Da Partição da Índia a Bangladesh: quando religião e etnia redesenharam o mapa

Quando os britânicos decidiram deixar a Índia, no pós-Segunda Guerra, o império já estava desgastado política e economicamente. A partir dos anos 1940, o movimento nacionalista indiano ganhou força com o Congresso de Nehru e Gandhi e com a Liga Muçulmana de Jinnah. A guerra enfraqueceu a posição britânica, o governo trabalhista eleito em 1945 já não tinha nem dinheiro nem legitimidade para manter o Raj, e a pressão interna (“Quit India”) tornou a permanência insustentável. Em 1947, o vice-rei Louis Mountbatten recebeu a missão de organizar uma retirada rápida, negociar com Congresso e Liga Muçulmana e entregar o poder – tarefa que ele acabou acelerando, encurtando prazos e aumentando a improvisação na hora de desenhar fronteiras.

As divisões propostas giravam em torno de duas visões: uma Índia unificada, laica e federativa (defendida pelo Congresso) e a tese das “duas nações” (two-nation theory) da Liga Muçulmana, que queria um Estado separado para os muçulmanos. O plano da Cabinet Mission, em 1946, ainda tentou um meio-termo: um país único, mas com grandes blocos regionais com ampla autonomia, incluindo áreas de maioria muçulmana. Quando esse arranjo ruiu, prevaleceu a partição: criação de um Paquistão com partes de Punjab e Bengala, além de outras regiões de maioria muçulmana, e uma Índia independente com maioria hindu, mas oficialmente secular. As linhas foram traçadas às pressas pela Comissão Radcliffe, muitas vezes sem conhecer o terreno, o que produziu fronteiras arbitrárias, comunidades partidas ao meio e uma das maiores migrações forçadas e ondas de violência da história contemporânea.

A divisão do antigo Raj britânico em 1947 criou um arranjo geográfico estranho: o novo Estado do Paquistão nasceu em dois pedaços, separados por mais de 1.600 km de território indiano – o Paquistão Ocidental (atual Paquistão) e o Paquistão Oriental (atual Bangladesh). A lógica da partilha foi basicamente religiosa: regiões de maioria muçulmana formariam o Paquistão, de maioria hindu permaneceriam na Índia. Essa engenharia ignorou quase tudo o mais: língua, etnia, economia, história regional. No leste, a província de Bengala foi cortada; a parte ocidental, de maioria hindu, ficou com a Índia, e a oriental, de maioria muçulmana, virou Paquistão Oriental.

Logo ficou claro que religião comum não significava identidade comum. No Paquistão Oriental, a imensa maioria era formada por bengaleses de língua bengali, com forte tradição cultural própria e uma herança “hinduzada” que incomodava as elites do Paquistão Ocidental, dominadas por punjabis e urdu-falantes. Islamabad tentava construir um Estado islâmico centralizado, com o urdu como língua “nacional”, enquanto no leste o sentimento era: “somos muçulmanos, sim, mas somos antes de tudo bengaleses”. A partir dos anos 1950 estoura o Movimento da Língua Bengali, repressões sangrentas em Daca e um ressentimento crescente contra a desigualdade econômica e política – mais população e mais votos no leste, mas o poder e os recursos concentrados no oeste.

Em 1970, o partido autonomista Awami League, liderado por Sheikh Mujibur Rahman, vence esmagadoramente as eleições nacionais, apoiado quase inteiramente pelos bengaleses do leste. O Paquistão Ocidental recusa-se a entregar o governo, e o conflito vira ruptura aberta. Em março de 1971, o Exército paquistanês lança a operação Searchlight, uma campanha brutal contra civis, nacionalistas bengaleses e, em especial, minorias hindus, vista por muitos historiadores como crime em massa ou genocídio. Milhões fogem para a Índia, que acaba intervindo militarmente ao lado dos rebeldes. Após uma guerra curta e intensa, em dezembro de 1971, o Paquistão Oriental declara independência como Bangladesh. No fundo, a experiência mostra o limite da partilha baseada só em religião: o “Estado dos muçulmanos” racha porque, dentro dele, língua, etnia e história regional pesaram mais do que a fé comum – e os bengaleses decidiram ter um país próprio para expressar essa identidade.

Alguns filmes mostram bem a partição da Índia e a criação de Índia / Paquistão (e depois Bangladesh). Os principais:

“Gandhi” (1982) – o clássico com Ben Kingsley. Não é só sobre a partição, mas as cenas finais mostram bem a violência e o êxodo de hindus e muçulmanos.  “1947: Earth” / Earth (1998), da Deepa Mehta – talvez o mais forte sobre o tema; acompanha uma família em Lahore vendo vizinhos hindus, muçulmanos e sikhs virarem inimigos conforme a partição se aproxima.  “Viceroy’s House / Partition: 1947” (2017) – foca em Nova Délhi, dentro da casa do vice-rei Mountbatten, mostrando as negociações e decisões que desenham as fronteiras Índia–Paquistão.  “Train to Pakistan” (1998) – baseado no romance de Khushwant Singh, mostra um vilarejo na fronteira e como o trem cheio de mortos se torna símbolo do horror da partição.

Deixe uma resposta