Breve história da Argentina

*escrito por Felipe Augusto

Breve história de como o país teria despencado do topo do desenvolvimento econômico no séc. XX. Resposta curta: especialização em bens primários e recusa das elites de ceder poder e riqueza. Quem diz isso é Acemoglu, economista celebrado por liberais. Perguntado por que a Austrália é rica e a Argentina não, Acemoglu afirmou que a Austrália se tornou industrial, e que a postura da elite da Argentina explica a instabilidade política recorrente do país. Antes, uma ressalva: alguns analistas não consideram que a Argentina era tão desenvolvida quanto sua renda per capita indicava (6ª maior em 1896). Indicadores como expectativa de vida, matrículas no ensino fundamental e analfabetismo não se destacavam. A elite argentina se beneficiou da grande melhora dos termos de troca de suas commodities durante o século XIX. Essa melhora impactou diferentemente o interior e o litoral do país. O interior, que foi colonizado antes, era mais populoso e não tinha mais para onde expandir a fronteira de produção agropecuária, estagnou, enquanto o litoral, que tinha mais terras disponíveis, cresceu. Com a economia estagnada e a ausência de terras no interior, os camponeses não puderam fazer como nos EUA, cuja expansão ao oeste e o Homestead Act permitiram uma melhor distribuição de terras, com efeitos perenes para o desenvolvimento político-econômico do país.

Tampouco puderam ser alocados na indústria, que declinou com a concorrência dos manufaturados britânicos. Segundo Francis, em 1913 a produção industrial per capita argentina era apenas 1/2 da australiana, 1/5 da canadense e 1/10 da americana. Ademais, os latifundiários conseguiram manter o controle político do governo federal em Buenos Aires, impedindo os camponeses de obterem terras ou melhores condições de vida. Por fim, o racismo dificultava a migração interna dos camponeses para o litoral em ascensão. A concentração de terras e o crescimento populacional significava que os salários permaneciam muito baixos, de modo que os capitalistas tinham menos incentivos para investir em automação, já que era mais barato contratar trabalhadores adicionais quando necessário. O conflito social se tornou dramático com a deterioração dos termos de troca no entreguerras e a crise de 1929. Em 1930 ocorreria o primeiro golpe militar, apoiado pelos latifundiários. É justamente a partir daí que a rpc argentina começa a se descolar da de países similares. Perón assume em 1946 com um projeto de industrialização liderado pelo Estado, reforçado por Frondizi. A Argentina cresce tanto ou mais que países similares, mas 4 golpes em 30 anos limitam o seu impacto. O próprio Brasil cresce mais nesse período, sob modelo similar. Corroborando a visão de Acemoglu, enquanto a Austrália teve mais de 25% de emprego industrial durante três décadas entre os anos 1940 e 1970, a Argentina teve apenas uma entre os anos 1950 e 1960.

A boca do jacaré abriria mesmo com o golpe de 1976 que, não por acaso, foi precedido por anos de aumento de salários e queda de lucros. A elite, representada pelo Ministro ultraliberal Martínez de Hoz, sonhava com os anos dourados agroexportadores. Entre 1976 e 2002, a experiência liberal fez a rpc cair no país (-5%). Os governos Kirchner, com todas as limitações e erros cometidos, fizeram a rpc aumentar 61% até 2015, quando Macri assume e as políticas neoliberais voltam, mais uma vez sem sucesso. Em suma, o próprio desempenho argentino no século XIX não era excepcional. E, na raiz da queda/estagnação, está a instabilidade política provocada por elites nostálgicas da suposta prosperidade da era agroexportadora.

Acemoglu:

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