Em meio ao avanço dos drones em conflitos ao redor do mundo e à corrida por autonomia tecnológica, uma empresa brasileira vem construindo, de forma silenciosa e consistente, capacidade nacional no setor de Defesa. A Xmobots, fabricante de sistemas robóticos e fornecedora das Forças Armadas, já investiu R$ 220 milhões em projetos de Defesa e Segurança desde 2020. Desenvolve internamente aeronaves não tripuladas, sistemas de missão, aviônicos, sensores e software — o que lhe permite reduzir dependências externas e manter controle sobre todo o ciclo de vida dos equipamentos que entrega.
O número que mais me chama atenção não é o do investimento, mas o do quadro técnico: são cerca de 500 profissionais, mais de 250 deles engenheiros. Metade da empresa é engenharia. É exatamente esse tipo de densidade de conhecimento que a teoria da complexidade econômica tenta capturar quando fala em capacidades produtivas. Produtos sofisticados não nascem de fórmulas que se compram prontas em manual ou licença; nascem de redes de pessoas que carregam conhecimento tácito, aquele que só se transmite trabalhando junto, errando junto e resolvendo problemas junto. Um drone militar com aviônica, sensor e sistema de missão desenvolvidos em casa é a materialização física de centenas de cabeças coordenadas. Por isso países que fazem esse tipo de coisa são ricos, e países que exportam soja e minério de ferro não são.
A geografia também importa e não é acidental. A Família Nauru, linha de plataformas que a empresa usa em aplicações de Defesa, Segurança Pública e monitoramento, é desenvolvida em São Carlos, no interior paulista. São Carlos é um daqueles nós raros do território brasileiro onde universidade, institutos de pesquisa e empresas de base tecnológica se acumularam ao longo de décadas até formar um ecossistema com massa crítica própria. Capacidades produtivas são pegajosas, na expressão que gosto de usar: grudam no lugar onde foram formadas e se difundem por proximidade, não por decreto. Não é possível criar uma São Carlos por portaria. Mas é possível — e é justamente o que está em jogo — proteger e adensar as que já existem.
Há um ponto adicional, e é aqui que a história fica interessante do ponto de vista de política industrial. Defesa é um dos poucos setores em que o Estado é comprador natural, exigente e de longo prazo. Isso resolve o problema que trava boa parte da inovação brasileira, que é a ausência de demanda qualificada capaz de bancar a curva de aprendizado de uma empresa nacional. A internet, o GPS e o computador nasceram de compras militares americanas, não de startups de garagem. Mariana Mazzucato tem toda a razão quando diz que o Estado empreendedor não é aquele que corrige falhas de mercado depois que elas aparecem, mas o que cria mercados que ainda não existem, assumindo o risco radical nas fases iniciais. A encomenda tecnológica das Forças Armadas cumpre exatamente essa função. E os transbordamentos vão muito além do quartel: sensoriamento remoto, agricultura de precisão, fiscalização ambiental, mapeamento de infraestrutura. A mesma plataforma que faz vigilância de fronteira mapeia lavoura.
Nada disso resolve por si só o problema estrutural da economia brasileira. Continuamos com uma pauta exportadora concentrada em commodities, com taxa de câmbio que oscila ao sabor do preço das matérias-primas e com uma indústria que perdeu participação no PIB de forma acelerada nas últimas quatro décadas. A doença holandesa não é curada por uma empresa de drones. Mas a construção de complexidade não acontece por salto: acontece por acúmulo de casos como esse, empresa por empresa, engenheiro por engenheiro, até que o conjunto de capacidades disponíveis no país permita saltos para produtos adjacentes que hoje sequer conseguimos imaginar. É assim que o espaço-produto é percorrido — pulando de galho em galho, nunca atravessando o vazio.
Quando olho para uma empresa que verticaliza aviônica, sensor e software em São Carlos, vejo menos uma notícia sobre drones e mais um pedaço da resposta à pergunta que persigo há anos: o que o Brasil precisa fazer para voltar a produzir coisas difíceis. Fazer coisas difíceis é a única receita de país rico que a história conhece.
O material completo apresenta a estratégia de verticalização tecnológica da companhia, sua capacidade industrial, experiência operacional, principais plataformas, parcerias e os projetos em desenvolvimento para os próximos anos. Imagens em alta definição estão disponíveis neste link.

