Ou a tendência declinante dos termos de troca:
A tese estruturalista/cepalina da tendência declinante dos termos de troca (à la Prebisch-Singer) não depende de “commodities sempre caírem” em termos nominais; ela depende de preços relativos e, sobretudo, de poder de mercado, elasticidades e estrutura produtiva. O “superciclo” associado à urbanização chinesa e ao boom de investimento em infraestrutura elevou muito o preço de metais, energia e alguns grãos em certos períodos, mas isso convive com um fato incômodo: quando você compara bens padronizados e concorrenciais (primários) com bens diferenciados, protegidos por tecnologia, marca, patentes, standards e cadeias globais (manufaturas complexas), a captura de valor tende a ficar do lado da complexidade — e a volatilidade fica do lado da commodity.
Um jeito simples de enxergar isso é olhar para “fotografias” recentes de preços de referência e transformar em relação de troca. No Pink Sheet do Banco Mundial (médias mensais), em jan/2026: soja ~US$ 423/ton, trigo HRW ~US$ 249,9/ton, minério de ferro 62% Fe ~US$ 105,5/ton, Brent ~US$ 66,8/barril, café arábica (indicador ICO) ~US$ 8,02/kg. Esses números mudam todo mês, mas a lógica estrutural que interessa é: são mercados com pouca diferenciação, muitos ofertantes e forte concorrência por preço.
Agora compare isso com o “ticket de entrada” dos bens mais complexos do planeta: as máquinas EUV de litografia (ASML) — gargalo tecnológico central dos semicondutores avançados. A geração High-NA é reportada na casa de ~US$ 400 milhões por máquina. A relação é brutal: com preços de jan/2026 do Banco Mundial, uma única máquina equivale, grosso modo, a ~946 mil toneladas de soja, ou ~3,79 milhões de toneladas de minério de ferro, ou ~6,0 milhões de barris de petróleo. Esse não é um “exercício de curiosidade”: é a materialização do ponto estruturalista sobre onde está a renda tecnológica e como ela se traduz em poder de barganha no comércio.
Dá para fazer o mesmo raciocínio com a “moeda do século XXI”: computação. Estimativas amplamente citadas no setor colocam o acelerador NVIDIA H100 (um insumo crítico para IA) na faixa de ~US$ 25–30 mil por GPU em preços de rua. Usando de novo as mesmas referências de commodities do Banco Mundial (jan/2026), um H100 “custa” algo como ~59 toneladas de soja, ~237 toneladas de minério de ferro, ~100 toneladas de trigo, ou ~3,1 toneladas de café arábica. Isso ajuda a enxergar que, mesmo quando uma commodity “vai bem”, o mundo dos bens complexos tende a operar com rendas e markups muito superiores.
E não é só o produto final; o custo do processo também sobe. Reportagens sobre foundries indicam que um wafer de 3 nm pode custar cerca de US$ 18 mil (ordem de grandeza), e há discussões recorrentes sobre escalada adicional em nós mais avançados. Convertendo: um wafer de 3 nm “vale” ~42,6 toneladas de soja ou ~170,6 toneladas de minério (jan/2026). Ou seja: o centro dinâmico não é apenas “caro”; ele é caro porque concentra conhecimento, escala, risco, IP e coordenação — e isso se traduz em preço e em poder.
“Mas a China não refutou a tese?” Ela complexificou o quadro. Por um lado, a China elevou a demanda e puxou preços de várias commodities, melhorando termos de troca de exportadores em janelas específicas. Por outro, ela própria é um exemplo estruturalista: o salto chinês foi justamente migrar, de forma coordenada, de cesta primária/leve para manufaturas e depois tecnologia, internalizando capacidades e subindo escadas de valor. O efeito líquido global é que commodities vivem ciclos, mas o gradiente de complexidade (quem define padrões, detém tecnologia e controla gargalos) segue determinando quem captura renda no longo prazo. (E quando há choque geopolítico, o petróleo até dispara no curto prazo — como vimos com Brent voltando a níveis acima de US$ 82/barril em 03/mar/2026 — mas isso é justamente “volatilidade”, não garantia estrutural.)
Um ponto importante — para não caricaturar — é que “preço de bem complexo” não significa sempre “subir” em qualquer métrica. Em muitos eletrônicos de massa, o preço qualidade-ajustado cai (mais performance por dólar). O que sustenta a intuição estruturalista hoje é outra coisa: (i) a fronteira tecnológica cria gargalos (EUV, GPUs, IP de software, padrões), (ii) a diferenciação e a propriedade intelectual sustentam markups, (iii) cadeias globais fragmentadas colocam o primário na ponta mais concorrencial e (iv) a renda aparece tanto no preço do equipamento quanto no take rate de ecossistemas (licenças, serviços, cloud, software).
É por isso que a comparação “chips vs. soja” não é só sobre dois preços; é sobre duas estruturas de mercado. Soja, trigo, minério e café têm preço “descoberto” em mercados globais com alta contestabilidade; já semicondutores avançados e máquinas-ferramenta de fronteira operam com poucos ofertantes, barreiras gigantescas de entrada e, frequentemente, restrições geopolíticas explícitas (controles de exportação, compliance, segurança nacional). O resultado tende a ser: o lado complexo tem mais capacidade de defender margem; o lado primário tem mais probabilidade de ser “tomador de preço” e de ver ganhos de produtividade repassados para o comprador via queda de preço relativo.
Na prática, isso explica por que a CEPAL insiste tanto em mudança estrutural: não basta “produzir mais” commodity; é preciso mudar a composição do que se produz e do que se exporta — e, mais do que isso, capturar elos de maior valor (engenharia, química fina, instrumentação, software industrial, bens de capital, serviços tecnológicos). Quando você olha para a economia mundial recente, o peso das commodities no comércio pode até ser grande, mas cresce menos do que o comércio total em certas janelas — reforçando a ideia de que o dinamismo e o valor unitário se deslocam para atividades mais sofisticadas.
A síntese é: a “virada chinesa” não matou a intuição estruturalista; ela mostrou que o caminho de desenvolvimento é sair da armadilha do primário e entrar nas cadeias onde há aprendizado cumulativo, diferenciação e poder de mercado. E os números ilustrativos ajudam a contar essa história de forma concreta: com preços de referência (Banco Mundial) e preços de fronteira tecnológica (EUV, GPUs, wafers), a relação de troca segue mostrando que o mundo da complexidade cobra pedágio alto — e, por construção, esse pedágio é difícil de competir sem estratégia industrial, financiamento, coordenação e capacidade tecnológica doméstica.

