Como a União Soviética ajudou a Finlândia ao vencer a guerra: do agro para indústria

*escrito com André Roncaglia

Qual é o gatilho para o desenvolvimento industrial dos países? Esta é uma pergunta essencialmente histórica, sujeita às particularidades institucionais e estruturais de cada país. No entanto, o mecanismo que promove a mudança é conhecido há bastante tempo.

O tipo de limonada importa…

Ao final dos anos 1940, a Finlândia recebeu um limão bem amargo da União Soviética: a exigência de reparações de guerra. Pois bem, a Finlândia fez uma bela limonada que nutriu seu desenvolvimento!

O interessante artigo de Mitrunen (2019) faz uma análise rigorosa deste “choque adverso” que permitiu à Finlândia subir os degraus da escada tecnológica. Os dados mostram que as reparações de guerra da Finlândia à União Soviética levaram a uma “transformação estrutural forçada” que gerou efeitos de longo prazo (e intergeracionais) sobre a acumulação de capital humano, nível de salários e qualidade de empregos (blue to white collar).

Experimental Quase-Natural

O estudo (ainda não publicado) usa como “evento” as exigências feitas pela União Soviética para que a Finlândia cumprisse com as reparações de guerra, entre 1944 e 1952. Tal acordo forçou a Finlândia, à época predominantemente agrária, a dar 5% de seu PIB anual em bens manufaturados para a União Soviética. Para cumprir os termos, o governo finlandês forneceu subsídio de curto prazo à atividade manufatureira. O efeito: aumento persistente do emprego e da produção das indústrias beneficiadas e que eram intensivas em qualificação.

Usando dados em nível individual, o artigo mostra que a probabilidade de deixar a agricultura para trabalhar na indústria e nos serviços aumentou substancialmente nos municípios mais afetados pelo “choque” das reparações de guerra. E mais: esses efeitos foram persistentes. Mais de 20 anos após a intervenção, os trabalhadores realocados permaneceram em seus novos setores e tiveram salários mais elevados. A força de trabalho mais jovem fois positivamente afetada pelas novas oportunidades de uso intensivo de habilidades obtiveram educação superior e eram mais propensas a trabalhar em ocupações de colarinho branco em 1970.

Por fim, a política afetou a mobilidade intergeracional tanto na renda quanto na educação aumentou nas localidades mais expostas. Isto significa que filhos nascidos de pais pobres tiveram, a partir destas mudanças estruturais de longo prazo, maior probabilidade de ascender socialmente e atingir um nível de renda superior ao desfrutado por seus pais.

Nicholas Kaldor

Como argumentava o economista Nicholas Kaldor, seguindo Gunnar Myrdal, há uma relação positiva entre a taxa de crescimento da produtividade do trabalho e a de crescimento da produção industrial, conhecida na literatura como “lei de Kaldor-Verdoorn”. Há duas explicações na literatura kaldoriana para tal efeito. A primeira diz respeito à transferência de trabalhadores de setores de baixa produtividade (trabalho precário) para atividades industriais que apresentam produtividade elevada. Esse processo caracteriza a transição das economias da imaturidade para a maturidade.

A segunda razão para a correlação entre o produto da indústria e o aumento da produtividade relaciona-se à existência de retornos crescentes de escala estáticos e dinâmicos em atividades manufatureiras, derivados de “learning by doing”, externalidades positivas e transbordamentos (spill-overs) tecnológicos.

O setor industrial se destaca também numa economia pois de todos os subsetores produtivos é o que mais exerce efeitos de encadeamento para frente e para trás nas cadeias produtivas dos outros subsetores e em seu próprio subsetor. Isto ocorre porque a indústria de transformação demanda insumos e oferta produtos de e para todos os demais setores da economia, como também porque os elos de ligação entre os setores produtivos intra-indústria são mais densos. Movimentos de expansão ou contração no setor manufatureiro afetam mais o conjunto da economia do que impulsos observados fora desse setor.

Aprendendo a aprender

Apesar de focar uma experiência particular, o estudo corrobora uma proposição mais geral: ao deslocar a mão-de-obra da agricultura para a manufatura, a política industrial pode ter efeitos de longo prazo via aumento da acumulação de capital humano na próxima geração. Note que a relação de causa e efeito é a inversa àquela pregada pela ortodoxia de livre mercado. Como argumentamos detalhadamente em nosso livro Brasil, uma economia que não aprende, não é o mero investimento em educação que leva à acumulação da capital humano. A transformação estrutural da economia motiva, alavanca e fomenta a educação. A industrialização coloca mais gente na escola… e nas universidades!

O que a história ensina é que “choques adversos” são “limões” que a vida oferece aos países. Dentre todas as limonadas disponíveis, a pior delas é, certamente, comer o limão puro. Aprendamos com o caso finlandês: o tipo de limonada importa!

André Roncaglia é professor de economia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), pesquisador associado do CEBRAP Twitter: @andreroncaglia.

Paulo Gala é professor de economia da FGV-SP. Twitter: @PSGala1.

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