Diagnóstico de que Brasil precisa reduzir tarifas é equivocado

*escrito por Felipe Augusto

O debate sobre abertura comercial unilateral no Brasil tem ganhado força, mas há sinais claros de que esse diagnóstico está equivocado. O mundo vem abandonando tais receitas desde a crise de 2008, e a postura mais assertiva do presidente Lula, nesse contexto, encontra apoio popular e político. Trata-se de uma discussão que não pode ser feita em abstrato, mas a partir da experiência histórica e das condições concretas da economia brasileira e do cenário internacional.

O precedente histórico: Japão e a Revolução Meiji

Em 1853, o comodoro Matthew C. Perry, dos EUA, liderou quatro navios até a baía de Tóquio e forçou o Japão a abrir seus portos às mercadorias americanas. Essa intervenção retirou do governo japonês o controle sobre sua política comercial e escancarou a vulnerabilidade do país diante da pressão externa.

A reação japonesa foi estratégica: a elite local mobilizou-se para fortalecer o Estado e implementar políticas de industrialização e desenvolvimento tecnológico que assegurassem a soberania nacional. Esse processo culminou na Revolução Meiji, marco que transformou o Japão em uma potência capaz de rivalizar com o Ocidente décadas depois. A lição histórica é clara: diante da imposição externa, a saída não foi a abertura irrestrita, mas a reorganização do Estado e da economia em torno da construção de capacidade produtiva própria.

O paralelo com o Brasil em 2025

Hoje, em 2025, os EUA aplicaram tarifas sobre exportações brasileiras com o objetivo declarado de ampliar o acesso de empresas americanas ao mercado brasileiro. O gesto não é apenas econômico, mas também geopolítico: envolve o envio de navios de guerra à região e o cancelamento de exercícios militares conjuntos.

Nesse contexto, um estudo amplamente divulgado afirma que o Brasil é uma economia fechada e defende a abertura unilateral, mas sem oferecer contrapontos. Essa narrativa ignora as especificidades brasileiras e repete uma receita que já se mostrou danosa em experiências anteriores.

A desindustrialização como pano de fundo

O Brasil enfrenta há décadas a pior desindustrialização do mundo. Enquanto outros países emergentes ampliaram sua base produtiva, o Brasil viu sua participação da indústria no PIB despencar. Isso não se deve apenas às tarifas, mas à combinação de fatores:

a ampla liberalização financeira, que gerou perda de autonomia na política cambial; a tendência de valorização do real em momentos de boom de commodities, que barateou importados e prejudicou a produção local; a falta de políticas industriais consistentes e de longo prazo.

Portanto, reduzir tarifas indiscriminadamente não resolveria a questão. Ao contrário, poderia acelerar ainda mais a desindustrialização.

O caso do México: uma advertência

Comparações internacionais ajudam a entender o problema. O México, país de características semelhantes ao Brasil, adotou a abertura nos anos 1990 acreditando que a integração via NAFTA seria suficiente para dinamizar sua economia. O resultado foi decepcionante: crescimento baixo, dependência extrema da economia americana e incapacidade de gerar uma base tecnológica robusta.

Esse exemplo mostra que, para países de renda média, não basta importar insumos e montar produtos. É preciso avançar nos elos mais sofisticados das cadeias globais, aqueles de maior complexidade tecnológica, dominados por países desenvolvidos ou por emergentes que adotaram políticas industriais ativas, como Coreia do Sul e China.

O mundo pós-2008: fim do consenso da abertura irrestrita

O problema central é que o Brasil insiste em se comportar como um avestruz verde-amarelo que não olha para as mudanças do cenário global. Desde a crise financeira de 2008, o mundo vem se afastando das receitas de abertura unilateral e liberalização irrestrita.

O acirramento da disputa geopolítica, com a ascensão da China e de seu modelo intervencionista, e o ressurgimento de políticas industriais nos EUA e na Europa, enterraram o consenso dos anos 1990. Hoje, a lógica de mercado puro, baseada apenas na maximização do lucro, é vista como insuficiente ou até prejudicial para garantir soberania e resiliência.

O enfraquecimento do Estado brasileiro

Enquanto isso, o Brasil seguiu no caminho oposto: enfraqueceu seu Estado. A Eletrobras foi privatizada com regras que dificultam sua reestatização, a Petrobras foi fatiada e orientada para dividendos em detrimento de seu papel estratégico na transição energética, e o BNDES foi transformado em banco de mercado, perdendo a função de fomento ao desenvolvimento.

Além disso, a adoção de tetos de gastos excessivamente rígidos restringiu investimentos públicos justamente no momento em que o mundo voltou a enxergar o Estado como ator central da transformação econômica.

A retomada da soberania como caminho

Estudos que defendem a abertura comercial do Brasil sugerem que o país deve abdicar de um de seus principais instrumentos de política econômica: a proteção tarifária, amplamente utilizada por nações emergentes para construir suas indústrias.

Mas o discurso de soberania vem ganhando força. O presidente Lula tem sido assertivo, encontrando apoio não apenas em sua base, mas também em jovens, parlamentares e até ministros do STF. Projetos de lei sobre regulação de big techs e proteção de minerais críticos mostram que há uma agenda em construção, capaz de articular desenvolvimento econômico e defesa da soberania nacional.

Conclusão: o momento de decisão

Assim como no Japão do século XIX, o Brasil vive um momento em que precisa decidir se usará sua vulnerabilidade externa para se submeter ou para fortalecer o Estado e reorientar sua política de desenvolvimento.

A história ensina que a abertura comercial unilateral, em países de renda média, não gera dinamismo produtivo, mas dependência e fragilidade. O desafio brasileiro é, portanto, o de recuperar a capacidade de planejar, investir e intervir estrategicamente, para que sua inserção internacional não seja ditada de fora, mas construída a partir de dentro.

A pergunta que fica é: Perry se aproxima do Paranoá? Ou o Brasil terá coragem de responder como o Japão do século XIX, transformando a pressão externa em motor de sua própria revolução produtiva?

Referência:

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2025/08/diagnostico-de-que-brasil-precisa-reduzir-tarifas-e-equivocado.shtml

1 thought on “Diagnóstico de que Brasil precisa reduzir tarifas é equivocado”

  1. Qual é o “ …estudo amplamente divulgado afirma que o Brasil é uma economia fechada e defende a abertura unilateral, mas sem oferecer contrapontos”?

    Obrigado

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