Isabella Weber, em Como a China Escapou da Terapia de Choque, chama atenção para um ponto muitas vezes esquecido no debate: a China não foi “naturalmente” gradualista por ideologia; ela se tornou gradualista também por aprendizagem política e econômica diante de choques reais. Nos anos 1980, quando a liderança chinesa começou a testar reformas orientadas ao mercado, o tema mais explosivo não era comércio exterior nem privatizações em massa, mas sim preços. Mexer nos preços, numa economia ainda amplamente planejada, era mexer diretamente no custo de vida urbano, na distribuição de renda e na legitimidade do Partido.
A reforma inicial tentou conciliar dois mundos. Ao invés de liberar tudo de uma vez, a China avançou com mecanismos que permitiam expansão do mercado “por fora” do plano: as empresas e governos locais ganharam espaço para produzir e vender acima das cotas, e gradualmente surgiram mercados paralelos para vários bens. Esse arranjo — frequentemente descrito como um sistema “duplo” (uma parte com preços administrados e outra com preços de mercado) — criou dinamismo, aumentou oferta e incentivos, mas também inaugurou fricções inevitáveis: arbitragem entre preços, captura de rendas, e a sensação de que alguns grupos estavam “ganhando demais” com as brechas do sistema.
É nesse ambiente que aparece a tentação de acelerar: se o “meio termo” produz distorções, por que não cortar o nó e liberalizar preços rapidamente? Para parte dos reformadores, uma liberalização mais ampla parecia o caminho para eliminar escassez, reduzir mercados paralelos e tornar a economia mais “racional” do ponto de vista microeconômico. Weber argumenta que essa intuição, muito próxima do receituário de terapia de choque, subestimava um aspecto decisivo: preços são o principal canal de transmissão política numa sociedade urbana em transformação, especialmente quando salários, poupança e redes de proteção ainda não estão preparados para absorver volatilidade.
A história, como ela reconstrói, passa por experimentos e anúncios que elevaram expectativas e incertezas. Ao sinalizar que preços poderiam ser liberados — ou ao ampliar fortemente o peso do mercado na formação de preços — o governo mexeu com o que economistas chamariam de “âncoras nominais” (a referência de preços estáveis que organiza a vida cotidiana). O resultado foi uma combinação típica de transição: ajustes reais necessários se misturaram com comportamento defensivo de famílias e empresas, que tentavam antecipar compras e repor estoques antes de novas altas.
Entre 1985 e 1987, a inflação tornou-se um problema político relevante. Ainda que as causas fossem múltiplas — expansão do crédito, tensões entre centro e províncias, mudanças em mecanismos de abastecimento e formação de preços — o efeito social era claro: para trabalhadores urbanos, estudantes e aposentados, o aumento do custo de vida corroía salários e ampliava a percepção de injustiça. A inflação, nesse contexto, não era um número; era uma experiência cotidiana que reordenava o senso de segurança material e alimentava descontentamento com corrupção e privilégios associados ao novo espaço de mercado.
O momento de maior estresse, na narrativa de Weber, ocorre quando a liderança considera dar um passo mais decisivo na liberalização ampla de preços no fim dos anos 1980. Mesmo a simples sinalização de que “os preços vão ser liberados” pode gerar um efeito auto-realizável: medo de aumentos futuros, corrida a bens, pressão sobre cadeias de abastecimento e aceleração de reajustes. A inflação e a sensação de descontrole, somadas à desigualdade emergente e ao clima de disputa dentro do próprio establishment, produziram um caldo social em que a pauta econômica rapidamente transbordou para uma pauta moral e política.
É nesse terreno que crescem as tensões que desembocariam nos grandes protestos de 1989. Estudantes e setores urbanos vocalizaram demandas que combinavam questões materiais (inflação, emprego, custo de vida) com temas institucionais (corrupção, transparência, rumo das reformas). A economia, nesse sentido, foi menos um “pano de fundo” e mais um motor de mobilização: quando a moeda social do dia a dia — o preço — se torna instável, a discussão sobre legitimidade e direção do país fica inevitavelmente mais intensa.
O desfecho é conhecido: a escalada de protestos culminou na repressão estatal na Praça da Paz Celestial. Sem entrar em detalhes gráficos, o ponto analítico que Weber enfatiza é que a tentativa de empurrar reformas de preços na direção de uma lógica de choque expôs a fragilidade de uma transição sem amortecedores: liberalizar preços sem um arcabouço de estabilidade, sem proteção social suficiente e sem coordenação política fina pode transformar um ajuste econômico em crise de governabilidade. A lição maior, para mim, é que “preços” são também instituições: em economias em transformação, eles precisam ser reformados com desenho, sequência e capacidade estatal — exatamente o oposto do impulso simplificador da terapia de choque.

