Cimento: A indústria que construiu capacidade para uma demanda que o país interrompeu

Poucos setores contam a história do investimento brasileiro com tanta clareza quanto o cimento. É uma indústria sem mistério tecnológico, sem concorrência importada, sem disputa de mercado externo. Vende praticamente tudo que produz dentro do país, para obras que acontecem a algumas centenas de quilômetros da fábrica. Justamente por isso, quando ela vai mal, a explicação não está na competitividade nem na produtividade. Está na demanda. E a demanda, no cimento, é quase sinônimo de investimento em infraestrutura e habitação.

Os números são eloquentes. O consumo bateu o recorde histórico em 2014, com 73 milhões de toneladas vendidas, na esteira do PAC 2, que havia elevado os investimentos em infraestrutura pouco antes da crise econômica. Nos quatro anos seguintes, o setor perdeu quase 20 milhões de toneladas e chegou ao fundo em 2018, perto de 53 milhões. Para efeito de comparação, é como se um quarto da indústria tivesse simplesmente desaparecido.

A recuperação veio, mas devagar e sem fôlego para recompor o que se perdeu. O triênio 2019-2021 trouxe crescimentos de 3,5%, 10,6% e 6,5%, seguidos de dois anos de queda leve. 2024 fechou em torno de 64,7 milhões de toneladas, alta de 3,9%, revertendo as retrações de 2022 e 2023, e 2025 terminou em 67,3 milhões. Em 2026, as vendas de janeiro a agosto somaram 45 milhões de toneladas, crescimento de 1,8% na comparação anual. Doze anos depois do pico, o setor ainda opera cerca de 8% abaixo dele.

O erro de dimensionamento

O ponto mais interessante não é a queda, é o que veio antes dela. Enquanto a demanda subia, os grupos cimenteiros investiram pesado em capacidade. Foram quase 40 novas fábricas construídas entre 2006 e 2015, entre integradas e moagens. O problema é o descompasso temporal: o prazo entre os estudos preliminares e o funcionamento de uma fábrica de cimento é de três a cinco anos, a escala mínima é de 1 milhão de toneladas por ano e o investimento fica entre 200 e 300 milhões de dólares. Quem decidiu investir em 2011 inaugurou a planta em 2015, exatamente no fundo do poço.

O resultado é uma indústria estruturalmente superdimensionada. A capacidade instalada hoje chega a 109,3 milhões de toneladas por ano, distribuída por 23 grupos industriais em 81 municípios de 23 estados, com 20 mil empregos diretos. Com vendas de 67 milhões, o setor opera com capacidade ociosa de quase 40%. E isso já depois do ajuste feito na marra: até o fim de 2020 foram fechadas ou paralisadas 19 plantas, das quais 17 seguiam inativas, somando 11,1 milhões de toneladas de capacidade.

Vale notar que o cimento não tem a válvula de escape que outras indústrias têm. O produto não viaja: o custo de transporte inviabiliza levar excedente para longe, quanto mais exportá-lo. Sobra capacidade parada.

O que sustenta a demanda hoje

A recuperação recente tem um motor claro, e ele é público. O Minha Casa, Minha Vida respondeu por 58% dos lançamentos imobiliários no segundo trimestre de 2026, a maior participação desde o início da série histórica, e o número de unidades financiadas para construção pelo SBPE cresceu 174% no primeiro semestre. Contra isso pesam juros elevados, inadimplência, endividamento das famílias e queda na confiança de consumidores e empresas.

Duas frentes novas merecem atenção. A primeira é o pavimento rígido de concreto, com projetos rodoviários em whitetopping e pavimento urbano de concreto já implementado em mais de 170 cidades. A segunda é o saneamento: os investimentos previstos só devem ser sentidos na indústria do cimento em dois ou três anos, quando as obras atingirem a fase de construção das estações de tratamento.

Há também uma frente de custo. O Brasil emite 580 kg de CO₂ por tonelada de cimento, abaixo da média global de 610, e tem 32% da matriz energética do setor em combustíveis alternativos, índice inferior apenas ao da União Europeia. A regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões, que o setor negocia com a Fazenda, vai definir se essa vantagem vira ativo ou passivo.

O que o caso ensina

O cimento é um fracasso de tipo diferente daquele que costumo discutir aqui. Não houve perda de capacidade técnica, não houve substituição por importação, não houve empresa nacional engolida por concorrente mais produtivo. O parque está lá, moderno, com 40% dele desligado. O que faltou foi demanda, e a demanda faltou porque o país interrompeu um ciclo de investimento público no meio.

Isso tem uma implicação otimista e outra pessimista. A otimista é que esse tipo de ociosidade se resolve rápido: se a infraestrutura voltar, a capacidade está pronta e não precisa de cinco anos de maturação. A pessimista é que a decisão não é do setor privado. Nenhum grupo cimenteiro vai construir a próxima fábrica antes de acreditar que o investimento público será sustentado por uma década. E depois do que aconteceu entre 2015 e 2018, essa é uma aposta que ninguém no setor quer fazer duas vezes.

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