A atuação dos fundos de pensão sul-coreanos, em especial do NPS (National Pension Service), é um dos pilares silenciosos, porém decisivos, do sucesso corporativo da Coreia do Sul nas últimas décadas. Criado em 1988 como parte de um sistema de seguridade mais robusto, o NPS hoje é um dos maiores fundos de pensão públicos do mundo, com ativos superiores a US$ 800 bilhões. Mais do que acumular poupança previdenciária, ele se tornou uma ferramenta de desenvolvimento econômico, de estabilidade institucional e de fortalecimento da governança nas grandes empresas coreanas.
Em diversos conglomerados do tipo chaebol — como Samsung, Hyundai, LG e SK Group — o NPS aparece como acionista relevante, frequentemente entre os três maiores investidores institucionais. Em alguns casos, sua participação excede 10% do capital, o que garante direito a voto e poder de influência nas decisões estratégicas. Essa presença ativa transformou o fundo num ator-chave do capitalismo coreano, funcionando como contraponto aos interesses familiares que historicamente dominaram os chaebols.
Ao invés de uma postura passiva e rentista, o NPS tem adotado posturas pró-governança e pró-transparência, muitas vezes pressionando empresas a adotarem padrões mais elevados de gestão, a tratar minoritários com mais respeito e a implementar práticas de ESG. Em 2020, por exemplo, o NPS votou contra a reeleição de membros de conselhos que acumulavam escândalos ou apresentavam riscos de conflitos de interesse — uma atitude quase inédita entre fundos públicos. Esse comportamento fortalece o mercado de capitais sul-coreano como um todo, elevando o padrão regulatório.
Outro papel crucial do NPS é oferecer o chamado “capital paciente”: investimentos de longo prazo em setores estratégicos para o país, como biotecnologia, semicondutores, energia limpa e inteligência artificial. Ao contrário de fundos especulativos ou de curto prazo, o NPS sustenta empresas em fases críticas de desenvolvimento tecnológico, funcionando como âncora de estabilidade financeira. Isso é parte da estratégia nacional de garantir soberania tecnológica e reduzir dependência externa em áreas sensíveis.
Essa atuação contrasta com a experiência de muitos fundos de pensão em países como o Brasil, onde a atuação de grandes fundos (como Previ, Petros, Funcef) muitas vezes oscilou entre passividade excessiva e captura político-partidária, com foco curto-prasista ou má alocação de recursos. A experiência coreana mostra que é possível conciliar solidez previdenciária, rentabilidade e interesse nacional com uma governança moderna e ativa, baseada em critérios técnicos e transparência.
Em resumo, o NPS tornou-se um dos pilares do modelo coreano de desenvolvimento — um capitalismo coordenado entre Estado, empresas e sociedade civil. Sua presença silenciosa nas maiores corporações do país não apenas garante aposentadorias futuras para milhões de coreanos, mas também fortalece a estabilidade institucional, protege acionistas minoritários, fomenta a inovação e impulsiona a competitividade nacional. Um modelo que merece atenção e estudo mais aprofundado por países em busca de uma governança corporativa mais eficaz e alinhada com o interesse público de longo prazo.
O papel do NPS (National Pension Service) na Coreia do Sul vai muito além da previdência: ele é parte de um arranjo institucional mais amplo em que o Estado articula recursos financeiros de longo prazo para impulsionar o desenvolvimento tecnológico nacional. O fundo atua como um instrumento de política industrial implícita, apoiando com capital as empresas que lideram a fronteira da inovação, inclusive em momentos de alto risco e baixa rentabilidade imediata. Essa lógica de “capital paciente” é um dos pilares do salto tecnológico coreano das últimas décadas.
Desde os anos 1960, o Estado sul-coreano teve um papel ativo na alocação de recursos produtivos, direcionando crédito público, protegendo mercados internos e estimulando conglomerados a entrarem em setores estratégicos, como automóveis, navios e eletrônicos. Com a democratização e modernização financeira dos anos 1990 e 2000, esse papel mudou de forma, mas não desapareceu: em vez de subsidiar diretamente, o Estado passou a atuar através de investidores institucionais, como o NPS, que hoje investe com critérios de rentabilidade, mas também com visão de longo prazo e impacto sistêmico.
Muitas das empresas coreanas que hoje são líderes globais em tecnologia — como Samsung, SK Hynix, LG Chem e Hyundai Mobis — contaram com esse suporte indireto do NPS, que garante estabilidade acionária e financiamento para P&D intensivo. Em vez de depender exclusivamente de mercados de capitais voláteis ou de bancos privados, essas empresas puderam contar com um sócio institucional que compartilha os riscos de transição tecnológica. Isso é especialmente importante em setores de grande incerteza e altos custos fixos, como semicondutores, baterias, inteligência artificial e biotecnologia.
O impacto desse modelo é visível: a Coreia se tornou um dos países com maior intensidade de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) do mundo, ultrapassando 4,5% do PIB — um nível comparável apenas ao de Israel. A forte presença de investidores institucionais domésticos também permite que as empresas coreanas mantenham centros de decisão e propriedade majoritária dentro do país, mesmo quando se internacionalizam. Isso contrasta com o modelo de muitos países em desenvolvimento, que acabam vendendo o controle de suas empresas tecnológicas para multinacionais estrangeiras em busca de capital.
Além disso, o Estado sul-coreano utiliza mecanismos complementares, como agências públicas de inovação (por exemplo, a KIAT – Korea Institute for Advancement of Technology) e parques tecnológicos em parceria com conglomerados, universidades e institutos de pesquisa. O NPS, nesse contexto, funciona como um elo financeiro que conecta essas políticas industriais modernas aos mercados de capitais, sem perder o compromisso com a sustentabilidade previdenciária de longo prazo.
Em suma, o modelo coreano mostra que o Estado não precisa escolher entre “deixar o mercado agir” ou “intervir de forma direta”. Ele pode criar instituições sofisticadas que moldam o mercado, oferecendo capital de longo prazo, alinhando incentivos e garantindo que os frutos da inovação fiquem no país. O NPS é um exemplo de como uma política previdenciária bem desenhada pode ser também uma política de desenvolvimento tecnológico — uma lição relevante para o Brasil e outros países que buscam combinar crescimento, inclusão e soberania produtiva.


Por este e outros textos — elucidativos, esclarecedores — é que estou frequentando os cursos do prof. Gala.
obrigado!