Braskem, uma possível Embraer do setor petroquímico brasileiro

A Braskem pode ser vista como uma possível “Embraer do setor petroquímico brasileiro”, uma analogia que ressalta o potencial estratégico da empresa para o país, especialmente em termos de inovação, inserção internacional e geração de valor agregado. Assim como a Embraer consolidou-se como um símbolo da engenharia nacional ao competir globalmente em um setor de alta complexidade tecnológica, a Braskem representa uma rara presença brasileira com escala e relevância global na indústria química. No entanto, diferentemente da Embraer, que encontrou caminhos para crescer por meio de parcerias, inovação e foco em nichos estratégicos, a Braskem ainda enfrenta obstáculos estruturais que limitam sua competitividade.

A ideia de transformar a Braskem em uma plataforma industrial estratégica para o Brasil passa por reconhecer sua capacidade instalada, sua expertise em petroquímica e a importância de uma cadeia integrada de produção. Como fornecedora de matérias-primas para diversos setores – embalagens, construção civil, automotivo e agronegócio – a empresa tem papel essencial na base industrial brasileira. Tal como a Embraer ajudou a desenvolver uma cadeia de fornecedores de alta tecnologia, a Braskem também pode impulsionar o fortalecimento de ecossistemas industriais se tiver um projeto claro de longo prazo que combine inovação, sustentabilidade e competitividade global.

Para isso, a transição da Braskem para um modelo mais sustentável, com foco em matérias-primas renováveis e processamento de gás natural, é um passo importante. Assim como a Embraer soube se adaptar às exigências ambientais e de mercado da aviação moderna, a Braskem também precisa reposicionar-se frente à crescente pressão por descarbonização e economia circular. Com centros de pesquisa e desenvolvimento, capacidade de produzir biopolímeros e atuação em mercados internacionais, a empresa tem os ativos necessários para liderar uma nova fase da indústria química no Brasil – mais limpa, eficiente e inovadora.

No entanto, ao contrário da Embraer, que contou com apoio decisivo do Estado brasileiro em sua formação e expansão, a trajetória da Braskem tem sido marcada por incertezas acionárias, disputas societárias e episódios de crise, como o desastre geológico de Alagoas. Superar essas dificuldades e estabelecer uma governança estável será fundamental para que a empresa assuma um papel mais claro como motor de política industrial e tecnológica do país, com um olhar voltado não apenas para o lucro de curto prazo, mas para o desenvolvimento nacional.

Se bem conduzida, a Braskem pode deixar de ser apenas uma petroquímica brasileira em meio a um mercado global agressivo e passar a ser um exemplo de como o país pode competir com inteligência em setores industriais estratégicos. Tal como a Embraer ajudou a projetar o Brasil no setor aeroespacial, a Braskem, com investimentos certos e orientação estratégica, pode ser a vitrine do Brasil verde, industrial e competitivo do século XXI.


A Braskem, uma das maiores petroquímicas do mundo, enfrenta desde 2021 uma perda contínua de competitividade, em sintonia com o ciclo de baixa do setor global. Esse período coincide com os esforços de venda da participação da Novonor, sua controladora, o que atraiu o interesse de diversos investidores nacionais e estrangeiros. Apesar do longo processo de due diligence e das discussões envolvendo novos controladores, os problemas da empresa não estão ligados à indefinição acionária. São desafios estruturais, próprios do modelo de negócios da companhia, que exigem mudanças profundas e estratégias de transformação.

Nos últimos anos, a Braskem vem priorizando o aumento de rentabilidade, em detrimento do crescimento puramente em escala. Mesmo ocupando a sétima posição entre as maiores petroquímicas do mundo, a empresa prefere se manter nesse patamar com margens melhores, do que crescer em volume sem ganhos econômicos. Em vez de ampliar sua capacidade de produção com base em matérias-primas fósseis, a companhia aposta na expansão da produção “verde” e no processamento de gás natural, como caminho para maior eficiência e sustentabilidade. A ampliação da capacidade sem ganhos de competitividade é vista como um agravante para os desafios atuais da Braskem.

Como parte do esforço de reposicionamento, a empresa realizará em maio um “non deal roadshow” — uma série de reuniões com investidores, sem objetivo imediato de captação de recursos. O objetivo é apresentar a nova estratégia e demonstrar que a Braskem está em um processo de transformação estrutural. Ainda que não pretenda buscar novos aportes nesse momento, a companhia mantém a possibilidade aberta caso haja interesse do mercado diante da sua nova direção estratégica.

Um dos maiores desafios enfrentados pela Braskem foi o incidente geológico relacionado à extração de sal-gema em Alagoas. A empresa já realizou provisões financeiras significativas para lidar com os custos desse episódio, que envolveu o preenchimento das cavernas com areia como medida para estabilizar o solo e evitar novos problemas. Esse evento gerou impactos relevantes nos balanços financeiros da companhia e reforçou a necessidade de uma gestão de riscos mais rigorosa.

Com presença relevante no mercado brasileiro e centros de desenvolvimento tecnológico voltados para inovação em resinas especiais, a Braskem busca recuperar a fatia de mercado perdida nos últimos anos, estimada entre 15% e 20%. A produção petroquímica baseada em gás natural continua sendo uma vantagem de competidores internacionais, como os Estados Unidos, mas o custo logístico de importação abre uma janela de oportunidade para a empresa. Ao focar na modernização de processos, na sustentabilidade e na diferenciação tecnológica, a Braskem tenta reconstruir sua competitividade com um olhar para o futuro, independentemente de quem seja seu controlador.

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