Duarte Ribeiro de Macedo e o Chamado Esquecido para a Industrialização de Portugal

A figura de Duarte Ribeiro de Macedo (1618–1680) raramente aparece entre os grandes pensadores econômicos europeus do século XVII, mas deveria. Diplomata, observador agudo das dinâmicas internacionais e crítico da dependência estrutural portuguesa, Macedo formulou — bem antes de Hamilton, List ou mesmo dos fisiocratas — uma visão clara: sem manufaturas, não há soberania econômica.

Durante a década de 1670, viajando entre Paris, Haia e Londres, o diplomata viu de perto a transformação industrial nascente da Europa do Norte. A Inglaterra multiplicava oficinas têxteis e aperfeiçoava técnicas metalúrgicas; a Holanda refinava vidro, papel, navios e instrumentos de precisão. Esses países entendiam que o poder político emergia da capacidade de produzir internamente bens de alto valor agregado — e não apenas de explorar colônias ou controlar rotas marítimas.

Portugal seguia no movimento oposto. A economia reinava sobre pilares frágeis: exportação de matérias-primas, especiarias e metais preciosos; dependência massiva de manufaturados estrangeiros; e uma aristocracia rural avessa ao investimento produtivo. Macedo enxergava que o ouro e a prata que entrariam no reino — sobretudo com o ciclo brasileiro — eram rapidamente drenados para pagar tecidos ingleses, ferramentas holandesas e produtos de luxo franceses. Um fluxo contínuo de riqueza que saía mais rápido do que entrava.

Para ele, esse desequilíbrio de contas externas não era um problema conjuntural, mas estrutural: resultado direto da ausência de um setor manufatureiro capaz de reter valor dentro da economia. Sem fábricas, Portugal era reduzido ao papel de fornecedor subordinado — um padrão típico de colônia, não de metrópole.

Macedo também antecipou algo que hoje chamamos de “teoria do desenvolvimento”:

industrialização é diversificação; diversificação é emprego; emprego é prosperidade interna; prosperidade interna é poder político.

Era impossível sustentar uma monarquia forte quando o povo vivia sob desemprego estrutural, a renda se concentrava em poucas mãos e o Estado dependia de fluxos externos sobre os quais não tinha controle.

Ele defendia medidas concretas: incentivos à imigração de artesãos estrangeiros, proteção temporária a indústrias nascenas, formação técnica para trabalhadores, estímulo à produção têxtil, metalúrgica e naval, e reorganização administrativa capaz de dar direção ao Estado. Em suas palavras — modernas, quase chocantes — Portugal precisava “transformar braços ociosos em braços produtivos”.

Essa visão, embora inserida no mercantilismo da época, antecipa debates que definiriam os séculos seguintes:

• a centralidade da manufatura no crescimento econômico,

• a crítica à dependência externa,

• a defesa de um Estado ativo na criação de mercados,

• e a relação entre estrutura produtiva e soberania nacional.

Enquanto Inglaterra e Holanda faziam a travessia para a modernidade industrial, Portugal permanecia preso ao modelo extrativista, confiando que colônias e comércio atlântico sustentariam indefinidamente sua renda. Macedo estava certo: sem manufaturas, não haveria futuro próspero.

Seu alerta foi ouvido apenas parcialmente. Políticas dispersas surgiram, mas sem continuidade, escala ou institucionalidade. O país só faria uma industrialização mais robusta… três séculos depois.

Duarte Ribeiro de Macedo, portanto, não foi apenas um diplomata. Foi um dos primeiros economistas políticos do mundo lusófono, precursor da crítica ao subdesenvolvimento e uma voz solitária lembrando que riqueza verdadeira nasce dentro das nações — da capacidade de transformar, criar e inovar.

A história o deixou à margem; mas suas ideias permanecem atuais para qualquer país que queira escapar da armadilha da dependência produtiva.

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