Brasil: Se ninguém gasta o PIB afunda!

O PIB brasileiro caiu 0,2% no primeiro trimestre de 2019 na comparação com o trimestre anterior. O crescimento do PIB acumulado em 4 trimestres esta em 0,9%. Na margem a agropecuária caiu 0,5%, a indústria caiu 0,7% e os serviços subiram 0,2%. Do lado da demanda o consumo das famílias subiu 0,3%, do governo subiu 0,4%. O investimento despencou 1,7% em relação ao último trimestre de 2018. Da perspectiva subsetorial a indústria extrativa afundou 6,3% por conta do acidente da Vale. A construção civil apresentou forte queda de 2% e indústria da transformação caiu 0,5%. Destaque de expansão ficou com o subsetor de distribuição de eletricidade e gás, água e esgoto. As exportações caíram 1,9% e as importações subiram 0,5%. Nossa renda per capita segue em queda. O PIB de uma economia a cada momento do tempo depende do total de gastos agregados dos consumidores, dos empresários, dos estrangeiros e do governo (C+I+G+X). Se ninguém gasta, o PIB afunda; havendo capacidade instalada ociosa, a oferta geral da economia sempre responde a demanda. Enquanto o consumidor e o empresário ficam pensando se vão gastar hoje, amanhã ou depois de amanhã o PIB já vai afundando. As decisões de produção são diárias e vão se desdobrando no tempo. O que impede os consumidores e empresários de gastarem é a incerteza sobre o futuro: em relação a emprego e renda e retornos de investimentos.

Em momentos de crise os agentes privados vão ficando cada vez mais medrosos. Param de consumir, param de gastar, ficam líquidos e tentam pagar dívidas. Esse movimento defensivo agrava ainda mais a crise pois vai jogando a economia num buraco. Enquanto os empresários não sentirem e acreditarem que voltarão a vender, que suas lojas e fábricas voltarão a ficar cheias não investem. Enquanto os consumidores não sentirem segurança de emprego e salário no futuro não compram bens. Enquanto os bancos não enxergarem perspectivas de ganho não emprestam. A economia mergulha numa espiral de crise, isso observamos agora na conjuntura brasileira.
O ideal para o Brasil seria uma expansão puxada por investimentos e exportações industriais, a la Alemanha e Leste Asiático; é bem mais saudável do que as tradicionais expansões latino-americanas em geral lideradas por ciclos de consumo das famílias baseados em expansão de credito e gastos do governo (não em infra-estrutura). Um ciclo de crescimento puxado por exportações e investimentos (FBCF) gera nova e moderna capacidade instalada e traz um saldo estrutural de dólares para o país. Ciclos de consumo de famílias e gastos do governo podem gerar dívida externa excessiva, pressão nas contas externas e pressão na inflação se não houver resposta dos investimentos. Foi o que observamos no Brasil dos 2011 a 2014.

No final das contas a conexão da necessária reforma da previdência com o gasto de consumidores e empresários é muito tênue. Com desemprego elevado, dívidas, lojas e fábricas vazias nem empresários investem nem consumidores consomem. Juros baixos num ambiente de spread alto e muitas dívidas também não funcionam. Câmbio desvalorizado quase não tem força para estimular nossa pequena indústria, agora ainda mais defasada tecnologicamente. O governo não fará investimento público, a política fiscal contracionista segue firme e forte; nossas exportações, cada vez mais dependentes de commodities, não terão força para puxar o PIB. Seguiremos em estagnação.

2 thoughts on “Brasil: Se ninguém gasta o PIB afunda!”

  1. Prezado prof. Paulo o sr vê como necessários incentivos do governo para o setor de exportação e formação bruta de capital fixo ? Imagina que uma aprovação da reforma da previdência abaixo de 800 bilhões abrirá espaço para estímulos populistas do governo para a demanda agregada, famílias e campeões nacionais ? Ou seja o crescimento tipo voo de galinha é mais provável novamente?

  2. Professor,

    Concordo plenamente com a sua leitura.
    Tenho apenas algumas dúvidas.

    Na situação de estagnação atual, para estimular a demanda não seria mais fácil estimulamos o consumo das famílias, fazendo planos de refinanciamento de dívidas para os 63 milhões que estão com o nome sujo, associando com investimentos públicos em PPP’s, pensando inicialmente em obras de infraestrutura e construção civil, que empregam muito?

    Sobre as reformas, acho que a da previdência é fundamental, mas mais importante ainda seria a tributária, não acha? Você acha que seria melhor uma tributação mais progressiva?

    Por fim, uma estratégia de política industrial para aumentar a nossa participação em manufaturados e em novas tecnologias.

    Ou seja, é pedir tanto que acho que continuaremos estagnados.

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