A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do IBGE mostrou uma taxa de desemprego de 6,2% na mínima histórica, novamente surpreendendo as expectativas dos analistas. A economia segue muito aquecida, com o mercado de trabalho apertado. Uma ótima notícia para os trabalhadores mas algo que preocupa em termos de pressão inflacionária. Além da inflação de serviços e de alimentos o BC enfrenta agora o desafio dos efeitos em preços domésticos de um real muito desvalorizado. O dólar atingiu a marca histórica de R$ 6,10, em um movimento de pânico no mercado, acompanhado por queda acentuada em preços das ações e altas exageradas na curva de juros. As preocupações com a dinâmica fiscal e aceleração da inflação atingiram níveis alarmantes.
O atraso no anúncio das medidas de ajuste fiscal agravaram o cenário. O movimento esperado não era sobre cortar despesas bruscamente, mas apenas desacelerar o crescimento das despesas públicas, possibilitando um controle mais eficiente da economia com orçamento alinhado ao arcabouço fiscal. Mas além do esperado ajuste surgiu também a proposta de isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Essa medida, que de fato foi prometida na campanha, estava fora do debate econômico no momento e gerou enorme incerteza no mercado. A percepção gerada é de que o governo não está priorizando o controle de gastos e não está tão preocupado assim com as consequências inflacionárias do impulso fiscal. A medida de isenção de IR para quem ganha até R$5mil pode gerar um impacto de aproximadamente R$ 50 bilhões nos cofres públicos se não acompanhada de aumento de outros tributos. Foi uma surpresa e trouxe o temor de que, mesmo que haja cortes de gastos, estes podem ser neutralizados por novas isenções tributárias.
O que seria um ajuste gradual da taxa Selic indo até 12% pode agora virar um choque de juros com possível subida da taxa até 14%. O dólar acima de R$ 6,00 já causa um impacto inflacionário significativo, com o IPCA deste ano podendo chegar a 5% e já comprometendo também a meta do próximo ano. Nessa trajetória, podemos esperar um real mais desvalorizado, mais inflação e novas elevações na Selic. A taxa de juros mais alta terá um impacto negativo sobre a atividade econômica, reduzindo o crescimento do PIB de uma expectativa de mais de 2% no ano que vem para, possivelmente, algo mais próximo de 1%.
O último Relatório Focus mostra expectativas de inflação em aceleração. A projeção do IPCA para 2024 subiu para 4,7%, enquanto para 2025 está acima de 4,4%, aproximando-se do teto da meta, que é de 4,5%. Vale lembrar que a meta de inflação é 3,0%, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual (2,5% a 4,5%). A recente desvalorização do câmbio intensifica a pressão inflacionária. Custos de importados, exportados (commodities e manufaturados) e os Índices de Preços ao Produtor (IPAs) têm resposta quase imediata à alta do dólar. Isso inevitavelmente se refletirá nos Índices de Preços ao Consumidor (IPCs), dificultando o controle inflacionário. Essa desvalorização cambial decorre, em parte, do anúncio do novo pacote fiscal, que inclui isenções no imposto de renda, e também de um cenário externo marcado pela valorização global do dólar, impulsionada pelo chamado “Trump Trade” após a vitória do ex-presidente Donald Trump nos EUA.


A situação fiscal do Brasil não admite mais medidas isoladas para sua Resolução. O que se faz necessário é uma ampla reforma, com perspectiva funcional sobre o nível prospectivo do endividamento público e crescimento do PIB. Nesse contexto, o exame amplo e técnico das receitas e despesas orçamentárias tem que ser realizado simultaneamente, permitindo a avaliação de eficácia e viabilidade de diversos arranjos teoricamente possíveis e ampliando a margem de negociação no Congresso. Nesse sentido, o atual governo, ao adotar estratégia diversa desde o início do mandato, condenou-se a ver as opções estreitarem-se ao tempo em que seu capital político declina.