*escrito com Daniel Luís da Silva
Nas últimas décadas, o Brasil manteve-se atrelado a um modelo econômico primário-exportador, altamente dependente da demanda internacional por commodities. Esse modelo, embora lucrativo em ciclos de alta nos preços internacionais, não gerou uma transformação estrutural da economia. Ao contrário, contribuiu para a desindustrialização precoce, redução da complexidade produtiva e maior vulnerabilidade externa. Enquanto isso, economias como a China e a Coreia do Sul utilizaram a globalização como alavanca para sofisticar sua estrutura produtiva e internalizar conhecimento. Hoje, diante de um novo ciclo geopolítico, com guerra comercial e reshoring nos EUA e Europa, o Brasil está novamente diante de uma escolha estratégica.
Guerra Comercial, Excedentes Asiáticos e o Perigo da “Industrialização Passiva”
A reconfiguração das cadeias globais de valor, impulsionada pela rivalidade tecnológica e comercial entre EUA e China, abre oportunidades, mas também riscos. Se não houver uma estratégia ativa, o Brasil pode tornar-se um simples receptor de excedentes industriais da Ásia, atraído por um mercado consumidor relevante, porém ainda carente de políticas industriais robustas. Esse fenômeno — que poderíamos chamar de industrialização passiva — apenas reforçaria a dependência externa e impediria o acúmulo de capacidades tecnológicas internas.
Além disso, os efeitos desse processo sobre a balança comercial industrial e sobre a taxa real de câmbio podem ser perversos: a entrada de manufaturas baratas pressiona negativamente a indústria doméstica e aprofunda déficits estruturais na conta corrente, o que impõe limites ao crescimento sustentado do PIB.
A Centralidade do Estado no Desenvolvimento Tecnológico
O economista Joseph Schumpeter já destacava que o motor do capitalismo está na inovação. No entanto, a inovação radical não é fruto de mercados livres desimpedidos, mas sim de sistemas de inovação coordenados e intensivos em investimento de longo prazo. Como argumenta Mariana Mazzucato, o Estado moderno tem papel crucial na criação de mercados — atuando como investidor paciente, orientador de missões e gerador de demanda.
Casos históricos reforçam essa visão: o Departamento de Defesa dos EUA financiou tecnologias fundamentais como o GPS, a internet e os semicondutores. O mesmo ocorreu com o desenvolvimento da indústria de alta precisão no Japão e o setor de biotecnologia na Alemanha. Em todos esses casos, o Estado liderou o risco e criou as condições para o setor privado florescer.
No Brasil, experiências como a da Embraer, do Proálcool e da Embrapa demonstram que é possível — desde que haja coordenação, continuidade e financiamento adequado.
Construção de um Sistema Nacional de Inovação (SNI)
A literatura sobre innovation systems destaca que os países que mais inovam possuem sistemas robustos, com forte articulação entre governo, universidades e setor produtivo. O Brasil ainda não consolidou esse tripé. A criação de um SNI moderno exige:
Governança institucional forte, com metas de longo prazo e métricas de desempenho; Orçamentos estáveis para CT&I, blindados de ciclos eleitorais; Compras públicas como ferramenta de política industrial (como nos EUA e UE); Fomento à formação de consórcios tecnológicos entre universidades, SENAI/CNI, startups e empresas líderes.
Além disso, é urgente criar mecanismos de matchmaking entre oferta científica e demanda industrial — como fazem países com agências como DARPA, Fraunhofer Institute e os clusters franceses do tipo pôles de compétitivité.
Conclusão: Oportunidade Histórica e o Risco da Inação
O Brasil possui uma estrutura produtiva com capacidades latentes, recursos naturais abundantes, e mercado interno expressivo. No entanto, sem reindustrialização estratégica, continuará preso ao chamado “fogo de palha” das commodities. A história econômica mostra que os países que escaparam da armadilha da renda média — como Coreia do Sul e China — o fizeram por meio da sofisticação produtiva e da construção de capacidades estatais.
O atual momento geopolítico é, portanto, uma rara oportunidade para o Brasil reorientar sua estratégia de desenvolvimento. O custo da inação será permanecer como fornecedor de bens primários e comprador de bens tecnológicos — uma equação que condena o país à estagnação.
Daniel Luís da Silva é Bacharel e Mestre em Engenharia, Graduando em Economia, atuando há mais de 20 anos como gestor de Projetos na Área de Óleo & Gás e Editor do blog revolucaoprodutiva.com

