*por Igor Rocha, economista chefe da FIESP
Cenário Global
O ambiente internacional segue marcado por incerteza econômica e comercial em níveis historicamente elevados, segundo indicadores de Baker, Bloom e Davis e de Caldara et al. A instabilidade política e as medidas protecionistas impostas pelos EUA têm ampliado os riscos, pressionando cadeias de valor e fluxos de comércio. As projeções do FMI de julho de 2025 revisaram para baixo o crescimento global: de 3,3% em janeiro para 3,0% em julho. O recuo foi puxado por expectativas menores para EUA (de 2,7% para 1,9%) e China (de 4,6% para 4,8%), além da Zona do Euro, que deve crescer apenas 1,0%. O mundo, assim, entra em 2025 com atividade mais moderada. Outro destaque foi a ruptura na relação histórica entre o dólar (Índice DXY) e os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 anos, sugerindo uma dinâmica diferente da esperada para o câmbio e os juros globais.
Cenário Doméstico
No Brasil, o mercado de trabalho mantém trajetória positiva. A taxa de desemprego atingiu mínimas históricas, em torno de 5,7% enquanto a ocupação formal e informal continua crescendo. Esse movimento sustenta a renda, que apresentou alta real de 3,3% em junho de 2025 frente a junho de 2024. A massa salarial ampliada avançou 5,9% no mesmo período. Apesar disso, os sinais de desaceleração já se manifestam no crédito. As concessões para pessoas físicas mostram perda de fôlego, refletindo os efeitos dos juros elevados. Já o crédito para pessoas jurídicas ainda mantém algum dinamismo, especialmente em linhas direcionadas.
Atividade Industrial
A produção industrial segue em crescimento, mas com ritmo mais lento. O mapa de calor dos setores aponta aumento de segmentos em arrefecimento. A indústria extrativa se mantém forte, enquanto a de transformação perdeu tração no segundo trimestre. O perfil da demanda reflete a sensibilidade ao crédito: setores como veículos, informática, eletrônicos, materiais de construção e mobiliário são fortemente afetados pelos juros altos. Já atividades dependentes de renda, como alimentos, bebidas, vestuário, calçados, químicos e farmacêuticos, apresentam resiliência maior. A fabricação de alimentos sofre com aumento de preços e natureza cíclica do setor de carnes, enquanto a produção de veículos leves segue em alta, apoiada por compras de locadoras, safra recorde, exportações em recuperação e programas governamentais de incentivo. Em contraste, a produção de veículos pesados desacelera, penalizada pelo crédito restrito, mesmo com recuperação das exportações e programas como o Caminho da Escola.
Na construção civil, a produção de insumos e as vendas imobiliárias perderam força, impactadas pelo crédito imobiliário caro e custos elevados. Máquinas e equipamentos ainda sustentam bom desempenho, apoiados na agricultura e mineração, mas podem sentir a fraqueza da indústria de transformação e da construção. Já o setor de papel e celulose mostra sinais de arrefecimento, influenciado pela queda nas exportações.
Perspectivas
O Banco Central mantém a Selic em 15%, indicando que a taxa deve permanecer nesse patamar restritivo por período prolongado. A expectativa de cortes está concentrada apenas para março de 2026. As condições financeiras, medidas pelo Indicador da FIESP (ICF), permanecem restritivas, reforçando o cenário de aperto.
O Fiesp Data Tracker aponta que, no 2º trimestre de 2025, o PIB deve ter crescimento modesto de 0,2% em relação ao trimestre anterior. O setor agropecuário deve cair 0,6%, enquanto a indústria geral avança 0,4% e os serviços, 0,3%. Pelo lado da demanda, o consumo das famílias cresce 0,6%, mas investimentos e consumo do governo recuam.
No acumulado do ano, o PIB deve crescer 2,4%, sustentado por setores menos sensíveis aos juros, como agropecuária e indústria extrativa, além de estímulos à demanda (consignado privado, Minha Casa Minha Vida, liberação de FGTS e crédito do BNDES). O mercado de trabalho aquecido também contribui. Entretanto, a alta dos juros, a desaceleração da massa salarial e o ambiente externo desfavorável limitam o crescimento.
A indústria de transformação, altamente vulnerável à Selic elevada, deve ter crescimento nulo em 2025 após expansão de 3,7% em 2024, e queda projetada de 0,9% em 2026.




O artigo do Igor é uma bela síntese da conjuntura econômica, combinando precisão analítica com clareza na exposição. Seu trabalho enriquece o debate e orienta decisões com profundidade e objetividade. Parabéns