*escrito com Gustavo Pauro
O Brasil exporta soja, milho, algodão e carnes em escala planetária — e, ao mesmo tempo, mantém uma vulnerabilidade estrutural que pouca gente coloca no centro do debate: a base de insumos que sustenta essa produção é majoritariamente externa. A dependência de fertilizantes é, na prática, uma dependência de capacidade industrial, logística e geopolítica. Quando o mundo está calmo, isso parece apenas “eficiência de mercado”. Quando o mundo entra em choque, vira risco de segurança econômica.
Em 2025, as importações brasileiras de fertilizantes bateram recorde: 44,96 milhões de toneladas (alta de 2,9% sobre 2024, segundo estimativas de consultorias e cobertura especializada). Essa expansão numérica é um sintoma: demanda crescendo e oferta doméstica insuficiente para amortecer volatilidade externa.
A concentração de fornecedores é outro ponto sensível. Há leituras diferentes conforme produto e período, mas estudos recentes apontam que o Brasil compra uma fatia relevante de poucos parceiros (por exemplo, Rússia, China, Canadá, Marrocos e Egito aparecem como principais origens em consolidações com base em dados da ANDA). Em outras palavras: para manter a competitividade do agro, o país se expõe a gargalos de oferta, ciclos de preço e eventos geopolíticos fora do seu controle.
Quando se detalha por nutriente, a fragilidade fica mais evidente. Em termos de macronutrientes (N, P, K), diferentes fontes apontam dependência muito elevada, sobretudo em potássio e nitrogenados — com menções recorrentes a patamares acima de 90% para potássio e nitrogenados, enquanto o fósforo costuma ser menos dependente do exterior (com números variando por metodologia e recorte). O essencial aqui não é disputar o decimal: é reconhecer que o Brasil não controla a oferta do que, literalmente, “faz a planta crescer”.
O canal logístico também importa. No comércio exterior, o modal marítimo domina (mais de 90% do transporte internacional do Brasil, em termos gerais), o que significa que fertilizantes importados tendem a depender fortemente de portos, navegação e frete. Em cenários de ruptura (pandemia, guerras, restrições comerciais, gargalos portuários), o custo logístico vira custo agrícola.
A crise de 2022 (guerra Rússia–Ucrânia) foi um “teste de estresse” desse modelo. Houve disparadas importantes em nitrogenados, com registros de valorização de três dígitos em determinadas referências internacionais de ureia no período. O recado foi simples: potência agrícola sem amortecedor industrial de insumos críticos é potência vulnerável.
O ponto central é que essa dependência não apareceu do nada. O Brasil já teve uma arquitetura estatal e paraestatal mais robusta no setor. E, nos últimos anos, uma reversão parcial voltou ao radar — com destaque para a retomada operacional de unidades nitrogenadas pela Petrobras.
Em janeiro de 2026, a Petrobras comunicou a entrada em operação das FAFENs da Bahia (Camaçari) e de Sergipe (Laranjeiras), com capacidades informadas de 1.300 t/dia e 1.800 t/dia de ureia, respectivamente (aproximadamente 5% e 7% do mercado nacional, conforme a própria companhia). Essa retomada é relevante não só pelo volume, mas pela sinalização: fertilizantes voltaram a ser tratados como tema estratégico.
No caso da Araucária Nitrogenados (ANSA), a Petrobras aprovou em 2024 o processo de reativação e comunicou a capacidade da planta (ureia, amônia e ARLA 32), recolocando o segmento no seu portfólio estratégico. A mensagem é clara: sem algum núcleo de produção doméstica, o país fica apenas “tomador de preço” no insumo que define custo e produtividade do agro.
Mas há um elefante na sala: viabilidade econômica. Produzir nitrogenados no Brasil frequentemente esbarra no custo do gás natural, escala e concorrência internacional. Isso não invalida a estratégia — apenas muda o critério: fertilizantes não são uma decisão apenas de “margem no trimestre”, e sim de resiliência sistêmica. Países grandes tratam isso como política pública, não apenas como planilha de curto prazo.
É por isso que o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF 2022–2050) é um marco institucional: o plano foi formalmente instituído por decreto e estrutura diretrizes e objetivos de longo prazo. O PNF reconhece, na prática, que dependência externa elevada em insumos críticos pode virar risco macroeconômico, logístico e de segurança alimentar — e propõe uma trajetória para reduzir essa vulnerabilidade.
A agenda, porém, precisa ser integrada. Retomar ureia e amônia ajuda, mas não resolve o “calcanhar de Aquiles” mineral (potássio e fosfato). A transição exige combinar: (i) produção nitrogenada competitiva com gás em condições adequadas, (ii) projetos minerais com governança ambiental e social robusta, e (iii) inovação e eficiência agronômica para reduzir intensidade de uso sem perder produtividade.
Nesse terceiro eixo, o Brasil tem uma vantagem real: tecnologia tropical. A discussão sobre fixação biológica de nitrogênio e outras soluções (bioinsumos, remineralizadores, circularidade de nutrientes) não é “alternativa romântica”; é parte de uma estratégia de redução de risco. Mesmo assim, a conta é técnica: essas soluções tendem a ser complementares, exigindo escala, padronização e tempo de difusão.
O que precisa mudar é a lógica: o Brasil não pode aceitar ser campeão de exportação agro e, ao mesmo tempo, operar como importador cativo do insumo mais crítico do processo produtivo. O debate correto é cadeia completa: do gás e da mineração à química de base, da logística ao P&D, do crédito rural à política industrial.
Em termos práticos, três decisões organizam o problema: gás competitivo, escala/coordenação (para viabilizar plantas e investimentos), e instrumentos estratégicos (estoques, compras coordenadas, incentivos e regras que evitem que o país reconstrua capacidade hoje para desmontá-la amanhã). Sem isso, a história se repete: na calmaria, “não vale a pena”; na crise, “ninguém consegue comprar”.
A dependência de fertilizantes é, no fundo, uma metáfora do modelo de desenvolvimento: exportar produto final do campo e importar a base industrial que o torna possível. Se o Brasil quer ser potência agrícola soberana — e não apenas potência agrícola vulnerável — precisa tratar fertilizantes como aquilo que são: infraestrutura econômica invisível do agro, tão estratégica quanto energia, logística e tecnologia.


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