A Europa decidiu rearmar-se. Na cúpula da OTAN em Ancara, os membros europeus reafirmaram o compromisso de levar o gasto militar e de segurança a 5% do PIB até 2035, com a promessa explícita de que esse dinheiro serviria para “fortalecer a base industrial” do continente. Entre 2021 e 2024, os gastos com aquisição de equipamento militar já dobraram nos países da União Europeia. Ao mesmo tempo, a manufatura civil europeia encolhe: Alemanha e Itália, as duas maiores potências industriais do bloco, registram queda de produção industrial todos os anos desde 2023, pressionadas pelas tarifas americanas e pela concorrência chinesa.
A tese que ganhou corpo em Berlim, Paris e Roma é sedutora na sua simplicidade: se há capacidade ociosa nas fábricas de automóveis, que se aproveite a encomenda pública militar para ocupá-la. Plantas automotivas estão sendo desativadas ou transferidas para empresas de defesa na esperança de reconverter algo daquele capital fixo.
Vale olhar para a história antes de comprar essa ideia. E há um caso italiano extraordinário, contado em detalhe por Simone Gasperin em ensaio recente do Transition Security Project, que mostra exatamente o filme rodando ao contrário.
A empresa que desmilitarizou um país
A Leonardo é hoje a terceira maior contratante militar da Europa, atrás de BAE Systems e Thales. Produz tanques, helicópteros, caças, mísseis e sistemas de defesa eletrônica, emprega cerca de 63 mil pessoas e tem o Estado italiano como sócio de 30,2% — o resto é mercado, com investidores institucionais estrangeiros no comando.
Só que a Leonardo já foi outra coisa. Até 2016 ela se chamava Finmeccanica, e a Finmeccanica nasceu em 1948 com a missão exatamente oposta: transformar em indústria civil o complexo bélico que a Itália havia herdado da guerra.
A holding fazia parte do IRI, o Istituto per la Ricostruzione Industriale, criado em 1933 para socorrer os três maiores bancos italianos quebrados pela Depressão. Como esses bancos tinham participações industriais espalhadas por toda a economia, o Estado italiano acabou dono, quase por acidente, de mais de um quinto das sociedades anônimas do país — e de mais de 90% da produção nacional de construção naval, artilharia e aço militar. Com a República democrática, o mandato mudou: era preciso reconverter tudo isso para uso civil. A Finmeccanica foi a resposta institucional a esse desafio, coordenando o financiamento e a reestruturação de catorze empresas que somavam algo como um quarto de toda a engenharia mecânica italiana.
Em 1954 a reconversão estava basicamente feita. A receita por empregado era 180% maior em termos reais do que em 1948, e cerca de 60 mil dos 70 mil trabalhadores estavam em produção civil — inversão quase perfeita da proporção do período de guerra.
Diversificação como princípio organizador
O que veio depois é o que mais interessa a quem pensa complexidade econômica. Livre da superespecialização militar, a Finmeccanica virou um instrumento de política industrial e passou a entrar sistematicamente em setores onde o capital privado não investia.
Na automobilística, transformou a Alfa Romeo de fabricante nichada de carros de luxo em concorrente de massa da Fiat: a participação na produção nacional saltou de 5% em meados dos anos 1960 para 14% uma década depois, com capacidade de 300 mil unidades ao ano e uma planta nova construída no Sul subdesenvolvido, em Pomigliano d’Arco. Uma estatal quebrando o monopólio privado e fazendo desenvolvimento regional ao mesmo tempo.
Na energia, a Ansaldo saiu de transformadores e subestações para engenharia de usinas térmicas e nucleares, reduzindo a dependência energética externa da Itália — e construiu, em 1981, a primeira usina solar térmica do mundo a despachar eletricidade para uma rede nacional. Na aeronáutica civil, a Aeritalia partiu de subcontratos de fuselagem em fibra de carbono para o Boeing 767 e chegou, com a Aérospatiale, à liderança mundial em turboélices de 50 a 70 lugares. Havia ainda radares, automação industrial, sinalização ferroviária, trens de alta velocidade, turbinas a gás — e a SGS-Ates, que sob controle da Finmeccanica se fundiu com a Thomson francesa para dar origem à STMicroelectronics.
Em 1991, a Finmeccanica era o grupo manufatureiro mais diversificado e intensivo em pesquisa da Itália, o segundo maior depois da Fiat, com 56 mil empregados e reinvestimento de mais de 10% da receita em P&D — o dobro da Fiat.
Esse é o retrato de uma empresa operando no espaço-produto: acumulando capacidades em um setor e usando-as como plataforma para saltar para o vizinho. Complexidade se constrói assim, por adjacência e por spillover entre subsidiárias, não por decreto.
A desmontagem
A partir de 1992 o IRI virou sociedade anônima e começou a ser liquidado. Para tornar a Finmeccanica vendável, era preciso concentrá-la nas linhas de margem alta e descartar o resto — independentemente do retorno de longo prazo daquelas atividades para a economia italiana. A candidata natural era a produção militar, cuja demanda é garantida pelo orçamento público.
O caminho foi absorver as empresas do EFIM, outra holding estatal em dissolução, entre 1994 e 1996, chegando a 70% da capacidade nacional de defesa. Em 1997 uma nova diretoria recebeu mandato explícito: especializar a empresa em defesa como pré-condição da privatização. A STMicroelectronics foi vendida para financiar a compra de metade da AgustaWestland. Robótica e automação de processos foram desovadas. Em 2000 o IRI vendeu o controle por 5,5 bilhões de euros. Depois vieram a Ansaldo Energia, a AnsaldoBreda dos trens Frecciarossa e a Ansaldo STS de sinalização, todas para fora. Em 2016, o novo nome selou a mudança de identidade.
Os números recentes fecham o argumento. Entre 2022 e 2025, com a escalada dos gastos da OTAN, as encomendas da Leonardo cresceram 38% e a receita 33%. Os dividendos subiram 275% e a ação multiplicou por seis. O emprego cresceu 22%, e mais da metade disso por aquisições. O investimento aumentou 36%, mas puxado por intangíveis, não por plantas e máquinas. Ou seja: dinheiro público de contribuintes convertido em ganho financeiro, majoritariamente para investidores institucionais estrangeiros, com pouquíssimo transbordamento para a economia real.
As lições — inclusive para o Brasil
A primeira é de estrutura produtiva. A especialização militar estreita o leque de diversificação. Trava capacidade industrial e qualificação de trabalhadores em atividades com pouquíssima aplicação fora do campo de batalha. David Mowery já argumentava que os spillovers do militar para o civil se concentram na fronteira da P&D e são difíceis de demonstrar na produção. Não é o mesmo que ocupar capacidade ociosa: é escolher um ramo pouco conectado do espaço-produto.
A segunda é de dependência. Demanda militar é mercado criado artificialmente pelo orçamento. Depende de compromisso político sustentado e é vulnerável a viradas geopolíticas que ninguém controla. Se o dinheiro secar, o resultado é recurso desperdiçado, desemprego e desindustrialização permanente — exatamente a encrenca de que a Finmeccanica tirou a mecânica italiana em 1948. Há ainda o paradoxo final: uma empresa criada para libertar a Itália da dependência tecnológica virou tomadora de política externa alheia, porque precisa manter margem para o acionista.
A terceira é sobre o Estado empresário. A trajetória da Finmeccanica mostra o que uma holding pública com horizonte longo e liberdade em relação à rentabilidade trimestral consegue fazer: entrar em semicondutores, energia, aeronáutica civil, ferrovia. Hoje os candidatos óbvios na Europa seriam material rodante, ônibus elétricos, cabos e transformadores, equipamentos de aquecimento e refrigeração — onde oportunidade industrial encontra segurança energética e agenda climática.
Nós temos nosso próprio experimento no assunto, e ele foi mais feliz. A Embraer nasceu estatal em 1969, herdeira do CTA e do ITA, e foi privatizada em 1994 — mas manteve o eixo civil. É hoje o produto mais complexo da pauta exportadora brasileira e o caso mais bem-sucedido de política industrial da nossa história. Se tivesse sido reorganizada nos anos 1990 em torno da encomenda militar, provavelmente teria virado uma boa ação na bolsa e uma péssima notícia para a complexidade econômica do país.
O legado da velha Finmeccanica, aliás, sobreviveu à empresa: a fábrica da Alfa perto de Nápoles é a segunda maior montadora da Itália, a Fincantieri é a maior construtora naval da Europa, a STMicroelectronics é uma das poucas empresas de tecnologia europeias de classe mundial, a Ansaldo Energia é a quinta maior fabricante mundial de turbinas a gás, e os trens italianos ainda rodam com tecnologia italiana. Capacidade produtiva construída fica embutida no território mesmo quando o dono muda.
A questão que a Europa enfrenta agora é se está disposta a gastar trinta anos desfazendo o que levou quarenta para construir.
Baseado no ensaio “Leonardo’s Story: The Limitations of Military Industrial Policy and the Risks of European Rearmament”, de Simone Gasperin, publicado pelo Transition Security Project em agosto de 2026.

