Como a pobre Coreia do Sul conseguiu produzir TVs de LCD?

*escrito com Uallace Moreira

A tecnologia de fabricação de LCD foi caracterizada por diversas ondas de inovação. Isso significava que, de vez em quando, uma nova maneira de fazer LCDs era descoberta. Essas mudanças na tecnologia possibilitaram a produção de monitores maiores, melhores e mais baratos, mas somente depois que os fabricantes escalaram uma curva de aprendizado na qual produziram telas com prejuízo enquanto aprendiam a nova tecnologia. Embora a tecnologia LCD tenha sido disponibilizada pela primeira vez na década de 1960, ela só se tornou uma tecnologia de exibição comercialmente viável na década de 1990. Foi então que a Coréia do Sul decidiu superar o Japão e pular uma geração inteira de manufatura. Isso significava produzir LCDs mesmo que a um custo mais alto do que seus concorrentes não LCD, em uma aposta em ser o primeiro a escalar a próxima curva de aprendizado. A aposta da Coreia foi arriscada, mas funcionou. Durante os anos 2000, o país se tornou um participante dominante no mercado de LCD, passando de cerca de 5% em 1995 para cerca de 20% em 2012. Isso ocorreu em um mercado de exportação em rápido crescimento, que passou de menos de US $ 5 bilhões em 1995 para mais de $ 80 bilhões em 2010. Para explicar o sucesso da Coreia no mercado de LCD é relevante entender o arcabouço teórido de Keun Lee (2013). Para o autor, a inovação tecnológica pode ser considerada como a exploração dos estoques de conhecimento disponíveis para gerar novos conhecimentos. É o estoque de conhecimento uma das fontes da construção das capacidades tecnológicas, ou melhor, das vantagens competitivas das nações. Nesse sentido, existe um processo assimétrico entre o grau de desenvolvimento das vantagens competitivas entre as nações desenvolvidas e as nações em desenvolvimento, ou retardatárias.

A capacidade dos países retardatários em criar estoque local de conhecimento, ou seja, o graude difusão de conhecimento intranacional e intrafirma é proporcional ao nível de capacidade tecnológica do país, embora também seja afetada pelas diferenças organizacionais entre as empresas. Para Keun Lee (2013), o termo central sobre upgrading tecnológico e aprendizado nos países de catching up é a capacidade de absorção, ou seja, a capacidade de uma empresa de identificar, absorver e entender o conhecimento técnico que permite a introdução de produtos e processos novos para a empresa. A capacidade de absorção é ela própria determinada por muitos fatores, alguns internos à empresa (atividades internas de P&D, qualificação e experiência da gerência e força de trabalho, tamanho da empresa, idade da empresa), outros externos (ambiente de mercado, acesso ao capital, infraestrutura pública de P&D, apoio governamental). No caso da Coreia do Sul, a relação entre as grandes corporações nacionais – conhecidas como Chaebols – e o Estado foi essencial na trajetória de catch up tecnológico e desenvolvimento econômico do país. Um dos exemplos dessa relação é a construção do Sistema Nacional de Inovação (SNI) do país, que tem como atores fundamentais os chaebols e as instituições públicas de pesquisas.

Para Lee (2013), embora os grandes grupos empresariais dominem o SNI da Coréia por meio da pesquisa e desenvolvimento interno desde meados da década de 1980, foram os governos e os institutos de pesquisa públicas que lideraram o SNI da Coréia durante seu período inicial de catch up no país entre 1960 e 1970. Na década de 1970, a Coréia estava em transição das indústrias leve para pesada e química, mas sua base nacional de P&D era fraca. O governo coreano tentou, assim, promover a capacidade nacional de P&D, estabelecendo as universidades e centros de pesquisas públicos para atores essenciais para avançar na estratégia de inovação. Um número de instituições públicas de pesquisas foram criadas através da Lei de Promoção do Instituto de Pesquisa Especial em 1973, principalmente focado nos campos de máquinas, construção naval, engenharia química, ciências marinhas e eletrônica. A partir de meados da década de 1970, os chaebols começaram a crescer rapidamente com a diversificação ou entrada em indústrias pesadas e químicas. Posteriormente, o governo desempenhou um papel significativo ao fornecer a um número selecionado de grandes empresas alguns privilégios, como empréstimos bancários e acesso a divisas.

Mesmo nas décadas de 1980 e 1990, os chaebols foram auxiliados pelos consórcios público-privados de pesquisa liderados pelo governo para alcançar os principais objetivos de P&D, agora estabelecendo como prioridade o desenvolvimento do sistema de computadores, telecomunicação, desenvolvimento de chips de memória e projetos de TV digital. Com a finalidade de aprodundar o fortalecimento do desenvolvimento tecnológico do país, principalmente em aproximar mais as universidades e os grandes conglomerados – chaebols –  do país, o governo criou promulgou a Lei de Promoção de Transferência de Tecnologia em 2001, que simboliza um processo de transição de interesses para a industrialização do conhecimento. Esta lei determina que as universidades públicas devem criar unidades ou instituições, como os escritórios de licenciamento de tecnologia, responsáveis pela transferência de tecnologia e treinamento de especialistas.

Ainda com a finalidade de aproximar mais a universidade das grandes empresas do país, estimulando a cooperação indústria-universidade, o governo sul coreano estabeleceu um programa chamado de “cooperação-indústria-universidade” em 2004, após a promulgação da Lei de Educação Industrial e Cooperação Indústria-Universidade em 2003. Com essa lei , os direitos de propriedade intelectual dos resultados de pesquisa de professores universitários começaram a pertencer formalmente a universidades, enquanto no passado, professores individuais tendiam a registrar patentes como propriedade pessoal.

Como resultado da natureza interativa do aprendizado da inovação, a interface entre ciência e indústria tornou-se mais permeável nos vínculos gerais entre universidade-indústria, que também incluem institutos governamentais de pesquisa, tornou o sistema nacional de inovação um modo particularmente importante de transferência de conhecimento. A construção desse sistema nacional de inovação, aproximando cada ves mais a universidade das grandes empresas, estava associada também a uma estratégia de avançar em setores de maior intensidade tecnolígica, que Keun Lee (2013) chama de setores tecnológicos com produtos de ciclo de vida de curto prazo, ou seja, são produtos que tem constantes inovações, gerando janelas de oportunidades para que países possam alcançar o catch up e superar a armadilha da renda média. Em seus estudos, Lee (2013) mostra que os principais países avançados são especializados em setores com tempos de ciclo relativamente mais longos da tecnologia, enquanto países de industrialização tardia, como a Coreia do Sul e Taiwan, mostraram uma tendência a se concentrar em setores com tempos de ciclo relativamente mais curtos desde meados da década de 1980. Na verdade, esses países usaram essa estratégia de se especializar em produtos de ciclo de vida de curto prazo como mecanismo de avançar no catch up.

https://www.nae.edu/244740/The-Complexity-of-Increasing-Returns

Observatory of Economic Complexity, “Which countries export LCDs? (1995–2018),” https://oec.world/en/visualize/stacked/hs92/export/show/ all/189013/1995.2018/

https://www.youtube.com/watch?v=xh7MvzCY8Xw

LEE, Keun. Schumpeterian Analysis of Economic Catch-up: Knowledge, Path-creation and Middle-Income Trap. Cambridge University Press, 2013.

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