Califórnia, Colômbia e Marrocos: a mesma gente, economias de outro mundo

Coloque lado a lado a Califórnia, a Colômbia e o Marrocos. São três lugares com populações muito parecidas, entre 38 e 54 milhões de habitantes. Qualquer um deles caberia confortavelmente numa lista de “países médios” do mundo. Mas quando olhamos para o que essas pessoas produzem, a semelhança desaparece por completo.

A Califórnia, com menos gente que a Colômbia, gera quase dez vezes o PIB colombiano e mais de vinte vezes o marroquino. Não se trata de uma diferença de grau, mas de escala. É como se estivéssemos comparando economias de mundos diferentes, habitados por populações do mesmo tamanho.

Os números

PIB 2025 (US$)

População

PIB per capita (US$)

Califórnia

4,25 trilhões

39,4 milhões

~108 mil

Colômbia

~440 a 460 bilhões

53,4 milhões

~8,4 mil

Marrocos

~180 bilhões

37,8 milhões

~4,8 mil

A Califórnia cresceu 5% em termos nominais em 2025 e chegou a US$ 4,25 trilhões, quase 14% da economia americana. Se fosse um país, estaria entre as cinco maiores economias do planeta, disputando posição com Japão, Reino Unido e Índia.

A Colômbia tem a maior população dos três, mas um PIB que não chega a um nono do californiano. O Marrocos, com praticamente a mesma população da Califórnia, produz o equivalente a cerca de 4% do que produz o estado americano.

O dado mais revelador é o PIB per capita. Um californiano médio gera cerca de 13 vezes mais valor que um colombiano e mais de 20 vezes o que gera um marroquino. A Colômbia, por sua vez, tem renda per capita quase duas vezes maior que a do Marrocos.

O que explica o abismo

População não explica riqueza. O que explica é o que cada economia sabe fazer. A diferença entre esses três lugares está na estrutura produtiva, ou seja, na quantidade e na sofisticação das capacidades acumuladas por suas empresas, trabalhadores e instituições.

A economia californiana é liderada por serviços profissionais, tecnologia da informação, software, design de semicondutores, biotecnologia e entretenimento. São atividades com retornos crescentes de escala, alto conteúdo de conhecimento e enorme poder de mercado global. Até a agricultura da Califórnia é intensiva em tecnologia. O setor de informação foi o que mais cresceu no estado na última década, mais que dobrando de tamanho.

A Colômbia ainda depende fortemente de petróleo, carvão, café, flores e ouro na sua pauta exportadora. São produtos importantes, mas de baixa complexidade, sujeitos a preços voláteis e com poucos encadeamentos produtivos. O Marrocos tem feito um esforço interessante de diversificação, com a indústria automobilística em Tânger e Kenitra e a cadeia de fosfatos e fertilizantes, mas parte de uma base muito mais estreita e ainda depende de turismo, remessas e agricultura sensível à seca.

É exatamente o que a teoria da complexidade econômica prevê. Países ficam ricos quando conseguem produzir coisas difíceis, que poucos sabem fazer. A produtividade média de uma economia é reflexo direto do seu mix de setores.

E se ajustarmos pelos preços?

Uma objeção comum é que comparar PIB em dólares correntes exagera as diferenças, porque a vida é muito mais barata em Bogotá ou Casablanca do que em Los Angeles. A objeção é correta, e o ajuste por paridade de poder de compra reduz bastante o abismo.

Por esse critério, o FMI estima o PIB colombiano em cerca de US$ 1,2 trilhão e o marroquino em cerca de US$ 435 bilhões. A renda per capita ajustada fica perto de US$ 22 mil na Colômbia e US$ 11,5 mil no Marrocos. A Califórnia, que já tem preços acima da média americana, continua gerando algo entre quatro e cinco vezes a renda colombiana por habitante, e cerca de oito vezes a marroquina.

O ajuste muda a magnitude, mas não a história. E há um ponto que costuma ser esquecido: preços baixos de serviços não tratados internacionalmente são, eles mesmos, sintoma de baixa produtividade. É o efeito Balassa-Samuelson em ação. Países pobres são baratos justamente porque seus setores de alta produtividade são pequenos demais para puxar salários e preços para cima.

A lição para o Brasil

A comparação entre Califórnia, Colômbia e Marrocos é uma aula prática sobre desenvolvimento. Tamanho de população, extensão territorial e dotação de recursos naturais não determinam a riqueza de uma sociedade. O que determina é a capacidade de produzir bens e serviços sofisticados, com alta produtividade e retornos crescentes.

O Brasil, com mais de 210 milhões de habitantes, conhece bem essa armadilha. Temos escala, recursos e um mercado interno enorme, mas uma estrutura produtiva que se desindustrializou precocemente e voltou a depender de commodities. Colômbia e Marrocos mostram o que acontece com economias que não sobem a escada da complexidade. A Califórnia mostra o que acontece com as que sobem.

A pergunta relevante para qualquer país de renda média não é quantos somos, nem quanto temos embaixo da terra. É o que sabemos fazer, e o que estamos fazendo para aprender a fazer coisas mais difíceis.

Nota metodológica

PIB da Califórnia do BEA, via governo do estado e população do Census Bureau para julho de 2025. PIB de Colômbia e Marrocos do FMI (World Economic Outlook), cujas edições variam; por isso o intervalo para a Colômbia (fonte 1, fonte 2) e os dados do Marrocos. População colombiana das projeções da ONU via Worldometer; a marroquina é a implícita nos dados do FMI.

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