Cacau ou chocolate? Medindo a escada de Reinert no comércio mundial


O economista norueguês Erik Reinert passou a carreira defendendo uma ideia simples e incômoda: não importa só quanto um país produz, importa o que ele produz. Algumas atividades sustentam salários altos; outras, por mais eficientes que sejam, condenam quem as faz a salários baixos. Para organizar essa ideia, Reinert propôs nos anos 1990 um Índice de Qualidade das Atividades Econômicas: uma escada que vai da concorrência perfeita, lá embaixo, até a concorrência imperfeita e dinâmica, lá em cima. Reinert o usou como ferramenta conceitual, ilustrada com casos: o açúcar e o tabaco cubanos, as bolas de beisebol costuradas à mão no Haiti, as bolas de golfe fabricadas nos Estados Unidos. Em um paper novo, medi essa escada com dados de comércio mundial para 1.241 produtos entre 1995 e 2024. Os resultados dão razão a Reinert de um jeito impressionante.


Como medir a qualidade de uma atividade

Reinert define a qualidade de uma atividade pela sua capacidade de sustentar salários altos. Isso pode ser lido diretamente nos dados: basta olhar quem exporta cada produto. Um bem exportado sobretudo por países ricos é um bem que se consegue vender no mundo pagando salários altos. Um bem exportado sobretudo por países pobres é um bem em que o salário baixo é a condição de competir. A medida, a renda média dos exportadores de cada produto, já existe na literatura de sofisticação das exportações (o PRODY de Hausmann, Hwang e Rodrik). O que o paper faz é lê-la como o índice de Reinert.

A escada existe

A renda dos exportadores varia quase quatro vezes entre o quinto mais baixo e o quinto mais alto dos produtos: de cerca de 8,3 mil para 30,6 mil dólares per capita. Embaixo, 42% dos produtos são básicos; em cima, só 8%. Química, máquinas e instrumentos são 9% da base e 55% do topo. Os extremos falam por si. Os oito produtos com exportadores mais pobres, com renda média em torno de 2 mil dólares, são algodão em bruto, minério de cobalto, minério de urânio, cravo, castanha de caju e coco, baunilha, bauxita e minério de nióbio. No topo, acima de 44 mil dólares, estão química fina, insumos farmacêuticos, hormônios e relógios de metais preciosos.
As características que Reinert atribui às atividades de alta qualidade aparecem nos dados: poucos países conseguem exportá-las, os que conseguem são diversificados, os produtos se ligam a muitos outros, o comércio é estável e a demanda cresce.

O Índice de Complexidade de Produtos, do Atlas de Harvard, captura sozinho mais da metade da variação na renda dos exportadores. Em outras palavras: a complexidade econômica é a versão medida do que Reinert descreveu.
Há também um degrau intermediário. Têxteis, couro e calçados são manufaturas, mas ficam com complexidade negativa, ao lado das matérias-primas. São as “manufaturas maduras” de Reinert, que deixaram de mudar tecnicamente e migraram para países de salário baixo. A bola de beisebol costurada à mão pertence a esse grupo.

Cacau ou chocolate

O teste mais intuitivo compara matérias-primas com os produtos feitos a partir delas. Em todos os dez pares analisados, o produto processado é exportado por países mais ricos e tem comércio mais estável.

Cacau e chocolate: a renda média dos exportadores de cacau é de 3,9 mil dólares; a dos exportadores de chocolate, 21,7 mil. O valor do comércio de cacau oscila três vezes mais.

Borracha e pneus: 4,5 mil contra 20 mil dólares, e a borracha oscila quase cinco vezes mais. Quem lembra do ciclo da borracha na Amazônia sabe o que essa volatilidade significa.

Café e café solúvel: 4,8 mil contra 16,5 mil.

Algodão e tecido de algodão: 3,4 mil contra 9,4 mil.

É o “contraponto cubano” de Fernando Ortiz, e a velha observação de Henrique VII de que quem vendia lã era pobre e quem fazia tecido era rico, medidos no comércio mundial inteiro.

Eficientes e pobres

Reinert chamou de “subdesenvolvimento schumpeteriano” a situação de países que são os mais eficientes do mundo naquilo que fazem e continuam pobres. Os dados mostram isso diretamente. Países da metade mais pobre do mundo são o maior exportador de 27% dos produtos menos complexos, e de apenas 1% dos mais complexos.

Os exemplos são eloquentes: a Indonésia lidera o óleo de palma, com 51% das exportações mundiais; a Guiné, a bauxita, com 74%; o Congo, o cobalto, com 52%; a Índia, o arroz, com 33%; a Costa do Marfim, o cacau, com 31%; o Equador, a banana, com 27%. São líderes mundiais. E continuam pobres, porque a produtividade deles chega aos compradores na forma de preço baixo, não aos trabalhadores na forma de salário alto.

Uma exceção aponta o caminho. A Indonésia também lidera hoje as exportações de aço inoxidável semiacabado, com 57% do mercado, um produto de complexidade alta. Chegou lá depois de restringir a exportação de minério de níquel e exigir o processamento em casa. É exatamente a política que Reinert, seguindo List, recomendaria: usar a matéria-prima como alavanca para subir um degrau.
Subir a escada é lento
A qualidade da pauta exportadora de um país acompanha de perto sua renda: a correlação é de quase 0,8. E muda devagar. Em quase três décadas, 57% dos países ficaram no mesmo quartil de qualidade exportadora. Dos 40 países com a pior pauta em 1995, 30 continuavam no último quartil em 2024, e nenhum chegou ao topo.
Quem consegue subir colhe resultado: países com pauta 10% melhor em 1995 cresceram cerca de 0,2 ponto percentual a mais por ano nas duas décadas seguintes, para o mesmo nível de renda inicial. É uma correlação, não prova de causalidade, mas aponta na direção que Reinert previa.

A llição: O Brasil exporta café em grão, soja, minério de ferro e carne com uma eficiência que poucos países igualam. A escada de Reinert lembra que eficiência, sozinha, não é desenvolvimento. O que um país exporta define em que degrau seus trabalhadores estão. E os degraus de cima não se alcançam por acaso: exigem acumular, deliberadamente e por décadas, as capacidades que permitem fazer o chocolate, e não só colher o cacau.


Contrapontos: as matérias-primas e o que se faz com elas


Em 1940, o antropólogo cubano Fernando Ortiz publicou Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar. Cuba produzia as duas coisas com eficiência, mas elas criavam sociedades opostas. O tabaco, cultivado com cuidado, enrolado à mão e vendido com marca, sustentava uma classe média de pequenos produtores e artesãos. O açúcar, colhido em massa e vendido como mercadoria anônima, com preço que subia e despencava, criava senhores e escravos. Quatro séculos antes, Henrique VII da Inglaterra tinha chegado a uma conclusão parecida: quem vendia lã era pobre, quem fazia tecido de lã era rico. A política inglesa passou a reter a lã e fabricar o pano em casa.
No paper em que meço o Índice de Qualidade das Atividades Econômicas de Erik Reinert com dados de comércio mundial, repeti o contraponto de Ortiz em escala global. Peguei dez matérias-primas e, para cada uma, um produto feito a partir dela. O resultado foi o mesmo nos dez pares: o produto processado é exportado por países mais ricos e tem um comércio mais estável.
Três números para cada produto
Para comparar os pares, usei três indicadores.
Renda dos exportadores (PRODY). É a renda per capita média dos países que exportam o produto, em dólares de 2011, dando mais peso a quem depende mais dele. É a medida de Hausmann, Hwang e Rodrik que leio como o índice de Reinert: mostra que salário uma atividade consegue sustentar.
Volatilidade. Mede quanto o valor do comércio mundial do produto oscila de um ano para o outro. Para matérias-primas, quase toda essa oscilação é preço.
Complexidade (PCI). O índice do Atlas de Harvard, que mede quão raro e sofisticado é o conhecimento necessário para produzir o bem. Valores negativos indicam produtos simples.

Cacau e chocolate
É o par mais extremo. Quem exporta cacau tem, em média, um quinto da renda de quem exporta chocolate, e o valor do comércio de cacau oscila três vezes mais. Os maiores exportadores de cacau são Costa do Marfim, Equador, Gana e Nigéria. Os maiores exportadores de chocolate são Alemanha, Bélgica, Itália e Polônia, países que não plantam um único pé de cacau. A amêndoa vale cerca de 10 bilhões de dólares por ano no comércio mundial; o chocolate, mais de 34 bilhões.


Borracha e pneus
Aqui está a maior queda de volatilidade da tabela: o comércio de borracha oscila quase cinco vezes mais que o de pneus. Para nós, brasileiros, o par tem gosto amargo. A Amazônia viveu o ciclo da borracha no fim do século XIX, e ele desabou quando as plantações asiáticas, formadas com sementes levadas do Brasil, passaram a produzir mais barato. Hoje a borracha natural sai de Tailândia, Indonésia e Costa do Marfim. Os pneus saem de China, Tailândia, Alemanha e Japão, num mercado de mais de 90 bilhões de dólares por ano, seis vezes o da borracha.


Café e café solúvel
O Brasil é o maior exportador de café do mundo, com um quinto do mercado. No café solúvel e nos extratos, o líder é a Alemanha. A renda média dos exportadores de café solúvel é mais que três vezes a dos exportadores de café em grão. O Brasil aparece em segundo lugar nos extratos, o que mostra que subir a escada é possível, mas a distância entre os dois degraus continua grande.


Algodão e tecido
Este par traz uma lição sobre o próprio indicador. Os maiores exportadores de algodão em pluma são Estados Unidos, Brasil e Austrália, países de renda média e alta. Mesmo assim, a renda média dos exportadores é de apenas 3,4 mil dólares. Isso acontece porque o PRODY dá mais peso a quem depende do produto, e os países que vivem do algodão são pobres: Burkina Faso, Mali, Benin. Para os Estados Unidos, o algodão é uma linha pequena da pauta. Para eles, é a pauta. O tecido de algodão, por sua vez, é dominado pela China, com metade do mercado.


Madeira e papel
As toras de madeira têm exportadores com renda de 9,6 mil dólares; o papel revestido, de quase 33 mil. É o maior salto absoluto da tabela. Os líderes do papel são China, Finlândia, Suécia e Alemanha. A Finlândia é o exemplo clássico de um país que transformou floresta em indústria, e depois em máquinas para a indústria de papel, em vez de vender toras.


Minério e aço, petróleo e plástico
O minério de ferro é dominado por Austrália, com mais da metade do mercado, e Brasil, com um quinto. O aço laminado é dominado por China, Japão e Coreia. O minério oscila mais que o aço, mas a diferença é menor que nos produtos tropicais, porque o aço também é uma mercadoria cíclica.


O petróleo é a exceção aparente. Seus exportadores têm renda alta, 22 mil dólares, porque muitos países do Golfo enriqueceram com ele. Mas é renda de recurso natural, não de atividade produtiva, e o petróleo tem um dos comércios mais voláteis de toda a base. O polietileno, primeiro degrau da petroquímica, tem exportadores ainda mais ricos e um comércio quatro vezes mais estável.
Os três casos que quase empatam
Três pares mostram diferenças pequenas, e cada um tem uma explicação que o próprio Reinert anteciparia.

Lã e tecido de lã. A lã crua é exportada por Austrália, África do Sul e Nova Zelândia, que somam mais de quatro quintos do mercado. São as “áreas de colonização recente” que Reinert trata como exceção: exportadores ricos de matéria-prima que, ao mesmo tempo, protegeram e construíram suas próprias indústrias.


Couro cru e couro acabado. O curtume é uma indústria madura, que parou de mudar tecnicamente. Nesses casos, processar acrescenta pouca qualidade à matéria-prima.

Açúcar e charutos. O par original de Ortiz quase empata, e a culpa é da classificação. A mesma linha estatística mistura charutos enrolados à mão com cigarros fabricados em massa. Os maiores exportadores hoje são Polônia, Emirados Árabes e Alemanha, não Cuba. O tabaco de Ortiz, artesanal e com marca, não aparece separado nos dados. É o aviso de Reinert: a qualidade de uma atividade mora num nível de detalhe mais fino do que qualquer estatística alcança.


A lição
Em todos os casos, a matéria-prima é plantada ou extraída onde a natureza permite. O processamento, que acrescenta aprendizado, escala, marca e estabilidade de preço, acontece em outro lugar. O Brasil aparece do lado das matérias-primas em quase toda a tabela: café, algodão, minério, açúcar. Ser o maior produtor do mundo dessas coisas é resultado de muita competência. Mas a renda dos trabalhadores de um país depende do degrau da escada em que ele está, e a tabela mostra, par por par, onde estão os degraus de cima.

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