Da Recuperação Conjuntural ao Impasse Estrutural: os Limites do Ciclo Industrial Pós-Pandemia no Brasil

No pós-pandemia, entre 2021 e 2023, a indústria brasileira viveu um movimento atípico de expansão, diretamente associado à desorganização das cadeias globais de valor. A ruptura logística, a escassez de insumos importados e a elevação abrupta dos custos de transporte forçaram empresas a internalizar etapas produtivas que antes estavam distribuídas internacionalmente. Por necessidade, e não por estratégia de longo prazo, a indústria nacional voltou a produzir domesticamente uma série de bens e componentes. Esse processo gerou um aumento expressivo da produção industrial, superior a 10% no acumulado desses anos, configurando uma recuperação relevante após o choque de 2020.

Esse crescimento, no entanto, tinha natureza essencialmente conjuntural. Tratava-se de uma resposta defensiva ao colapso das cadeias globais, e não de um novo ciclo estruturado de industrialização. À medida que as linhas de produção internacionais foram sendo restabelecidas ao longo de 2024 e 2025, o estímulo artificial à produção doméstica perdeu força. A normalização do comércio internacional reativou a lógica anterior de fragmentação produtiva, recolocando a indústria brasileira em competição direta com produtores globais mais escalados e, em muitos casos, mais eficientes.

A situação se agravou com o novo choque tarifário associado à política comercial dos Estados Unidos, especialmente sob a agenda protecionista do governo Trump. O aumento de tarifas, a reorganização geopolítica do comércio e a maior incerteza internacional colocaram a indústria brasileira numa posição particularmente difícil: sem escala suficiente para competir globalmente, mas também sem um mercado interno capaz de absorver volumes que garantam eficiência produtiva sustentada.

Do ponto de vista das políticas públicas, o governo tem adotado iniciativas corretas ao estimular inovação, P&D e modernização tecnológica, com instrumentos de crédito direcionado e subsídios. Há, de fato, ilhas de excelência tecnológica na indústria brasileira, com plantas modernas, equipamentos de ponta e capacidade técnica compatível com o estado da arte internacional. O problema central, porém, não está na tecnologia, nem no esforço de inovação em si.

O grande gargalo é a escala industrial. Setores como o químico ilustram bem esse dilema: existem plantas altamente sofisticadas operando com 40% a 50% de capacidade ociosa de forma recorrente. Isso não ocorre por deficiência tecnológica ou falta de conhecimento, mas porque o volume de produção não é suficiente para diluir custos fixos elevados, inviabilizando ganhos de produtividade e competitividade. Sem escala, a inovação não se traduz em desempenho econômico agregado.

Esse quadro é agravado pela estrutura do financiamento industrial no Brasil. Apesar do volume expressivo de recursos disponibilizados pelo BNDES no âmbito do plano Mais Produção, as linhas de crédito são majoritariamente indexadas à TLP. Na prática, isso resulta em juros finais da ordem de 15% a 17% ao ano, um patamar incompatível com projetos industriais intensivos em capital e de maturação longa. Ou seja, há crédito direcionado, mas o custo financeiro segue excessivamente alto para sustentar um novo ciclo de expansão produtiva.

O resultado é um panorama bastante desafiador para a indústria brasileira, em especial para a indústria química. O impulso pós-pandemia se esgotou, a concorrência internacional voltou com força, os choques comerciais se intensificaram e as políticas industriais, embora bem desenhadas em inovação, não enfrentam o problema central da escala e do custo de capital. Sem atacar esses dois pontos — mercado, escala e financiamento de longo prazo — a indústria brasileira tende a permanecer presa a ciclos curtos de recuperação, seguidos de estagnação, mesmo dispondo de capacidade tecnológica avançada.

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