A transformação da matriz elétrica uruguaia em uma das mais limpas e renováveis do mundo não foi fruto do acaso nem apenas de forças de mercado. Ela resulta de uma estratégia deliberada de Estado, executada com protagonismo pela estatal UTE (Administración Nacional de Usinas y Transmisiones Eléctricas), que conseguiu, em pouco mais de uma década, levar o país a operar com uma geração elétrica majoritariamente — e em muitos anos quase integralmente — baseada em fontes renováveis.
O ponto de partida do Uruguai era uma vulnerabilidade estrutural. O país dependia fortemente de hidrelétricas e, nos períodos de seca, precisava acionar usinas térmicas a óleo e diesel ou importar energia a custos elevados. Essa dependência tornava o sistema elétrico instável, encarecia a conta de luz e criava riscos macroeconômicos relevantes, já que choques climáticos se convertiam rapidamente em choques externos e fiscais. Energia era, ao mesmo tempo, um problema econômico e de soberania.
É nesse contexto que a UTE assume papel central. Como empresa pública verticalmente integrada, responsável por geração, transmissão e operação do sistema, a estatal tinha capacidade técnica e institucional para planejar o setor de forma sistêmica. A transição energética exigia coordenação, investimentos pesados e contratos de longo prazo — algo difícil de viabilizar apenas com decisões descentralizadas de mercado. A UTE funcionou como a âncora que deu coerência e continuidade ao processo.
A partir do fim dos anos 2000, o governo uruguaio definiu uma política energética clara, com metas de diversificação, redução da dependência de combustíveis fósseis importados e avanço acelerado das renováveis. A UTE foi o braço executor dessa estratégia. A motivação não era apenas ambiental: tratava-se de estabilizar a economia, reduzir a vulnerabilidade externa e garantir segurança energética de longo prazo.
O instrumento-chave foi a criação de um ambiente de investimento previsível. A estatal estruturou leilões e contratos de compra de energia de longo prazo (PPAs), garantindo demanda e receita para os novos projetos. Com contratos sólidos e uma contraparte pública confiável, o risco caiu, o financiamento apareceu e o investimento privado ganhou escala. A lógica era simples e poderosa: reduzir incerteza para acelerar a transição.
Do ponto de vista tecnológico, a estratégia foi incremental e inteligente. O Uruguai já possuía uma base hidrelétrica relevante, mas vulnerável ao clima. A grande aposta foi na energia eólica, implantada rapidamente e em escala, seguida pela solar e pela biomassa. Essas fontes foram pensadas de forma complementar: a eólica ajuda justamente quando a hidrologia é desfavorável; a biomassa adiciona firmeza; a solar reduz a carga nos horários de pico diurno. A matriz deixou de ser dependente de um único fator climático.
Um aspecto frequentemente negligenciado, mas decisivo, foi o investimento em infraestrutura e operação do sistema. Renováveis variáveis exigem redes robustas, sistemas de transmissão reforçados, centros de controle modernos e capacidade de previsão de vento e sol. A UTE realizou esse “trabalho invisível”, integrando geração e rede de forma eficiente, garantindo confiabilidade mesmo com alta participação de fontes intermitentes.
A governança do processo também foi crucial. O Uruguai ofereceu regras relativamente estáveis, cronogramas claros e capacidade de execução. Em um setor intensivo em capital, a previsibilidade regulatória vale tanto quanto o recurso natural. A presença da estatal como planejadora e compradora de energia reduziu riscos regulatórios e de contraparte, criando um ambiente raro de confiança para investidores.
O impacto econômico foi profundo. A dependência de combustíveis fósseis importados caiu drasticamente, a volatilidade da tarifa diminuiu e a conta externa ficou menos exposta a choques internacionais de preços de energia. Em vários anos recentes, o país operou com geração elétrica próxima de 100% renovável na média anual, algo excepcional no cenário internacional.
Em síntese, a experiência uruguaia mostra como uma empresa estatal, quando dotada de mandato claro, capacidade técnica e boa governança, pode funcionar como orquestradora de mercados. A UTE transformou objetivos públicos em contratos, contratos em investimento, investimento em capacidade instalada e capacidade instalada em segurança energética. É um caso exemplar de como o Estado, longe de substituir o mercado, pode criá-lo e acelerá-lo — especialmente em transições estruturais como a energética.

