Tenho rodado a base da RAIS 2025 com o Índice de Complexidade Econômica calculado para os 5.570 municípios brasileiros, no nível mais fino possível — CNAE de 5 dígitos. Quando chegou a vez de Alagoas, esperava encontrar o retrato conhecido dos estados nordestinos de menor renda: uma capital concentrando tudo, cercada de vazio produtivo. Encontrei outra coisa. E ela diz muito sobre por que complexidade importa — e por que difusão, sozinha, não basta.
Comecemos pelo que surpreende positivamente. Alagoas tem um segundo escalão urbano-industrial de verdade, coisa rara no Norte-Nordeste. Além de Maceió, o estado coloca quatro municípios no top 500 nacional de complexidade: Rio Largo, Marechal Deodoro e Pilar, além da capital. O gap entre a primeira e a segunda cidade é de apenas 0,36 ponto de ICE — uma das estruturas territoriais menos macrocéfalas da metade norte do país. Em difusão territorial da complexidade, Alagoas é o 15º estado do Brasil, à frente de vizinhos bem mais badalados. E Arapiraca, a segunda cidade, é o município mais diversificado do estado: 121 atividades com vantagem comparativa revelada — mais que a própria Maceió, com 107.
Agora o outro lado da moeda, e ele é duro. Alagoas tem o menor salário formal médio do Brasil: R$ 2.826, 25% abaixo da média nacional, atrás de todos os estados, inclusive os de estrutura territorial muito pior. No ICE ponderado pelo emprego — a lente que pergunta em que ambiente de complexidade trabalha o trabalhador típico —, o estado cai para 24º de 27. Como um estado razoavelmente bem distribuído paga tão mal?
A resposta está na qualidade da cesta, não na geografia. Chamo esse padrão de difusão sem densidade. O interior alagoano positivo é comercial, não industrial: as âncoras de Arapiraca, com toda a sua diversidade, não passam de PCI +0,65 — atacado, transporte de valores, educação profissional. Muita variedade, pouco valor. Embaixo disso, dois pesos históricos puxam a folha para o chão: a cadeia da cana, com 48,5 mil vínculos formais (6,8% do emprego do estado) pagando R$ 2,0-2,3 mil, e a administração pública, que responde por um terço de todo o emprego formal alagoano. A complexidade existe, mas está espalhada fina demais e plantada nas atividades erradas para virar renda.
O contraste com Sergipe fecha o argumento. O vizinho tem estrutura territorial pior e ICE ponderado menor — e paga o melhor salário formal do Nordeste, porque sua âncora é petróleo e gás. Alagoas tem o inverso: estrutura melhor, âncora pior. Na economia da complexidade, não basta ter muitos galhos; importa a altura deles.
E aqui entra o dado que mais me chamou atenção na base — o ativo escondido de Alagoas. O anel industrial metropolitano de Maceió abriga o maior cluster químico-plástico do Nordeste fora de Camaçari e Suape: resinas termoplásticas e fios e cabos elétricos em Marechal Deodoro (PCI acima de +1), o polo de gás natural de Pilar com 710 vínculos, e cerca de 6,3 mil empregos em transformação plástica no raio de 30 quilômetros. Esse anel é herança viva da cadeia cloroquímica do sal-gema. A crise da Braskem interrompeu o elo de base e feriu Maceió — hoje a penúltima capital do Nordeste em complexidade —, mas as capacidades a jusante sobreviveram. E capacidade produtiva, na gramática de Hidalgo e Hausmann, é conhecimento tácito: o insumo que não se importa, não se decreta e não se improvisa. Alagoas o tem.
A rota de política decorre naturalmente do diagnóstico. Primeiro, verticalizar o anel químico-plástico: da resina ao composto técnico, do plástico commodity ao plástico de engenharia, aproveitando porto e gás — é onde o ICE ponderado do estado sobe mais rápido. Segundo, industrializar Arapiraca: a densidade já existe, falta o galho alto; manufatura leve encontra ali a base diversa que a teoria exige. Terceiro, atacar o piso salarial pela composição do emprego, não pelo decreto: cada mil vínculos deslocados da cana e do funcionalismo para o plástico técnico ou a metalmecânica fazem mais pelo salário médio alagoano do que qualquer transferência disponível a um governo estadual.
Alagoas é um caso que desafia o receituário simplista da desconcentração. O estado já desconcentrou. O que falta é outra coisa: fazer a complexidade que espalhou valer mais. Uma economia não fica rica espalhando atividades simples pelo território — fica rica subindo na escada de sofisticação a partir das capacidades que já revelou. As de Alagoas estão nos dados, à vista de quem quiser ver.

