*escrito com Luis Felipe Giesteira
Celma: de fábrica de ventiladores a joia da manutenção aeronáutica mundial
Poucas histórias ilustram tão bem as virtudes e os dilemas da política industrial brasileira quanto a da Celma, em Petrópolis. É uma trajetória de aprendizado tecnológico acumulado ao longo de décadas, de apostas ousadas do Estado, de crise financeira e, por fim, de uma inserção bem-sucedida nas cadeias globais de valor. Vale a pena contá-la com calma.
A Celma nasceu como fabricante de ventiladores, um produto simples, de baixa sofisticação tecnológica. Ainda nos anos 50, no ambiente desenvolvimentista do governo Juscelino Kubitschek, a empresa deu seu primeiro salto: graças a estímulos públicos, passou a fazer manutenções superficiais de hélices para a Varig, então a grande companhia aérea nacional. Parece pouco, mas é assim que o aprendizado industrial funciona. Ninguém sai da fabricação de ventiladores direto para turbinas a jato. As capacidades se constroem em degraus, e cada degrau depende do anterior. A manutenção de hélices trouxe para Petrópolis engenheiros, técnicos, procedimentos de qualidade e uma cultura de precisão que simplesmente não existiam ali antes.
Nos anos 70, a Celma subiu mais um degrau ao participar do desenvolvimento do Xavante, o jato de treinamento produzido pela Embraer sob licença italiana. A empresa já não lidava apenas com hélices, mas com a lógica muito mais complexa da propulsão a jato. O ciclo seguinte veio com o Projeto AMX, o programa de caça desenvolvido em parceria entre Brasil e Itália. No âmbito dos acordos de compensação tecnológica (o chamado offset) com a Alenia, a Celma foi uma das grandes beneficiárias. A empresa se preparou, com investimentos pesadíssimos para o seu porte à época, para fabricar motores a jato completos para o A-1, o primeiro caça (ítalo-)brasileiro.
Aqui a história ganha contornos dramáticos. O aprendizado tecnológico foi notável: a Celma absorveu tecnologias de fronteira, dominou processos de fabricação extremamente exigentes e formou uma mão de obra altamente qualificada. Mas a demanda pelo caça ficou muito aquém do esperado. As encomendas encolheram, a escala prevista nunca se materializou e os investimentos feitos para atender a um mercado que não veio se transformaram em dívida. No início dos anos 90, em meio à crise fiscal, à hiperinflação e ao desmonte das políticas industriais, a Celma estava pesadamente endividada e acabou pedindo concordata.
É um padrão conhecido na nossa história industrial. Construímos capacidades sofisticadas e depois não sustentamos a demanda, o financiamento e a coordenação necessários para que elas amadurecessem. O caso mais emblemático é o da Engesa, fabricante de blindados que chegou a ser referência mundial e que simplesmente desapareceu, levando consigo um enorme estoque de conhecimento técnico acumulado. Quando uma empresa desse tipo morre, não se perde apenas um CNPJ. Perdem-se equipes, rotinas, saberes tácitos e redes de fornecedores que levaram décadas para ser construídos e que dificilmente se reconstituem.
A Celma teve um destino diferente: foi adquirida por outra empresa, a GE. Para os planos ambiciosos da Força Aérea Brasileira de ter autonomia na fabricação de motores aeronáuticos, foi um golpe duro. O sonho de um motor a jato nacional ficou pelo caminho. Mas para Petrópolis e para as famílias dos trabalhadores, foi uma vitória. O conhecimento acumulado não se dispersou. A fábrica, as pessoas e as capacidades continuaram ali, agora integradas a uma das maiores fabricantes de motores aeronáuticos do mundo.
E o resultado é impressionante. Hoje a Celma exporta cerca de US$ 2 bilhões por ano em serviços industriais de alto valor agregado e é considerada a mais eficiente das unidades de manutenção de motores da GE no mundo. Motores de aeronaves de companhias aéreas de vários continentes passam pelas mãos de técnicos brasileiros em Petrópolis. Trata-se de uma atividade intensiva em conhecimento, com salários elevados, rígidos padrões de certificação e forte conexão com a fronteira tecnológica.
A lição da Celma é dupla. De um lado, mostra que a política industrial funciona: sem os estímulos da era JK, sem o Xavante e sem o offset do AMX, não haveria em Petrópolis a base de capacidades que hoje sustenta uma operação de classe mundial. A complexidade econômica se constrói assim, degrau a degrau, e o Estado teve papel decisivo em cada um deles. De outro lado, mostra os limites de uma política industrial descontínua, que estimula a acumulação de capacidades mas não garante demanda, escala e financiamento de longo prazo. A Celma sobreviveu e prosperou, mas o país perdeu a oportunidade de ter uma indústria própria de motores aeronáuticos.
No fim das contas, o que ficou foi o aprendizado. E é justamente o aprendizado, mais do que qualquer outra coisa, que separa as economias que avançam daquelas que ficam para trás.

Rolls Royce:
https://m.youtube.com/watch?v=K2R6NTgvEV4&feature=youtu.be



Sugiro ao redator da matéria corrigir. O Termo correto não é turbina, mas motor a jato, ou turbo-reator, ou só reator. A turbina é uma pequena parcela de todo o sistema. Eu compartilhei a figura com as devidas orientações no Facebook, sob orientação de um amigo que é profissional da aviação, mecânico de aeronaves. Em tempo… Sou engenheiro mecânico e falo com propriedade…
thanks!
Agradeço!
Vamos trabalhar por mais empresas assim!