Elites, Estrutura Produtiva e o Destino do Desenvolvimento à Luz de Gabriel Palma
1. Introdução: duas lógicas de acumulação
A história do desenvolvimento econômico pode ser lida como a disputa entre duas formas distintas de capitalismo. De um lado, um capitalismo ricardiano, centrado na apropriação de rendas derivadas de recursos naturais escassos — minério de ferro, soja, petróleo, cobre — cuja dinâmica distributiva e política tende a concentrar riqueza e poder em torno de setores primários exportadores. De outro, um capitalismo schumpeteriano, orientado à inovação, à transformação estrutural e à criação de novos setores intensivos em tecnologia — semicondutores, máquinas, aviões, equipamentos de precisão, biotecnologia.
A diferença entre esses dois regimes de acumulação não é apenas setorial; é institucional, distributiva e política. Ela define o padrão de investimento das elites, o tipo de Estado que emerge, o padrão de desigualdade e, em última instância, a trajetória de crescimento de longo prazo. É nesse ponto que os trabalhos de Gabriel Palma oferecem uma lente analítica poderosa: eles mostram como a estrutura produtiva e o padrão distributivo interagem, moldando as coalizões dominantes e o tipo de capitalismo que se consolida.
2. O capitalismo ricardiano: renda, escassez e captura
O termo “ricardiano” remete à teoria da renda da terra de David Ricardo. Em economias onde a riqueza provém majoritariamente de recursos naturais escassos, a renda econômica — isto é, o excedente acima do custo de produção — tende a ser elevada e relativamente fácil de capturar.
Nesses contextos:
A lucratividade não depende fundamentalmente de inovação contínua. A produtividade cresce mais por expansão de fronteira (terra, jazidas, reservas) do que por complexificação produtiva. O investimento concentra-se na ampliação da extração e na infraestrutura logística associada. As elites econômicas passam a orbitar os setores exportadores primários.
Gabriel Palma argumenta que, na América Latina, a reprimarização recente das exportações reforçou um padrão histórico em que a renda de commodities reorganiza a estrutura de incentivos. Em vez de induzir diversificação produtiva, os booms de commodities frequentemente fortalecem grupos já dominantes e reduzem a pressão por upgrading industrial.
O resultado é um capitalismo com baixa intensidade inovadora e alta dependência externa.
3. Desindustrialização prematura e a “síndrome latino-americana”
Palma foi um dos autores que mais enfatizou a questão da desindustrialização prematura na América Latina. Diferentemente da experiência asiática, em que a indústria se expandiu até níveis elevados de renda per capita, vários países latino-americanos começaram a perder participação industrial ainda em estágios intermediários de desenvolvimento.
Essa dinâmica está associada a três fatores centrais:
Câmbio apreciado em ciclos de boom de commodities. Alta rentabilidade relativa do setor primário. Baixo compromisso das elites com políticas industriais de longo prazo.
Em um capitalismo ricardiano, a rentabilidade imediata das commodities reduz o apetite para investimentos arriscados em setores tecnologicamente complexos. A lógica é rentista, não inovadora.
4. Estrutura distributiva e o “Palma Ratio”
Um dos conceitos mais conhecidos de Gabriel Palma é o Palma Ratio, que mede a desigualdade como a razão entre a renda do decil mais rico e a dos 40% mais pobres. Palma mostrou que a participação da classe média tende a ser relativamente estável internacionalmente; a grande variação ocorre entre os muito ricos e os muito pobres.
Nos países de capitalismo ricardiano:
A concentração de renda no topo é elevada. A renda do capital ligado a recursos naturais amplia a desigualdade. O padrão distributivo reforça coalizões conservadoras.
Em contraste, economias schumpeterianas frequentemente apresentam maior reinvestimento produtivo, salários industriais mais elevados e maior difusão tecnológica, o que altera o equilíbrio distributivo.
5. O capitalismo schumpeteriano: destruição criativa e complexidade
O capitalismo schumpeteriano é baseado na ideia de destruição criativa. A rentabilidade não decorre da escassez natural, mas da inovação contínua. Nesse modelo:
As elites investem em P&D. O Estado coordena missões tecnológicas. A indústria lidera a transformação estrutural. O sistema financeiro canaliza recursos para setores estratégicos.
Aqui, a renda não é dada pela natureza; ela é criada pela capacidade tecnológica. A acumulação depende da capacidade de produzir bens cada vez mais complexos.
É o modelo observado na Coreia do Sul, em Taiwan, na Alemanha e, em larga medida, nos Estados Unidos.
6. Elites e coalizões de desenvolvimento
Palma destaca que a trajetória de um país depende do comportamento de suas elites econômicas. Se as elites estão confortáveis com rendas primárias, elas tenderão a:
Resistir a políticas industriais que aumentem concorrência. Defender câmbio valorizado. Favorecer liberalização financeira pró-rentismo.
Por outro lado, elites industriais inovadoras pressionam por:
Crédito de longo prazo. Política cambial competitiva. Proteção estratégica temporária. Investimento público em ciência e tecnologia.
A diferença entre os dois capitalismos é, portanto, política e institucional.
7. O papel do câmbio e da macroeconomia
Um elemento central na análise de Palma é o papel do câmbio real. Economias dependentes de commodities tendem a sofrer apreciações cambiais recorrentes, fenômeno associado à chamada “doença holandesa”.
No capitalismo ricardiano:
O câmbio apreciado barateia importações. A indústria perde competitividade. A estrutura produtiva simplifica-se.
Já no capitalismo schumpeteriano, o Estado atua para preservar competitividade externa, garantindo que setores tecnologicamente sofisticados se expandam.
8. Reprimarização e armadilha de renda média
Palma também contribui para o debate sobre a “armadilha da renda média”. Economias que não conseguem transitar para setores tecnologicamente avançados tendem a estagnar.
O capitalismo ricardiano cria uma ilusão de prosperidade durante ciclos favoráveis de preços internacionais. Porém, sem diversificação produtiva, o crescimento é volátil e vulnerável.
A transição para um capitalismo schumpeteriano exige:
Política industrial ativa. Coordenação público-privada. Financiamento direcionado. Reformas institucionais pró-inovação.
9. América Latina versus Ásia: trajetórias divergentes
A comparação entre América Latina e Leste Asiático ilustra bem o contraste.
Na Ásia:
As elites foram disciplinadas pelo Estado. O crédito foi direcionado. O foco foi exportação industrial. Houve forte investimento em educação técnica.
Na América Latina:
Booms de commodities reforçaram estruturas existentes. A desigualdade limitou mercado interno sofisticado. O sistema financeiro favoreceu rentismo.
Palma argumenta que não se trata de determinismo geográfico, mas de escolhas políticas e coalizões sociais.
10. Conclusão: escolha estrutural
A distinção entre capitalismo ricardiano e schumpeteriano não é apenas teórica. Ela define o tipo de país que se constrói.
No capitalismo ricardiano:
A renda vem da natureza. A inovação é secundária. A desigualdade é elevada. O crescimento é volátil.
No capitalismo schumpeteriano:
A renda vem da capacidade tecnológica. A inovação é central. O investimento produtivo lidera. O crescimento é sustentado.
Os trabalhos de Gabriel Palma mostram que a estrutura produtiva e o padrão distributivo são interdependentes. Mudar de um regime para outro exige alterar incentivos macroeconômicos, financeiros e políticos.
Em última instância, trata-se de uma escolha de projeto nacional: permanecer dependente da renda de commodities ou construir capacidades produtivas complexas capazes de sustentar desenvolvimento de longo prazo.
A história econômica demonstra que apenas o segundo caminho gera prosperidade duradoura.
Aqui vão os trabalhos do José Gabriel (Gabriel) Palma que são mais diretamente úteis para sustentar essa dicotomia capitalismo ricardiano (renda de recursos naturais / reprimarização / “uncreative destruction”) vs. capitalismo schumpeteriano (inovação / manufaturas complexas / transformação estrutural) — com uma frase sobre por que cada um é relevante.
Núcleo “Ricardiano vs. Schumpeteriano”: estrutura produtiva, (des)industrialização e Dutch disease
Palma, J. G. (2005). Four sources of ‘de-industrialisation’ and a new concept of the ‘Dutch-disease’. Em: J. A. Ocampo (ed.), Beyond Reforms: Structural Dynamics and Macroeconomic Vulnerability. Por quê é central: é o texto-chave para amarrar boom de commodities, apreciação cambial, perda de manufaturas e um tipo de “doença holandesa” que empurra a economia para rendas (lógica ricardiana) em vez de upgrading industrial. Palma, J. G. (2019). Deindustrialization, “premature” deindustrialization, and the Dutch disease. Por quê é central: sistematiza o debate sobre manufatura como motor de produtividade e discute a “premature deindustrialization” em países de renda média—ponte direta para a ideia de elites e investimento migrando para rendas de commodities. Palma, J. G. (2014). De-industrialisation, ‘premature’ de-industrialisation and the Dutch-disease (versões em WP/ensaio). Por quê é central: aprofunda a tipologia de fontes de desindustrialização e a ideia de “policy-induced uncreative destruction”, muito alinhada com o seu “capitalismo ricardiano” como regime político-econômico.
Produtividade, transformação estrutural e “travamento” latino-americano
Palma, J. G. (2011). “Why has productivity growth in Latin America practically stagnated since 1980?” Em: J. A. Ocampo & J. Ros (eds.), capítulo sobre produtividade/estagnação. Por quê é central: dá a narrativa de longo prazo para mostrar como (des)industrialização e especialização primária se conectam à estagnação de produtividade — base para contrapor ao padrão schumpeteriano.
Distribuição, elites e a “assinatura” do topo (Palma Ratio)
Palma, J. G. (2011). Homogeneous Middles vs. Heterogeneous Tails, and the End of the ‘Inverted-U’: It’s All About the Share of the Rich. Development and Change. Por quê é central: funda a intuição de que a desigualdade “é sobre as caudas” (especialmente o topo), ótimo para ligar coalizões rentistas a regimes ricardianos. Palma, J. G. (2014). Has the Income Share of the Middle and Upper-middle Been Stable around the ‘50/50 Rule’, or Has it Converged towards that Level? The ‘Palma Ratio’ Revisited. Development and Change. Por quê é central: consolida o Palma Ratio e permite você conectar estrutura produtiva + poder do topo + padrão de investimento (renda vs inovação). Palma, J. G. (2016). Do nations just get the inequality they deserve? The ‘Palma Ratio’ re-examined (Cambridge Working Paper). Por quê é central: útil para discutir desigualdade como resultado de “arranjos político-institucionais” — exatamente onde você encaixa “elites ricardianas” vs “elites schumpeterianas”.
Globalização, financeirização e forças “centrífugas” (renda e concentração)
Palma, J. G. (2006/2015 – versões). Globalizing Inequality: ‘Centrifugal’ and ‘Centripetal’ Forces at Work (working paper). Por quê é relevante: ajuda a articular globalização/finanças e concentração no topo, reforçando a leitura de capitalismo de renda (quando o topo captura e desloca a estrutura de incentivos).

