Do Estado Corretor ao Estado Inovador: A Teoria da Co-Criação de Mercados de Mariana Mazzucato

A economista Mariana Mazzucato defende uma visão inovadora do papel do Estado na economia. Em vez de atuar apenas como um agente corretor de falhas de mercado — como prover bens públicos ou regular externalidades —, ela propõe que o Estado seja um co-criador de mercados e um agente ativo na direção da inovação e do desenvolvimento econômico. Essa abordagem rompe com a ideia de que o setor público deve apenas reagir a ineficiências, e propõe que ele assuma riscos, formule missões estratégicas e colabore com o setor privado na criação de novos setores, tecnologias e oportunidades.

Um dos exemplos centrais utilizados por Mazzucato é o setor de tecnologia nos Estados Unidos. Ela mostra que muitas das inovações que hoje impulsionam empresas como a Apple surgiram de investimentos públicos em pesquisa e desenvolvimento. Tecnologias como GPS, internet, tela sensível ao toque e assistentes virtuais (como a Siri) têm origem em programas estatais, especialmente ligados ao Departamento de Defesa dos EUA. Isso demonstra que o Estado não apenas corrigiu uma falha de mercado, mas assumiu riscos e liderou a criação de mercados inteiramente novos.

Outro caso emblemático é o da indústria de energia verde na Alemanha, onde políticas públicas moldaram mercados para tecnologias limpas por meio de subsídios, regulação e compras públicas. A política conhecida como “Energiewende” envolveu metas ambiciosas de transição energética, incentivando o desenvolvimento de energias renováveis como solar e eólica. Essas decisões públicas ajudaram a reduzir os custos dessas tecnologias e a consolidar mercados onde antes havia apenas incerteza e risco tecnológico.

Mazzucato também destaca o papel de bancos públicos de desenvolvimento — como o BNDES no Brasil ou o KfW na Alemanha — na indução de setores estratégicos. Ela argumenta que essas instituições podem financiar inovações em estágios iniciais onde o capital privado se ausenta, justamente por causa do risco elevado. Assim, o Estado atua como investidor paciente, criando condições para que setores emergentes — como biotecnologia, economia circular ou inteligência artificial — amadureçam e atraiam investimentos privados posteriores.

Por fim, Mazzucato propõe que o Estado formule missões transformadoras — como combater o aquecimento global ou curar doenças — que articulem políticas públicas, universidades, empresas e cidadãos em torno de metas ousadas e mensuráveis. Para ela, a co-criação de mercados não se limita a subsidiar empresas, mas envolve governança, direção e reciprocidade: os benefícios dos investimentos públicos devem retornar à sociedade, por exemplo, por meio de licenciamento público de patentes ou reinvestimento dos lucros. Essa abordagem reposiciona o Estado como um motor de inovação e prosperidade compartilhada.

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