No livro Governing the Market, Robert Wade analisa a trajetória de industrialização bem-sucedida de Taiwan, argumentando que seu crescimento econômico acelerado não foi resultado exclusivo de forças de mercado ou da aplicação de políticas liberais, mas sim de uma forte intervenção estatal. Ele contesta a visão do livre mercado como motor principal do desenvolvimento asiático, mostrando como o Estado taiwanês “governou o mercado”, moldando incentivos, orientando recursos e controlando os setores estratégicos da economia. Wade chama esse modelo de “capitalismo governado” (governed capitalism), no qual a coordenação público-privada foi essencial para a transformação estrutural.
A história começa no pós-Segunda Guerra, quando Taiwan, então uma ilha agrária e pobre, passou por uma profunda reforma agrária e reorganização institucional sob influência dos Estados Unidos. A partir da década de 1960, o governo iniciou um processo de industrialização liderado pelo Estado, com forte uso de políticas industriais, incluindo proteção seletiva, crédito direcionado e controle de importações. O Estado criou instituições como o Conselho para o Desenvolvimento Econômico e o Ministério de Assuntos Econômicos, que coordenavam o desenvolvimento de setores prioritários e garantiam a competitividade externa.
O modelo de desenvolvimento adotado por Taiwan não se baseou em campeões nacionais protegidos indefinidamente, mas em uma lógica de “exportação disciplinada”. As empresas eram incentivadas a competir internacionalmente e só recebiam apoio estatal contínuo se mostrassem desempenho exportador. O governo utilizava bancos públicos para direcionar crédito e controlava a taxa de câmbio para manter a competitividade. Também promovia tecnologia e capacitação produtiva por meio de centros de pesquisa e instituições como o ITRI (Industrial Technology Research Institute).
Wade enfatiza que o sucesso taiwanês também foi possível devido à qualidade da burocracia estatal. Os tecnocratas do governo, bem treinados e relativamente imunes a pressões clientelistas, tinham autonomia para formular e implementar políticas de longo prazo. Além disso, o Estado evitou a formação de conglomerados monopolistas como os chaebols da Coreia, preferindo uma estrutura industrial mais fragmentada e baseada em pequenas e médias empresas, integradas a redes de exportação.
O autor também destaca que Taiwan seguiu uma trajetória distinta da visão neoliberal que viria a dominar o Consenso de Washington. O país não liberalizou seu mercado financeiro nos anos 1970-1980, manteve controle sobre o fluxo de capitais e evitou abertura prematura da conta de capitais. Ao contrário das recomendações do FMI e do Banco Mundial, Taiwan protegeu setores estratégicos até que estivessem prontos para competir internacionalmente.
Por fim, Wade conclui que o caso de Taiwan mostra que o desenvolvimento econômico acelerado pode ser promovido por meio de políticas industriais ativas e por um Estado competente, contradizendo as prescrições de laissez-faire. Governing the Market tornou-se uma referência nos debates sobre industrialização tardia, e sua análise ajuda a entender como alguns países conseguiram escapar da armadilha da renda média ao rejeitar o dogma liberal e apostar em estratégias pragmáticas, coordenadas e adaptativas de desenvolvimento.

