Quando um país ou estado é pobre, ele deveria crescer mais rápido do que os ricos — certo? Essa é a intuição clássica da ideia de convergência em economia do crescimento: quem está atrás tem mais espaço para copiar tecnologias, importar máquinas melhores, aprender com o que já foi inventado e aumentar produtividade com retornos elevados do capital. Mas há um detalhe que separa um diagnóstico ingênuo de um diagnóstico realista: convergência não é uma lei universal; ela depende do “mundo” em que cada economia está inserida.
É aqui que entram dois conceitos que parecem técnicos, mas são decisivos para entender por que alguns lugares “decolam” e outros ficam presos: convergência não condicional (ou absoluta) e convergência condicional.
A promessa forte: convergência não condicional
A convergência não condicional é a versão mais ambiciosa da tese. Ela diz, em essência, que todas as economias caminham para o mesmo destino de longo prazo — como se existisse um único “patamar final” de renda per capita para todo mundo. Se essa hipótese fosse verdadeira, bastaria olhar a renda inicial: quanto mais pobre no começo, maior deveria ser o crescimento depois.
Na prática, isso significa tratar países e regiões como se fossem comparáveis “por natureza”. É a ideia de que o atraso é apenas um ponto de partida e que, com o tempo, os mecanismos de mercado e a difusão tecnológica fariam o resto. O problema é que essa hipótese exige uma homogeneidade que raramente existe no mundo real: instituições, educação, estrutura produtiva, capacidade estatal, estabilidade macro, acesso a mercados, infraestrutura, demografia — nada disso é igual entre países.
Por isso, a convergência não condicional até pode aparecer em amostras muito homogêneas (por exemplo, municípios dentro de um mesmo estado, ou regiões dentro de um mesmo país com regras e instituições parecidas). Mas, quando você abre para o mundo, a história muda.
A versão realista: convergência condicional
A convergência condicional parte de um diagnóstico mais pé no chão: economias não convergem para o mesmo nível de renda, porque elas não compartilham as mesmas condições estruturais. Em vez disso, cada uma tende a convergir para o seu próprio steady state — um “teto” de renda de longo prazo determinado pelos seus fundamentos.
Em outras palavras: pobre pode crescer mais rápido, sim, mas condicional a ter (ou construir) fundamentos parecidos com os lugares que deram certo. Quando controlamos por variáveis como investimento, capital humano, qualidade institucional, estabilidade, abertura, produtividade setorial e demografia, muitas vezes aparece o efeito de “catch-up”: dentro de condições semelhantes, quem está mais atrás cresce mais.
Essa distinção muda tudo. Ela troca a narrativa confortável (“o tempo resolve”) por uma narrativa exigente (“o desenvolvimento exige engenharia institucional e produtiva”). Se o seu steady state é baixo — por baixa escolaridade, baixa taxa de investimento produtivo, armadilha de especialização em setores de baixo aprendizado, instituições frágeis ou macroeconomia instável — você até pode crescer em alguns ciclos, mas tende a bater num teto e desacelerar.
Clubes de convergência: o mundo real não é uma pista única
Uma consequência natural da convergência condicional é a ideia de clubes de convergência. Não existe “uma” convergência; existem convergências. Países com fundamentos semelhantes convergem entre si: alguns clubes chegam perto da fronteira tecnológica; outros ficam presos em patamares intermediários; outros ainda oscilam sem construir trajetória.
É por isso que olhar apenas para a renda inicial pode enganar. Um país pode ser pobre e crescer pouco porque está preso num clube de baixa produtividade; outro pode ser pobre e crescer muito porque está migrando para um clube superior via industrialização, diversificação produtiva, aprendizado tecnológico e construção institucional.
A moral do conceito
A diferença entre convergência condicional e não condicional é, no fundo, uma diferença entre duas visões de desenvolvimento:
Não condicional: a desigualdade de renda é “um atraso que o tempo corrige”. Condicional: a desigualdade de renda reflete estruturas — e corrigir exige mudar os fundamentos.
Em política econômica, isso é crucial: convergência condicional sugere que crescer não é só acelerar, é mudar a máquina. A pergunta relevante deixa de ser “qual é o nosso crescimento este ano?” e passa a ser: estamos elevando o nosso steady state? Estamos acumulando capacidades, complexidade produtiva, capital humano, infraestrutura e instituições que sustentam produtividade? Porque é isso — mais do que o “catch-up automático” — que separa quem alcança a fronteira de quem apenas se aproxima e volta a ficar para trás.

Ref:
https://x.com/justinsandefur/status/1999474034313245095?s=48

