Do chip quântico à ARPANET: como a DARPA e o governo ajudaram a Microsoft

Chip quântico

Em 22 de setembro, a Microsoft abriu um centro de pesquisa quântica de cerca de 1.400 m² no Discovery District da Universidade de Maryland, perto de Washington. O espaço tem uma área reservada para a DARPA, a agência de projetos avançados de pesquisa do Pentágono, testar pessoalmente o sistema baseado no chip Majorana 2. Até então, os testes da agência eram feitos remotamente, em máquinas instaladas em Redmond e na Europa.

O Majorana 2 foi anunciado em junho. Segundo a Microsoft, seus qubits topológicos mantêm o estado quântico por 20 segundos em média, contra 1 a 12 milissegundos no Majorana 1 — algo como mil vezes mais. A empresa diz que agentes de IA da plataforma Microsoft Discovery vasculharam quase duas décadas de dados de laboratório e acharam falhas que ninguém tinha visto, como um sensor de temperatura descalibrado na fabricação.

Há ceticismo entre físicos, e com razão: ninguém, nem a DARPA, publicou ainda resultados independentes do sistema de Maryland. O critério da agência é duro e muito econômico: o valor do que a máquina calcula precisa superar o custo de operá-la. Mas o ponto que me interessa aqui é outro. A cena — uma big tech abrindo seu laboratório para uma agência militar de fomento — resume como a tecnologia americana foi construída nos últimos 60 anos.

Um computador do Pentágono em Harvard

A Microsoft nasceu, literalmente, num computador pago pela DARPA. No inverno de 1974-75, Bill Gates e Paul Allen escreveram o BASIC para o Altair 8800 sem ter um Altair. Allen montou um simulador da máquina num PDP-10 do laboratório Aiken, em Harvard, e Gates testou ali o interpretador. Aquele PDP-10 era financiado pelo Departamento de Defesa, via DARPA, para pesquisa militar na universidade.

O Altair BASIC virou o primeiro produto comercial da Microsoft. Pouco depois, auditores do Pentágono foram checar o uso da máquina e descobriram um aluno do segundo ano usando-a para um negócio próprio. Gates foi chamado ao conselho disciplinar de Harvard e escapou porque não havia regra escrita sobre o uso do computador. É um detalhe saboroso, mas revela algo estrutural: o capital inicial da empresa foi tempo de máquina subsidiado pelo Estado.

O ambiente maior também era obra da agência. A ARPA (o “D” de Defense veio em 1972) financiou nos anos 1960 o time-sharing, a computação gráfica, o mouse de Douglas Engelbart e a ARPANET, de 1969. Os protocolos TCP/IP, também desenvolvidos com dinheiro da DARPA, viraram o padrão que o Windows 95 passaria a trazer de fábrica — a porta de entrada de centenas de milhões de pessoas na internet.

A porta giratória entre Pittsburgh e Redmond

O segundo canal entre DARPA e Microsoft foi gente. Boa parte do cérebro da empresa veio da Carnegie Mellon, um dos grandes polos de pesquisa financiados pela agência. Três trajetórias contam a história.

Rick Rashid liderou em Pittsburgh o projeto Mach, um sistema operacional financiado pela DARPA de 1983 a 1992. O Mach influenciou o desenho do Windows NT e está até hoje no núcleo do macOS e do iOS. Em 1991, Rashid foi para Redmond e fundou a Microsoft Research, que chegou a ter mais de 850 pesquisadores em uma dúzia de laboratórios.

Xuedong Huang dirigiu na Carnegie Mellon o Sphinx-II, sistema de reconhecimento de voz que venceu todas as categorias do benchmark da DARPA de 1992. A própria linha de pesquisa nasceu de um programa da agência de 1971 a 1976. Em 1993, a Microsoft o contratou para criar seu grupo de voz. Dali saíram a Speech API do Windows e, décadas depois, os serviços de IA do Azure.

Peter Lee fez o caminho de volta e de novo de ida. Chefe do departamento de computação da Carnegie Mellon, foi para a DARPA, onde criou um escritório de tecnologia voltado a machine learning e ciência de dados. Em 2010 entrou na Microsoft e passou a comandar a Microsoft Research. Foi justamente sob a área de pesquisa da empresa que o programa quântico ganhou corpo.

A aposta quântica: a DARPA como compradora exigente

Na computação quântica, a DARPA não está só financiando ciência básica; está fazendo papel de cliente que audita o fornecedor. Em fevereiro de 2023, a agência anunciou o programa US2QC (Underexplored Systems for Utility-Scale Quantum Computing) com três empresas, entre elas a Microsoft. Em fevereiro de 2025, só Microsoft e PsiQuantum passaram para a fase final, de validação e co-design.

O US2QC virou a semente da Quantum Benchmarking Initiative, que pergunta uma coisa só: alguma abordagem consegue entregar um computador quântico industrialmente útil até 2033? “Útil” tem definição econômica precisa — o valor do cálculo tem de superar seu custo. As duas finalistas apostam em físicas diferentes: a Microsoft em qubits topológicos supercondutores, a PsiQuantum em fotônica de silício.

O ceticismo acompanha a Microsoft desde o Majorana 1. Em março de 2025, físicos ouvidos pela Nature cobraram mais transparência sobre os testes. A resposta da empresa tem sido abrir as portas: cientistas da DARPA já acompanhavam o trabalho semanalmente, com acesso total aos dados, e agora podem mexer no hardware em Maryland. A Microsoft promete sistemas comerciais em 2029; a DARPA julga pelo critério de 2033. Quem decide se o Majorana 2 funciona não é o marketing, é o avaliador independente.

O Estado por trás da garagem

A história da Microsoft costuma ser contada como a de dois jovens geniais numa garagem. Ela é isso também. Mas o computador em que escreveram o primeiro produto, a rede que o Windows conectou ao mundo, o núcleo do sistema operacional, o reconhecimento de voz e agora o chip quântico passam todos pela DARPA. É o que Mariana Mazzucato chamou de Estado empreendedor: o setor público assume o risco radical que nenhum investidor privado aceita, e as empresas transformam o resultado em produto.

Há três mecanismos nessa relação de 50 anos. Primeiro, financiamento de pesquisa de alto risco em universidades como Harvard e Carnegie Mellon. Segundo, circulação de pessoas entre academia, agência e empresa. Terceiro, o papel de comprador exigente, que define metas e testa o que recebe — exatamente o que se vê em Maryland.

Para quem pensa desenvolvimento a partir da complexidade econômica, a lição é direta. Capacidades produtivas sofisticadas não surgem espontaneamente do mercado; são construídas por missões públicas de longo prazo, com dinheiro, gente e cobrança de resultado. O Brasil tem bons pedaços dessa engrenagem, mas nunca teve uma agência com a autonomia, o orçamento e a tolerância ao fracasso da DARPA. Enquanto isso, vale fazer o que o post original sugere: acompanhar o que os avaliadores vão encontrar no Majorana 2.

Fontes

Deixe uma resposta