Como o Brasil Pode Liderar a Revolução Verde: o caso dos defensivos agrícolas

*escrito com Gustavo Pauro

O Brasil é uma potência agrícola indiscutível. Somos líderes mundiais na exportação de soja, milho, açúcar, café e carne bovina, com mais de 65 milhões de hectares destinados à agricultura. Nosso agronegócio alimenta centenas de milhões de pessoas em todo o mundo e representa uma das principais fontes de divisas para o país.

Mas, por trás dessa trajetória de sucesso, existe um paradoxo preocupante: desde 2008, o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta. Hoje, cerca de 20% de todo o volume de pesticidas comercializado no mundo é usado em nossas lavouras. Entre 2000 e 2010, o consumo global de agrotóxicos cresceu 100%, mas no Brasil a alta foi de quase 200%. Esse modelo, baseado na expansão intensiva do uso de defensivos químicos, trouxe ganhos produtivos, mas também custos sociais e ambientais elevados. Dados mostram que, a cada dois dias, uma pessoa morre no país por intoxicação ligada a esses produtos, e uma em cada cinco vítimas é criança ou adolescente.

A questão central, portanto, é transformar esse aparente problema em oportunidade. O Brasil tem condições únicas de liderar uma transição global para uma agricultura sustentável, reduzindo drasticamente o uso de agrotóxicos sem abrir mão da produtividade.

O Peso dos Números

Os dados confirmam a urgência dessa transformação. Apenas em 2023, foram aprovados 505 novos registros de pesticidas no país. Entre 2019 e 2022, foram liberados mais de 2 mil novos produtos, com uma média anual de 545 registros. Em 2017, o Brasil alcançou o título de maior consumidor de agrotóxicos em volume de ingredientes ativos: cerca de 550 mil toneladas. Para se ter uma ideia, em 1970 a média de consumo era de 0,8 kg por hectare cultivado; em 1998 já chegava a 7,0 kg.

Esses números revelam que o modelo agrícola atual, embora eficiente, atingiu um ponto de tensão e precisa ser repensado.

Como Chegamos Até Aqui

Esse caminho foi moldado por políticas públicas. Em 1975, o Programa Nacional de Defensivos Agrícolas incentivou a instalação de indústrias e subsidiárias de multinacionais do setor, além de oferecer crédito para custeio agrícola. Essa estratégia ajudou a consolidar o agronegócio moderno, mas também criou dependências estruturais. Com o tempo, vários produtos nocivos foram proibidos — como DDT, endrin e lindane — mostrando que o país já tem experiência em transições regulatórias importantes.

O Debate Atual

Hoje, o Brasil se encontra em uma encruzilhada. De um lado, entidades como a ABRAPA, a APROSOJA e a ABRAMILHO defendem projetos de lei que flexibilizam o uso de defensivos, como o PL 6299. De outro, ganha força a Política Nacional de Redução do Uso de Agrotóxicos (PNaRa), que propõe um caminho de diminuição progressiva da dependência química.

Entre esses dois extremos, existe uma terceira via: transformar nossa posição de liderança global em motor para o desenvolvimento das tecnologias agrícolas do futuro.

Nossas Vantagens Competitivas

O Brasil tem quatro fatores decisivos que favorecem essa transição:

Escala e concentração produtiva – nossa agricultura se concentra em grandes regiões homogêneas, facilitando a adoção coordenada de novas práticas. Necessidade urgente – somos os maiores consumidores de defensivos, logo, temos o maior incentivo econômico para buscar alternativas. Base científica consolidada – contamos com instituições como a Embrapa e universidades de ponta, que dominam a pesquisa agropecuária tropical. Mercado interno robusto – os 65 milhões de hectares cultivados garantem escala para que qualquer inovação ganhe mercado rapidamente.

As Tecnologias Já em Curso

Exemplos concretos já mostram que é possível reduzir drasticamente o uso de químicos. A Solinftec, por exemplo, desenvolveu robôs movidos a energia solar que diminuem em até 95% a necessidade de herbicidas. O país também conta com um ecossistema crescente de startups (AgTechs) voltadas para biodefensivos, monitoramento remoto e agricultura de precisão.

Políticas Públicas Necessárias

Para transformar essas iniciativas em política de Estado, três medidas se destacam:

Marco regulatório para biodefensivos, com aprovação acelerada e custos menores de registro. Programa Nacional de Agricultura de Precisão, oferecendo crédito subsidiado em troca da redução comprovada no uso de defensivos. Centros de Excelência em AgTech, com investimentos em parcerias universidade-empresa-governo focados em soluções tropicais.

O Potencial de Transformação

Hoje, defensivos agrícolas são vistos como indispensáveis para garantir produtividade. Mas tecnologias emergentes apontam para reduções de 50% a 70% no uso desses produtos sem perda de eficiência. Isso significa ganhos econômicos e ambientais.

Desafios a Enfrentar

Os principais obstáculos são a resistência do setor, os custos de transição e a necessidade de atualizar a regulação para acompanhar a inovação tecnológica.

Por Que Vai Funcionar

Quatro forças trabalham a favor dessa revolução:

pressão econômica, já que os defensivos encarecem a produção; pressão de mercado internacional, com exigências de sustentabilidade cada vez maiores; maturidade tecnológica, com soluções prontas para adoção; escala brasileira, que permite diluir custos e acelerar a curva de aprendizado.

Um Cronograma Possível

2025-2030: bases regulatórias e primeiros programas de incentivo; meta de 20% de redução em áreas pioneiras. 2030-2035: expansão nacional e consolidação global; meta de 35% de redução. 2035-2040: liderança mundial em agricultura sustentável, com corte de 50% no uso de defensivos e manutenção da liderança produtiva.

Conclusão: A Janela Está Aberta

O Brasil reúne, ao mesmo tempo, o maior problema e a maior oportunidade: somos os maiores consumidores de defensivos, mas temos ciência, escala e mercado para liderar a transição para uma agricultura sustentável.

Essa mudança já começou, com empresas brasileiras criando soluções reconhecidas internacionalmente. A decisão agora é política e estratégica: queremos liderar conscientemente essa revolução verde ou apenas reagir às pressões externas?

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