Comentário sobre a reação do mercado à decisão do Copom

O mercado digeriu com rapidez a decisão do Copom de elevar a taxa Selic para 15%, o que representou uma certa surpresa — pelo menos metade dos agentes não esperava esse movimento. A curva de juros reagiu de forma positiva, com fechamento de cerca de 10 basis points em toda a parte intermediária e longa. Essa queda nos juros longos é relevante, pois eles são referência fundamental para o custo do endividamento de longo prazo da economia e também para o financiamento do Tesouro Nacional.

Quando o Banco Central eleva os juros curtos e os juros longos caem, isso indica que o mercado acredita na eficácia da política monetária. É um sinal de que a âncora monetária está funcionando e que a autoridade monetária será firme no combate à inflação. Essa postura mais “hawkish” tende a ancorar as expectativas, reduzindo tanto a inflação futura quanto os juros futuros.

Com esse movimento, o país dá mais um passo importante na direção de trazer a inflação deste ano para a casa dos 5%, ou até abaixo disso. O Boletim Focus da próxima semana será importante para confirmar essa tendência, mas por ora, a leitura da curva é bastante construtiva.

Incluo aqui um gráfico do IPCA ao longo dos últimos 20 anos, que mostra como, durante o período entre 2010 e 2015 — especialmente na gestão de Alexandre Tombini no primeiro governo Dilma — a inflação raramente ficou abaixo de 5,80%. Foram anos de IPCA persistentemente alto, que culminaram na escalada inflacionária de 2015, quando o índice ultrapassou os 10%. Esse ciclo só começou a se reverter após o Banco Central aplicar um forte aperto monetário, com a Selic alcançando 14,25%.

Após a pandemia, vimos nova aceleração inflacionária, seguida de um forte aumento da Selic até 13,75%, o que resultou na desaceleração da inflação. Agora, com este novo choque de juros e uma taxa de câmbio que tende a se apreciar (eventualmente indo para o intervalo entre R$5,40 e R$5,00), o mercado projeta uma inflação abaixo de 5% para este ano e, possivelmente, entre 3,5% e 4,5% para os próximos anos.

A principal mensagem é clara: o choque de juros funciona. A experiência da era Tombini mostra os riscos de hesitar — foram cinco anos com inflação persistentemente em torno de 6% ao ano. Já o cenário atual, com um Banco Central mais firme, aponta para uma trajetória de desinflação consistente. A curva de juros fechando bem hoje é um reflexo direto dessa leitura.

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