Dos Artigos da Confederação de 1777 à Constituição americana da Filadélfia em 1787

Após a Revolução Americana, a nova nação passou a ser governada pelos Artigos da Confederação, um documento que intencionalmente mantinha o governo central fraco. Os americanos temiam substituir a tirania britânica por outra autoridade poderosa, então concederam a maior parte do poder aos estados. No entanto, em meados da década de 1780, ficou claro que os Artigos criavam mais problemas do que soluções.

Os Artigos deixavam o Congresso incapaz de cobrar impostos, regular o comércio ou manter um exército nacional. Não havia ramo executivo para fazer cumprir as leis nem judiciário nacional para resolver disputas entre estados. Para aprovar uma nova lei, era preciso o apoio de nove dos treze estados, e qualquer alteração nos próprios Artigos exigia unanimidade — algo quase impossível de alcançar. Como resultado, o governo central não tinha dinheiro, não conseguia pagar soldados e dependia totalmente da boa vontade dos estados.

Líderes como George Washington, Alexander Hamilton e James Madison começaram a alertar que o país estava vulnerável a ameaças externas e internas. Hamilton e Madison escreveram sobre essas fraquezas e defenderam um governo nacional mais forte. Suas ideias ganharam força e levaram à Convenção da Filadélfia de 1787, onde foi redigida a atual Constituição dos Estados Unidos.

A nova Constituição trouxe soluções claras: deu ao Congresso o poder de arrecadar impostos e regular o comércio, criou um Presidente para liderar o Executivo e garantir que as leis fossem cumpridas, estabeleceu um sistema judiciário nacional, autorizou a criação de um exército e marinha e definiu um processo de emenda viável, que não exige unanimidade. A Supremacy Clause tornou a Constituição e as leis federais superiores às dos estados, criando uma verdadeira união. Pouco depois, foi adicionada a Bill of Rights, garantindo direitos individuais como liberdade de expressão, religião e julgamento justo.

Com essas mudanças, os Estados Unidos passaram de uma confederação frágil a uma república forte e estável, capaz de crescer, se defender e construir as bases de uma nação duradoura. Os Artigos da Confederação (Articles of Confederation) são de 1777 e foram redigidos durante a Guerra de Independência pelos representantes das 13 colônias no Segundo Congresso Continental, reunido na Filadélfia (Pennsylvania). Eles foram ratificados em 1781, quando o último estado (Maryland) finalmente concordou, e ficaram em vigor até 1789, quando a atual Constituição dos Estados Unidos entrou em vigor.


A disputa entre Federalists e Anti-Federalists foi um dos debates políticos mais importantes da história dos EUA, ocorrendo logo após a elaboração da Constituição de 1787. Os Federalists, como Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, defendiam a ratificação da Constituição e a criação de um governo nacional forte, capaz de unir os estados, garantir estabilidade econômica e manter a ordem. Já os Anti-Federalists, como Patrick Henry e Samuel Adams, temiam que o novo governo central se tornasse poderoso demais, ameaçando as liberdades individuais e os direitos dos estados. Eles exigiam uma Bill of Rights (Declaração de Direitos) que garantisse liberdades fundamentais, como liberdade de expressão e de religião. O compromisso político foi incluir a Bill of Rights após a ratificação, o que permitiu que a Constituição fosse aprovada e estabelecesse a base do governo dos EUA.


Alexander Hamilton escreveu vários textos fundamentais para a história dos Estados Unidos e para o pensamento político e econômico moderno. Eis os mais famosos e influentes:

Os Federalist Papers (1787-1788)

Talvez sua maior contribuição intelectual, Hamilton foi o principal autor dos Federalist Papers, uma série de 85 ensaios defendendo a ratificação da Constituição dos EUA. Ele escreveu 51 dos ensaios, abordando:

Estrutura do governo federal – defesa de um Executivo forte e de um Judiciário independente. Separação de poderes – explicando como o sistema de freios e contrapesos garantiria liberdade. Dívida pública e finanças – a importância de honrar os compromissos da União para ganhar credibilidade internacional.

Esses textos são leitura obrigatória em ciência política, direito constitucional e economia.

Relatórios ao Congresso como Secretário do Tesouro

Hamilton foi o primeiro Secretário do Tesouro (1789-1795) e produziu relatórios visionários que moldaram o sistema financeiro dos EUA:

Report on Public Credit (1790) – defendeu assumir a dívida dos estados e criar crédito público sólido. Report on a National Bank (1790) – propôs a criação do First Bank of the United States, um banco central pioneiro. Report on Manufactures (1791) – fez uma defesa ousada da industrialização americana, propondo tarifas, subsídios e incentivos à inovação.

Cartas e Discursos Políticos

Hamilton escreveu centenas de cartas e panfletos, entre eles:

The Farmer Refuted (1775) – resposta aos leais à Coroa britânica, defendendo a independência. Pacificus Letters (1793) – defendendo o poder do presidente em política externa, no contexto da Neutrality Proclamation. Camillus Essays (1795) – defesa do Tratado de Jay com a Inglaterra.

O Legado Intelectual

Os textos de Hamilton vão muito além da teoria: eles criaram a base institucional e econômica que permitiu aos EUA se tornarem uma potência. Ele foi um dos primeiros a articular uma visão desenvolvimentista, defendendo crédito público, infraestrutura, manufaturas e integração econômica — temas que ainda ressoam hoje.


3 thoughts on “Dos Artigos da Confederação de 1777 à Constituição americana da Filadélfia em 1787”

  1. Caro Prof. Paulo Gala, já nos conhecemos on-line. Sou docente da USCS, pós-doutorado em História Econômica pela FFLCH-USP. Conversamos sobre uma orientanda minha na USP com projeto sobre a Coreia do Sul, que eu pedi para fazer seu curso sobre o tema.
    Gostaria de saber se você tem alguma matéria específica sobre o protecionismo estadunidense no séc. XIX, desde Alexander Hamilton até a polêmica que levou à Secessão (não foi só sobre a escravidão, o protecionismo era outro divisor entre Norte e Sul). Imagino que tenha, mas não consegui encontrar. Já recebi contestação de aluno, influenciado por leituras de Mises, que refutou a existência de protecionismo na história dos EUA, em contraposição à Alemanha. Minha ignorância relativa leva-me até a percepção de que se tratou de modalidades e instrumentos diferentes entre os dois países, mas em ambos a influência de F. List se fez sentir.
    Você tem alguma elaboração, algum artigo, mesmo sintético, sobre o assunto? O que teria sido a política industrial dos EUA no séc. XIX (embora a expressão seja contemporânea)? Gostaria de citá-lo aos meus alunos.
    Um abraço e obrigado.

    Prof. Dr. Roberto Vital Anau
    rovitan@gmail.com
    11-98369-9458

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