*escrito com Gustavo Pauro
Na década de 1940, o farmacologista brasileiro Maurício Rocha e Silva identificou uma substância vasodilatadora produzida quando o veneno da Bothrops jararaca age sobre proteínas do sangue. Batizou-a de bradicinina. Era o ponto de partida de uma das mais importantes linhagens de descoberta farmacológica associadas à ciência feita no Brasil — e, como veremos, também uma das mais reveladoras sobre os limites do nosso desenvolvimento.
Na década de 1960, Sérgio Henrique Ferreira, formado na escola farmacológica inaugurada por Rocha e Silva e pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, aprofundou essa investigação. Estudando o veneno da jararaca, Ferreira isolou peptídeos que ampliavam a ação da bradicinina e, mais importante, inibiam a enzima conversora de angiotensina, a ECA — a enzima responsável por elevar a pressão arterial. Eram os Fatores de Potenciação da Bradicinina, os BPFs. Entre eles, a teprotida. Abria-se ali uma janela inteiramente nova para o tratamento da hipertensão.
Ferreira levou esse trabalho para a Inglaterra, onde colaborou com John Vane no Royal College of Surgeons. A parceria foi decisiva para o desenho conceitual de uma nova classe de fármacos contra a hipertensão, da qual o exemplar mais conhecido seria o captopril. A colaboração também ajudou a consolidar a projeção internacional de Vane, que receberia o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1982.
Do laboratório da USP ao laboratório da Squibb
O passo seguinte não aconteceu no Brasil. Aconteceu em Nova Jersey, nos laboratórios da E.R. Squibb and Sons.
Com base nas estruturas peptídicas identificadas por Ferreira, os pesquisadores da Squibb Miguel Ondetti e David Cushman desenvolveram o captopril. Mantiveram a extremidade terminal de prolina dos peptídeos do veneno e incorporaram um grupo tiol — o elemento que garantiu a alta afinidade da molécula ao centro catalítico da ECA. A síntese inicial é de 1975. A Squibb depositou o pedido de patente nos Estados Unidos em fevereiro de 1976, obteve a proteção em setembro de 1977, e o medicamento foi aprovado para uso clínico em 1980.
Foi o primeiro inibidor da ECA da história, marco tanto pelo mecanismo de ação quanto pela rota de desenvolvimento. Nas décadas seguintes, a classe se tornou um mercado multibilionário. Hoje existem mais de vinte análogos do captopril original — enalapril, ramipril e outros —, todos descendentes da mesma linha de pesquisa iniciada com o veneno da jararaca. Em 1983, Ferreira, Ondetti e Cushman dividiram o Ciba Award for Hypertension Research, concedido pela American Heart Association.
A molécula nasceu de uma cobra brasileira e foi compreendida por cientistas brasileiros. O comprimido chegou às farmácias do mundo inteiro. O valor ficou em outro lugar.
A frase que explica tudo
O mais revelador desta história não está nos números. Está na fala do próprio Sérgio Ferreira.
Ao contrário do que muitos imaginam, Ferreira não se sentia espoliado. “Eu fiquei orgulhoso. Muito satisfeito, pois eu tinha contribuído para que a humanidade ganhasse um novo medicamento para controlar um problema que afeta grande parte da população.” E completou, com precisão cirúrgica: “O que caracteriza um país subdesenvolvido é a sua incapacidade de usar o conhecimento de sua própria universidade.”
A frase merece ser lida com cuidado. Ferreira não acusou ninguém. Não falou em roubo, em espoliação, em biopirataria. Não houve patente tomada à força. Ele descreveu uma condição estrutural: o Brasil produziu a descoberta científica que tornou possível um dos medicamentos mais usados no planeta — e não tinha as condições institucionais, industriais e financeiras para transformar esse conhecimento em produto. A Squibb tinha. E foi ela que patenteou, industrializou e capturou o valor.
O que faltou não foi talento. Foi sistema.
O contexto institucional que agrava o diagnóstico
Não é possível traçar uma linha causal direta entre o regime militar e a apropriação industrial do captopril por uma empresa estrangeira. Mas o período foi marcado por baixíssima articulação entre universidade, política tecnológica e setor produtivo — exatamente a articulação que faltou para percorrer o caminho da descoberta até o produto. E o ambiente de pesquisa ficou mais hostil e mais arriscado depois do AI-5, em 1968. Não por acaso, Ferreira trabalhou fora do país em períodos significativos justamente nos anos em que sua pesquisa sobre os peptídeos da jararaca atingia maturidade científica.
O Brasil dos anos 1960 e 1970 não tinha o equivalente de uma Squibb. Não tinha política industrial orientada à inovação, não tinha financiamento de risco, não tinha capacidade efetiva de proteção da propriedade intelectual nem a ponte entre laboratório acadêmico e empresa que teria sido necessária para fechar o ciclo. Boa parte desses instrumentos só apareceria décadas depois — e de forma incompleta, como nas Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo.
A posição do Brasil na cadeia do conhecimento
O caso do captopril ilumina o problema mais profundo do desenvolvimento científico e tecnológico brasileiro: a distância entre as etapas da cadeia de valor do conhecimento.
Produzir ciência de fronteira é uma coisa. Transformar ciência em produto é outra, completamente distinta. Industrializar o produto e capturar o valor econômico que ele gera é uma terceira etapa, que exige uma combinação muito específica de capacidade empresarial, financiamento de risco, proteção de propriedade intelectual e mercado consumidor organizado.
Cada uma dessas etapas mobiliza um conjunto próprio de capacidades — e capacidades não se importam por decreto nem se improvisam. É o que a teoria da complexidade econômica vem dizer há tempos: o que distingue economias avançadas de economias periféricas não é a posse de uma ou outra descoberta isolada, mas a densidade do tecido de capacidades produtivas que permite converter conhecimento em produto, em escala, e reter o valor disso.
No caso do captopril, o Brasil dominou a primeira etapa. Falhou nas duas seguintes. E o padrão se repete — em biodiversidade, em agricultura tropical, em ciência de materiais. Setores em que o país gera conhecimento relevante na fronteira mundial, mas raramente se apropria do valor econômico que esse conhecimento poderia gerar.
O que a série nos diz
Este é o terceiro artigo de uma série sobre a indústria farmacêutica brasileira. O primeiro tratou do Aché, empresa que sobreviveu e cresceu dentro de um ambiente hostil ao capital nacional. O segundo tratou dos genéricos — política industrial bem-sucedida, que criou um mercado de dezenas de bilhões e empresas nacionais líderes, mas que ficou presa na etapa de formulação, longe da produção de insumos e mais longe ainda da inovação de fronteira.
O captopril é o caso que completa o arco e lhe dá a tensão mais dramática. Aqui o Brasil não apenas ficou para trás na cadeia produtiva. Aqui o Brasil esteve na própria origem da descoberta.
Sérgio Ferreira morreu em 2016, em Ribeirão Preto, reconhecido pela comunidade científica e honrado com prêmios internacionais. A descoberta nasceu no Brasil; a patente e a produção industrial do captopril foram registradas por laboratórios estrangeiros, que faturaram bilhões de dólares com o medicamento.
O caso revela que o desafio brasileiro nunca foi apenas produzir ciência. O país já provou ser capaz de gerar conhecimento na fronteira mundial. O desafio sempre foi outro: construir instituições capazes de transformar descoberta em patente, patente em indústria e indústria em desenvolvimento econômico.
A molécula nasceu de uma cobra brasileira, foi compreendida por cientistas brasileiros e ajudou a salvar milhões de vidas. O comprimido chegou às farmácias do mundo inteiro. O valor ficou em outro lugar.
Fontes e leitura complementar: SciELO (Cadernos de Saúde Pública; Saúde em Debate), Biblioteca Virtual em Saúde/MS, Panorama Farmacêutico, Futuro da Saúde e Agência Gov.

