A economia da Coreia do Sul volta a um velho dilema: como sustentar uma estratégia ambiciosa de desenvolvimento industrial em meio a choques externos severos. O país, que construiu sua trajetória recente com forte coordenação estatal e foco em setores estratégicos, agora enfrenta um cenário que combina disrupções energéticas globais e tensões financeiras internas.
A referência histórica não é por acaso. Em 1974, após o primeiro choque do petróleo, o então presidente Park Chung-hee decidiu dobrar a aposta na industrialização pesada, mesmo diante da turbulência internacional. Hoje, décadas depois, o presidente Lee Jae-myung propõe algo semelhante: uma nova política industrial voltada à era da inteligência artificial, com ênfase especial na indústria de semicondutores.
O plano é ambicioso. O governo pretende direcionar capital para setores produtivos, especialmente chips, ao mesmo tempo em que busca reduzir o peso excessivo do mercado imobiliário na economia. Estão previstos cerca de US$ 530 bilhões em investimentos ao longo de duas décadas, além de fundos públicos destinados a mobilizar capital privado e apoiar empresas estratégicas.
No centro dessa estratégia está o fortalecimento do complexo de semicondutores. Empresas como Samsung Electronics e SK Hynix já se comprometeram com investimentos maciços, incluindo a construção de um “mega cluster” em Yongin. A ideia é expandir a cadeia produtiva, reduzir dependências externas e consolidar a liderança tecnológica do país.
Mas não dá para ter tudo ao mesmo tempo sem algum atrito. Um dos principais problemas é o nível elevado de endividamento das famílias, fortemente ligado ao setor imobiliário. Na Coreia do Sul, esse endividamento já atinge cerca de 90% do PIB, impulsionado por preços elevados de imóveis, especialmente em Seul. O peculiar sistema de aluguel “jeonse”, baseado em grandes depósitos reembolsáveis, também contribui para essa dinâmica.
Diante disso, o governo tenta redirecionar o crédito: menos financiamento para habitação, mais para startups e pequenas empresas. Medidas incluem restrições ao crédito imobiliário e incentivos para empréstimos produtivos. Reguladores também reduziram exigências de capital para investimentos de risco, tentando tornar o financiamento empresarial mais atraente.
Só que a realidade externa resolveu atrapalhar o roteiro. A Coreia do Sul depende fortemente de energia importada, especialmente do Oriente Médio. Com a instabilidade geopolítica, há riscos concretos de interrupções no fornecimento de petróleo e gás. O país já enfrenta estoques limitados de gás natural e possíveis atrasos em novas entregas.
E não para por aí. A indústria de semicondutores, que deveria ser o motor do futuro, também depende de insumos críticos vindos de regiões afetadas por tensões internacionais. Materiais como bromo e hélio, essenciais para a produção de chips, têm cadeias de fornecimento vulneráveis. Ou seja, a tal soberania tecnológica tem limites bem concretos.
Ao mesmo tempo, o governo precisa lidar com pressões fiscais crescentes. Medidas emergenciais de apoio à população, incluindo transferências para famílias de baixa renda, ampliam o déficit público. Isso coloca em risco a sustentabilidade da política industrial, que depende justamente de capacidade fiscal e coordenação de longo prazo.
Por fim, há um conflito interno nada trivial: a tentativa de descentralizar a indústria para regiões fora de Seul enfrenta resistência. A capital concentra talento, infraestrutura e redes produtivas. Levar fábricas para outras áreas pode fazer sentido político e regional, mas levanta dúvidas sobre eficiência econômica.
No fim das contas, a Coreia do Sul está tentando fazer algo que economistas adoram desenhar no quadro, mas que na prática sempre dá dor de cabeça: combinar política industrial ativa, estabilidade macroeconômica e segurança energética em um mundo desorganizado. Funciona no paper. Na vida real, exige equilíbrio fino, sorte geopolítica e um pouco menos de choque externo.

