiro do mundo”. Tornou-se também uma espécie de “supermercado do mundo”, exportando carnes, açúcar, café, suco de laranja, celulose e uma ampla variedade de alimentos processados.

Isso é uma enorme vantagem competitiva e não deve ser desprezada. O problema surge quando essa especialização não é acompanhada pelo desenvolvimento de setores tecnologicamente mais sofisticados. Em média, atividades farmacêuticas, químicas, eletrônicas, aeronáuticas e de máquinas apresentam maior produtividade e capacidade de pagar salários elevados do que atividades concentradas na produção de commodities e bens menos complexos.

É justamente aí que aparece o problema estrutural brasileiro. Exportamos produtos relativamente simples e importamos complexidade. Vendemos soja, minério de ferro, petróleo, carnes e alimentos e usamos parte dessas receitas para comprar produtos químicos, medicamentos, componentes eletrônicos, máquinas e outros bens tecnologicamente sofisticados.

A dimensão desse contraste impressiona. Se o déficit industrial observado no primeiro semestre fosse simplesmente anualizado, estaríamos falando de algo próximo a US$ 80 bilhões no ano. Ao mesmo tempo, o Brasil pode registrar um superávit comercial total também próximo de US$ 80 bilhões. Para que essas duas coisas aconteçam simultaneamente, o superávit das commodities e demais setores competitivos teria de alcançar algo na vizinhança de US$ 160 bilhões.

Esse é praticamente um raio-X da economia brasileira: algo como US$ 160 bilhões positivos de um lado, puxados principalmente por petróleo, minério, soja, produtos agrícolas e alimentos; e cerca de US$ 80 bilhões negativos do outro, associados sobretudo à indústria e aos segmentos tecnologicamente mais sofisticados. O saldo final continua positivo, mas sua composição revela uma fragilidade importante.

Não se trata de afirmar que exportar commodities seja ruim. Pelo contrário: o agronegócio, a mineração e o petróleo são extraordinariamente importantes para a economia brasileira. O problema é não conseguir usar essa força para construir uma estrutura produtiva cada vez mais diversificada e tecnologicamente sofisticada.

Essa composição ajuda também a entender uma questão maior: por que a produtividade e a renda média brasileiras continuam tão distantes das observadas nas economias desenvolvidas e em alguns países asiáticos. Países que concentram sua produção em atividades sofisticadas, intensivas em conhecimento e tecnologia, tendem a apresentar produtividade e salários muito superiores.

Os dados do primeiro semestre, portanto, mostram algo que vai muito além da balança comercial. Eles revelam uma regressão tecnológica da estrutura produtiva brasileira. O país continua extremamente eficiente naquilo que já sabe fazer, mas aumenta sua dependência externa justamente nos setores que carregam mais tecnologia, conhecimento e produtividade.

No fim das contas, a fotografia é bastante cristalina: o Brasil exporta commodities e alimentos e importa química, eletrônica, medicamentos, máquinas e tecnologia. Exportamos abundância natural e importamos complexidade.

Enquanto essa estrutura não mudar, será muito difícil fechar a enorme distância de produtividade, renda e salários que ainda separa o Brasil das economias mais avançadas.

1 thought on “Brasil exporta commodities e importa complexidade”

  1. A balança de pagamentos não reflete melhor os efeitos danosos da baixa complexidade produtiva do Brasil? Não há superavit a décadas, apesar dos festejados superávits da balança comercial.

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