Centro e periferia, 60 anos depois: por que quase ninguém convergiu — e o que a complexidade econômica tem a dizer

Um paper recém-publicado na New Political Economy, por Jason Hickel e coautores, revisita uma das perguntas mais antigas da economia do desenvolvimento: a distância entre os países ricos do “centro” e os países pobres da “periferia” está diminuindo? A promessa da globalização e da liberalização dos mercados era essa — integre-se ao comércio mundial, atraia capital, e a convergência virá. Os autores foram checar os dados desde 1960. O resultado é desconfortável.

Em termos absolutos, o hiato de renda entre centro e periferia não encolheu: aumentou algo entre 170% e 270%, dependendo do conceito de moeda utilizado. O centro capturou de 4 a 10 vezes mais renda do que a periferia ao longo do período. Em termos relativos, a renda da periferia como proporção da renda do centro melhorou no máximo 3 pontos percentuais em seis décadas — e essa melhora modesta se deve inteiramente a um único país: a China. Tirando a China da conta, a posição relativa da periferia piorou. A parcela da população mundial vivendo na periferia, aliás, subiu de 80% para 86%. O clube dos ricos ficou mais exclusivo, não menos.

O timing da deterioração também é revelador. A desigualdade centro-periferia piorou com força justamente nas décadas de 1980 e 1990 — os anos do ajuste estrutural, da crise da dívida e do Consenso de Washington — quando quatro das sete regiões periféricas sofreram contrações prolongadas enquanto o centro seguia crescendo. A melhora parcial veio depois de 2000, empurrada pelo boom de commodities puxado pela demanda chinesa. Nós, brasileiros, conhecemos bem esse filme: crescemos quando o mundo compra caro o que a nossa geologia e o nosso clima produzem.

E os casos de sucesso? Dezoito países saíram da periferia e entraram no centro no período — Coreia do Sul e Taiwan são os exemplos clássicos. Mas somados eles representam apenas 1,9% da população mundial. E aqui vem o argumento mais provocador do paper: esses países teriam sido integrados ao centro por razões geopolíticas da Guerra Fria, com uma licença especial para praticar política industrial dirigida pelo Estado — exatamente a estratégia que as instituições multilaterais desaconselhavam (ou vetavam) para o resto da periferia. Faça o que eu digo, não faça o que a Coreia fez.

Hickel, fiel à tradição do sistema-mundo de Wallerstein, tira daí uma conclusão radical: a convergência ampla seria estruturalmente improvável dentro do capitalismo global tal como organizado, e o desenvolvimento do Sul exigiria algum grau de “delinking” do poder dos países centrais.

É aqui que eu proponho uma leitura complementar — e, a meu ver, mais precisa sobre o mecanismo. Os fatos que o paper documenta são exatamente os fatos que a complexidade econômica prevê. A periferia não é pobre porque comercia com o centro; é pobre porque ocupa a periferia do espaço de produtos. Quem exporta minério, soja, petróleo e cacau está posicionado nas ilhas isoladas do mapa produtivo mundial, sem pontes para os produtos sofisticados que concentram o conhecimento — e a renda. E posição, nesse mapa, é destino que se auto-reforça: quem está no centro do product space tem centenas de caminhos curtos para diversificar; quem está na periferia caminha em becos sem saída, por mais que cresça durante um superciclo de commodities.

A Coreia e Taiwan não convergiram porque receberam um convite do clube. Convergiram porque acumularam capacidades produtivas — caminharam décadas pelo espaço de produtos, dos têxteis e da madeira compensada para o aço, os navios, a eletrônica, os automóveis e os semicondutores, cada passo abrindo a ponte para o passo seguinte. A geopolítica ajudou, sem dúvida: deu acesso a mercados, tolerou a política industrial, financiou a caminhada. Mas o conteúdo da caminhada foi conhecimento, não permissão. Prova disso é que outros países igualmente “autorizados” e regados a ajuda externa não chegaram lá.

A tradução para o Brasil é direta, e Celso Furtado a escreveu antes de existir big data para confirmá-la: não há desenvolvimento sem transformação da estrutura produtiva. Sessenta anos de dados agora mostram que a liberalização, sozinha, não move ninguém de lugar no mapa — e que todos os que se moveram usaram política industrial deliberada para isso. A conclusão que tiro não é o delinking, mas o seu oposto sofisticado: conectar-se ao mundo subindo a escada de complexidade, usando o Estado para construir as pontes que a geografia econômica não oferece de graça. O problema do Brasil nunca foi comerciar com o centro. É comerciar com o centro vendendo há dois séculos, essencialmente, os mesmos produtos.

O paper é aberto e vale a leitura, inclusive (e sobretudo) para quem discorda do arcabouço teórico. Os dados são um espelho incômodo: o mundo não convergiu, os que convergiram usaram o manual que mandaram a periferia queimar, e o relógio das commodities não vai tocar para sempre.

Referência: Hickel, J. et al. (2026). Artigo sobre desigualdade centro-periferia, 1960–presente. New Political Economy (open access).

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