
Educação e Produtividade: O Contraste entre Brasil e Coreia do Sul
A educação é frequentemente apontada como um dos motores do desenvolvimento econômico, mas seu impacto na produtividade depende da estrutura produtiva e da integração ao mercado global. O Brasil e a Coreia do Sul são exemplos contrastantes: enquanto ambos expandiram significativamente seus anos médios de estudo ao longo das últimas décadas, a produtividade sul-coreana disparou, enquanto a brasileira permaneceu estagnada. A razão para essa diferença está na complexidade produtiva e na estratégia econômica adotada por cada país.
Complexidade Produtiva: O Fator Decisivo
A grande diferença entre os dois países está na evolução da estrutura produtiva. A Coreia do Sul focou na integração ao mercado global, promovendo exportações, inovação tecnológica e o fortalecimento de empresas nacionais de alta tecnologia, como Samsung e Hyundai. Já o Brasil manteve uma estrutura produtiva pouco sofisticada, dependente da exportação de commodities e sem um sistema robusto de inovação.
Foco nas Exportações e Integração ao Mercado Mundial
- A Coreia do Sul adotou uma estratégia agressiva de exportação desde os anos 1960, investindo em setores de alta complexidade tecnológica.
- O Brasil, por outro lado, seguiu um modelo mais voltado para o mercado interno, sem integrar sua indústria ao comércio global de maneira eficiente.
Capacidade Tecnológica e Inovação Nacional
- A Coreia do Sul investiu na construção de um sistema nacional de inovação, com empresas nacionais fortes e centros de pesquisa avançados.
- No Brasil, houve pouca articulação entre universidades, indústria e governo para criar uma base sólida de inovação tecnológica.
Política Industrial e Câmbio Competitivo
- A Coreia do Sul implementou uma política industrial com metas claras, estimulando setores estratégicos e garantindo competitividade internacional.
- Além disso, manteve um câmbio competitivo, favorecendo a exportação de produtos industriais.
- No Brasil, a ausência de uma estratégia de política industrial consistente e um câmbio muitas vezes valorizado dificultaram a expansão da indústria nacional.
Ausência de Doença Holandesa e Recursos Naturais Limitados
- A Coreia do Sul não sofre com a doença holandesa, pois tem poucos recursos naturais, o que a obrigou a desenvolver um setor industrial robusto.
- Já o Brasil, com sua riqueza em commodities, frequentemente enfrenta um real valorizado devido à entrada de divisas, o que prejudica a competitividade da indústria manufatureira.
Educação como Parte do Sistema Produtivo
A educação só foi decisiva na Coreia do Sul porque se integrou a um sistema produtivo dinâmico e inovador. O país investiu em um modelo educacional alinhado às demandas da economia global e das suas indústrias emergentes. No Brasil, o aumento dos anos de estudo não foi suficiente para elevar a produtividade, pois o setor produtivo não se modernizou na mesma velocidade.
Conclusão
O aumento da escolaridade por si só não gera crescimento econômico se não houver uma estrutura produtiva que absorva essa mão de obra qualificada. O sucesso da Coreia do Sul foi resultado de políticas industriais bem planejadas, inovação tecnológica, integração ao mercado global e um câmbio competitivo. No Brasil, a falta de um projeto nacional para a indústria, somada à valorização do real e à dependência de commodities, impediu que a educação se traduzisse em maior produtividade.
Os mapas comparativos da estrutura de empregos e da composição das exportações evidenciam essa divergência entre os dois países, mostrando como a Coreia do Sul construiu uma economia de alta complexidade produtiva, enquanto o Brasil ficou estagnado em setores menos sofisticados.
gravei uma aula sobre o tema:
ótima tese de Doutorado sobre o assunto
Os dois gráficos acima mostram a evolução da estrutura de empregos no Brasil e Coreia do Sul a partir da base WIOD (http://www.wiod.org/home)
ver Sobre as diferenças entre Ásia e América Latina, Para entender o processo de desenvolvimento econômico, Armadilha da renda media no Brasil e Sobre o papel da educação no Desenvolvimento econômico

Desenvolvimento econômico é acúmulo de capital humano, acúmulo de conhecimento de uma sociedade que se traduz na capacidade de produzir bens e serviços complexos que geram poder de monopólio e “lucros excedentes”. Pra isso não basta apenas investir em educação! Precisa indústria! O setor industrial converte o acúmulo de conhecimento em produtos e serviços que geram o poder de monopólio.



















Gala, o que é causa e o que é consequência entre nível de produtividade e complexidade?
Na minha opinião a complexidade causa educação. O empresarial vem antes do educacional. O lucro é o motor do desenvolvimento, o saber é consequência. As empresas inovam e aumentam produtividade para ganhar dinheiro.
Gala, porque voce acredita que a austrália mesmo não aumentando sua complexidade ainda assim tem altos níveis de produtividade?
Australia conseguiu construir um setor de serviços sofisticados que emprega 10% da população e mantém Ainda 10% da população na indústria
Paulo, não seria interessante fazer um cruzamento com informações de política cambial nesse mesmo período? Não me parece coincidência que a complexidade da nossa matriz produtiva comece a declinar pós Collor (abertura tarifária) FHC (Apreciação Cambial).
Também gostaria que comentasse a pressão comercial apreciativa exercida pela Mercosul.
Bom, por fim… gostaria de ver mais dados da Coréia sobre essas questões (política cambial e comercial)
Prezado, gravei hoje uma aula disso para meu curso Online, veja aqui: https://vimeo.com/219379734/35379fee24
Atualmente sou Professor Politécnico (no Brasil Ensino Profissional e Tecnológico). Modo de produção de saber que é uma perspectiva, o modelo, ou paradigma (e todo a sua polissemia) distinta da Educação Acadêmica.
A postagem é mais uma que busca compreender a relação entre a Educação e Crescimento Econômico.
A tese de Hidalgo argumenta que a educação produtiva relevante do país é um conhecimento tácito que está nas empresas e nas atividades e, portanto, não se aprende na escola. É uma questão de “on the job experience” embutida nas redes de produção e empresas existentes nos países.
Seria verdade? Como falsificar?
Conjecturo que a perspectiva que se refere como “educação produtiva” esteja fundado no modelo acadêmico e não no politécnico (ou techinical e vocational education como se refere a UNEVOC UNESCO).
Os países com economia complexa possuem robustos e integrados sistemas de educação politécnica. Robustos devido a densidade de Inovação na prática educativa (o objeto a ser estudado é o Trabalho). Integrado devido a permeabilidade entre escola e arranjos produtivos (o Trabalho é o fazer educativo). Isto pode ser evidenciado tanto empiricamente numa análise sincrônica como diacrônica (que os estruturalistas não deveriam deixar de lado). Desconfio existir uma relação de equivalência, uma proximidade entre educação politécnica e complexidade econômica. Fica difícil estabelecer causalidade o que me parece se caracterizar como um problema “Tostines”
Na Economia Estruturalista da Complexidade existem estudos sobre isto?
Na Educação Politécnica existem estudos sobre o impacto na economia, mas desconheço algo tendo como foro a Economia Estruturalista da Complexidade.
Realizarei um de seus cursos (qual o melhor para aprofundar a questão da Economia Estruturalista da Complexidade?)
Seu blog e canal de mídia são supimpas.
caro, obrigado pelos comentarios! o paper que deve ir no ponto que ve levante e’ esse aqui: Education and the Journey to the Core: Path Dependence or Leapfrogging? (https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2467895). sobre o curso me escreva por favor no email pgala@uol.com.br