Cimentos Dangote: uma incrível história de sucesso na política industrial da Nigéria

*escrito com Felipe Augusto

É a estrutura produtiva que deve determinar os Acordos e as estratégias comerciais, e não o contrário. a política industrial nigeriana voltada à produção de cimento alterou o padrão colonial de comércio. O padrão colonial, liderado por empresas europeias, não gerou encadeamentos locais e não permitiu o surgimento de empresas de capital africano. Com 90 milhões de pessoas morando nas cidades, a Nigéria tem um grande potencial a ser explorado com vistas à industrialização.

O governo começou limitando as licenças de importação somente àquelas empresas que produzissem cimento localmente utilizando insumos nacionais. Ademais, ajudou as empresas a conseguirem empréstimos baratos de corporações financeiras internacionais. Isentou impostos (VAT, impostos de importação sobre máquinas e equipamentos e impostos sobre investimentos). Estabeleceu Comitês público-privados para reduzir barreiras não tarifárias e facilitar o comércio com vizinhos, além de instituir programas de transporte alternativos. As Importações, que representavam 76,5% do consumo doméstico quando a política foi implementada em 2002, caíram para apenas 3,5% em 2018. A Produção doméstica saiu de 3 para 45 milhões t, com 95% dos insumos fornecidos localmente. As Exportações cresceram 65% (maior crescimento setorial).

Não se tratou apenas de quantidade. O cimento da Dangote, principal produtora nigeriana e 10ª maior do mundo, foi o primeiro na África a obter o mais alto grau de qualidade. Em 2010, criou um Instituto para treinar os empregados a adquirirem novas habilidades. Após atingir autossuficiência na produção de cimento em 2014/2015, as maiores empresas do país passaram a investir em países vizinhos. Hoje, por exemplo, a Dangote que administra a sua própria cadeia regional de valor. uma estratégia de inserção em cadeias globais de valor já em 2002 teria limitado o aprendizado organizacional e produtivo obtido pelas empresas com a criação de cadeias produtivas inteiras no país. Como resultado, as diversas estratégias de expansão da Dangote não teriam sido possíveis. Outros países africanos que aderiram a cadeias de valor antes de desenvolverem aprendizado produtivo não foram bem-sucedidos

Referências

https://www.academia.edu/40890497/Is_traditional_industrial_policy_defunct_Evidence_from_the_Nigerian_cement_industry

https://theconversation.com/amp/africa-should-focus-on-industrialisation-free-trade-will-follow-127142?__twitter_impression=true


A Dangote Cement é a maior produtora de cimento da Nigéria e a décima maior do mundo, desempenhando um papel estratégico no desenvolvimento industrial da África. Fundada como parte do Dangote Group, o conglomerado diversificado de Aliko Dangote, a empresa expandiu rapidamente sua produção e conquistou um padrão de qualidade inédito no continente, sendo a primeira africana a obter o mais alto grau de certificação internacional para cimento.

Autossuficiência e Estratégia de Expansão

Entre 2014 e 2015, a Nigéria atingiu a autossuficiência na produção de cimento, um marco impulsionado pelos investimentos da Dangote. Esse avanço permitiu que grandes empresas nigerianas, incluindo a própria Dangote Cement, ampliassem seus negócios para mercados regionais, consolidando uma cadeia regional de valor autônoma. A estratégia da empresa baseia-se na integração vertical, garantindo controle sobre mineração, produção, distribuição e comercialização do cimento.

Além da Nigéria, a Dangote Cement opera fábricas e unidades de distribuição em vários países africanos, incluindo Gana, Senegal, Camarões, Etiópia, Tanzânia, Zâmbia e África do Sul. Esse modelo fortalece a industrialização regional e promove substituição de importações, reduzindo a dependência de fornecedores externos e impulsionando a economia local.

Aprendizado Organizacional e Desenvolvimento Industrial

Um fator crucial para o sucesso da Dangote foi sua foco no aprendizado organizacional e produtivo antes de se integrar às cadeias globais de valor. A empresa investiu significativamente na capacitação de sua força de trabalho, criando em 2010 o Dangote Academy, um instituto dedicado ao treinamento de empregados em diversas áreas, como engenharia, gestão industrial e operações de fábrica. Essa estratégia garantiu um alto nível de qualificação dos trabalhadores e permitiu à empresa operar em padrões internacionais de qualidade e eficiência.

Em contraste, alguns países africanos que buscaram integração precoce em cadeias globais de valor, antes de desenvolverem capacidades produtivas próprias, não obtiveram sucesso semelhante. A entrada antecipada em cadeias globais pode restringir o aprendizado industrial interno, limitando a criação de conhecimento local e a diversificação da economia.

O Impacto no Desenvolvimento Industrial da África

O modelo da Dangote Cement demonstra que a industrialização liderada por empresas locais pode ser uma estratégia eficiente para o desenvolvimento econômico na África. Em vez de depender de multinacionais estrangeiras para suprir sua demanda por cimento, a Nigéria e outros países africanos passaram a exportar o produto, criando um ecossistema produtivo mais resiliente e competitivo.

Além disso, a empresa tem investido em inovação e sustentabilidade, buscando reduzir as emissões de carbono na produção de cimento e promovendo o uso de fontes alternativas de energia, como carvão mineral local e biomassa.

Conclusão

A Dangote Cement é um exemplo de como a industrialização liderada por empresas africanas pode transformar a estrutura econômica do continente. Sua abordagem estratégica de autossuficiência, aprendizado organizacional e expansão regional fortaleceu a indústria de cimento da Nigéria e abriu caminho para novas oportunidades de desenvolvimento no setor manufatureiro africano. Seu sucesso reforça a importância de um planejamento industrial sólido antes da inserção em cadeias globais de valor, garantindo que o conhecimento produtivo e organizacional seja absorvido e consolidado localmente.

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