O debate entre falhas de mercado e falhas de Estado é central na teoria econômica moderna e na formulação de políticas públicas. Economistas liberais tendem a enfatizar as falhas do Estado, como burocracia, corrupção, captura regulatória e ineficiência alocativa, defendendo que o mercado, quando deixado relativamente livre, tende a alocar recursos de maneira mais eficiente. Por outro lado, economistas estruturalistas, desenvolvimentistas e institucionalistas destacam as falhas de mercado – como externalidades, bens públicos, assimetrias de informação, monopólios naturais e ausência de coordenação em setores estratégicos – como justificativa para uma atuação ativa do Estado. Essas visões se confrontam especialmente em momentos de crise econômica, transformação tecnológica ou emergência climática, quando se torna evidente que mercados não respondem sozinhos a desafios coletivos.
Nos últimos anos, cresce entre economistas como Mariana Mazzucato a ideia de que o papel do Estado deve ir além da simples correção de falhas de mercado. O Estado é visto como criador de mercados, capaz de assumir riscos que o setor privado não toma, coordenar investimentos em inovação, e orientar a economia para missões estratégicas, como a descarbonização, a transição digital ou a soberania tecnológica. Nesse modelo, o Estado não substitui o mercado, mas atua como indutor e organizador de um ecossistema inovador, construindo capacidades produtivas, gerando valor público e moldando trajetórias tecnológicas que beneficiem a sociedade como um todo. Trata-se de uma abordagem que reabilita a ação estatal estratégica, inclusive por meio de empresas públicas e compras governamentais, para transformar estruturas econômicas.
Essa visão reconcilia a crítica às falhas de mercado com uma noção mais construtiva do Estado, superando o antagonismo simplista entre público e privado. O desafio não está apenas em evitar as falhas do Estado, mas em desenhar instituições públicas com boa governança, accountability e orientação para resultados de longo prazo. Muitos países que lideraram saltos tecnológicos – como Coreia do Sul, Alemanha, Estados Unidos e China – fizeram isso com políticas públicas robustas, que envolveram Estado, empresas e universidades em missões conjuntas. O debate contemporâneo, portanto, desloca-se da dicotomia “mercado versus Estado” para o desenho de arranjos institucionais capazes de combinar o melhor dos dois mundos, com o Estado agindo como catalisador do desenvolvimento sustentável e inclusivo.

