Como usar nosso pré-sal para desenvolver a Ásia (com ajuda da Petrobrás e Lava-Jato)

*escrito com Tarcisio Romero de Oliveira

Organizado pelo CDMC1 (China Decision Makers Consultancy, organização estatal chinesa que desde 2004 tem como missão “Promover o desenvolvimento industrial da China por meio de atividades que possibilitem o intercâmbio de informações valiosas e redes sociais”), ocorre entre 29 e 30 de outubro em Shangai o 7º FPSO & FLNG & FSRU GLOBAL SUMMIT. FPSO (Floating Production Storage and Offloading, ou Unidade Flutuante de Produção, Armazenamento e Transferência) é um tipo de navio utilizado pela indústria petrolífera para a exploração, produção, armazenamento de petróleo e/ou gás natural e escoamento da produção por navios cisterna (petroleiros). São utilizados em locais de produção distantes da costa com inviabilidade de ligação por oleodutos ou gasodutos, como os campos do Pré Sal nas bacias de Campos e Santos. Já FLNG (Floating Liquefied Natural Gas ou Unidade Flutuante para Gás Natural) é outro tipo de embarcação para a mesma operação, porém, exclusivamente para gás natural. A FSRU (Floating Storage and Regasification Unit ou Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação) é a denominação recebida por navios que são adaptados para receber gás natural liquefeito e restaurá-lo à forma gasosa, tornando-o apto ao consumo.

A P-70: FPSO (na foto) estava em construção no Brasil. Foi interrompida em 2015 do Porto do Açu, no Norte Fluminense, durante a operação Lava Jato, e transferida para a China Offshore Oil Engineering Corporation (COOEC) em Qingdao. A página do evento apresenta em letras maiúsculas, logo no início, a mensagem “O MERCADO DE FPSO ESTÁ CRESCENDO COM A DEMANDA DE COMBUSTÍVEL DA AMÉRICA LATINA”. Com a decisão da Petrobrás de focar no segmento de exploração e produção offshore no Pré-Sal, demandando unidades produtivas com alto conteúdo tecnológico de engenharia para muito em breve, tal entusiasmo se justifica. Conforme a ilustração abaixo preparada pelo comitê organizador do evento vemos quais são os principais projetos do mundo neste momento:

 

Observa-se que dos 15 mais importantes projetos de FPSOs no mundo, 7 são no Brasil. Entretanto, ao contrário do que se imagina, as notícias referentes a estes e outros projetos não são muito animadores para nossa indústria e economia:

  • A MISC Berhad (MISC), da Malásia, anunciou a aceitação da Carta de Intenções (LOI) da Petrobrás para o fornecimento de uma instalação flutuante de armazenamento e descarregamento de produção (Mero 3 FPSO) localizada na costa do Rio de Janeiro, no bloco de Libra, Bacia de Santos, Brasil e serviços de operação e manutenção durante a fase de afretamento do Mero 3 FPSO.

Parece que a China Bomesc Offshore estará envolvida no negócio de módulo de superfície (Topside, ou a parte superior do navio) de Mero 3;

  • A MODEC, do Japão, obtém contrato da Equinor para fornecimento de FPSO Bacalhau (Carcará) para campo offshore no Brasil. O casco do projeto ficará para a China Dalian Shipbuilding;

  • MODEC Marlim 1 FPSO também terá seu casco a cargo da Dalian Shipbuilding;

  • A Keppel O&M de Cingapura recebeu pedidos da empresa japonesa de locação de FPSO MODEC para entregar componentes para duas unidades FPSO. O Estaleiro Keppel irá fabricar, completar e integrar os módulos de superfície e a estrutura de suporte de amarração para uma embarcação flutuante de armazenamento e descarregamento de produção (FPSO). Conta com Sangomar (Senegal) e Marlim (Brasil) em 2020 e espera que mais dois contratos sejam concedidos este ano pela unidade Bacalhau (Brasil) da Equinor e Mero 3 (Brasil) da Petrobrás por um total de mais de US$ 5 bilhões em pedidos em 2020.

  • A Aragon, da Noruega, ganhou dois novos contratos importantes com a Yinson, da Malásia, para o FPSO Anna Nery. Os contratos cobrem a engenharia, aquisição e construção de sete módulos para o tratamento e compressão de gás, utilidades e sistemas de flare. O trabalho de construção será subcontratado para a empresa chinesa Jutal Offshore Oil Services, e a Noruega fornecerá serviços de projeto de engenharia e aquisição;

  • A DORIS Engenharia (França) conquistou o contrato FEED (Front-End Engineering Design, ou Engenharia de Pré-Detalhamento) para um dos FPSO da Petrobrás a ser implantado no campo de Búzios, na Bacia de Santos. A DORIS Engenharia espera realizar todas as obras de engenharia básica no Brasil por meio de sua subsidiária local;

  • A operadora holandesa de FPSO SBM Offshore assinou em 2019 com a Petrobrás contrato de arrendamento e operação do FPSO Sepetiba (anteriormente Mero 2). O estaleiro CMHI (China Merchant Heavy industry) fará grande parte dessa obra, que terá somente parte do Topside executado no Brasil.

Já a China continua sendo o local mais ativo para a construção e conversão de unidades flutuantes para produção com 22 projetos em execução em seus estaleiros, conforme listado abaixo:

  • CSSC (China State Shipbulding Corporation): 4 FSRUs e 3 FPSOs
  • COSCO (China Ocean Shipping Company): 5 FPSOs e 1 FSRU
  • CSIC (China Shipbuilding Industry Corporation): 4 FPSOs
  • CMHI (China Merchants Heavy Industry): 2 FPSOs
  • CIMC (China International Marine Containers): 1 FPSO e 1 SEMI
  • COOEC (China Offshore Oil Engineering Company): 1 FPSO

E mais 12 pedidos foram colocados em 2020: 4 FSOs (LNG), 3 FPSOs, 3 FSRUs, 1 FSO (Óleo) e 1 MOPU. Muitas empresas petrolíferas adiaram seus planos por conta da pandemia de COVID 19 em 2020, mas a China está confiante para 2021 especialmente pelos pedidos que virão da Petrobrás. Pedidos estes que poderiam ter sido colocados no Brasil, ainda que em parceria com esses grandes estaleiros, se nossa indústria naval não tivesse sido destruída e o conteúdo nacional não fosse simplesmente considerado retrocesso.

1) http://www.chinaexhibition.com/Official_Site/21-219-China_Decision_Makers_Consultancy_(CDMC).html

2) http://www.cdmc.org.cn/2020/ffg/indexen.html

3) https://oglobo.globo.com/economia/setor-naval-afunda-19205832

4) https://g1.globo.com/economia/noticia/2019/11/08/conteudo-local-e-retrocesso-que-atrasa-desenvolvimento-da-industria-petroleira-diz-presidente-da-petrobras.ghtml

2 thoughts on “Como usar nosso pré-sal para desenvolver a Ásia (com ajuda da Petrobrás e Lava-Jato)”

  1. Bom dia Paulo e Tarcisio,

    apenas uma correção, o site do SUMMIT chinês traz a seguinte frase: FPSO MARKET IS BOOMING WITH LATIN AMERICA FUELING DEMAND. Creio que uma tradução mais adequada seria O MERCADO DE FPSO ESTÁ CRESCENDO COM A DEMANDA PUXADA PELA AMÉRICA LATINA.

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