Duas Faces da Política Industrial Brasileira: Lições da Zona Franca de Manaus e da Embraer

O artigo “How Brazil built a world-beating aircraft manufacturer”, escrito por Pedro Franco no blog Noahpinion, oferece uma análise instigante sobre os caminhos divergentes de duas iniciativas de política industrial brasileiras: a Zona Franca de Manaus (ZFM) e a Embraer. Ambos os projetos nasceram sob a ditadura militar com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico e tecnológico do país, mas seguiram trajetórias muito distintas. A comparação entre esses dois casos serve como ponto de partida para refletir sobre os acertos e erros da estratégia industrial brasileira ao longo das últimas décadas.

A ZFM foi criada em 1967 com o objetivo explícito de estimular o crescimento da região amazônica por meio da industrialização. O governo federal ofereceu uma série de incentivos fiscais e alfandegários para atrair empresas nacionais e estrangeiras a se instalarem em Manaus. A cidade, apesar de geograficamente isolada, possuía uma vantagem logística: o acesso ao Rio Amazonas, que permite a navegação de grandes navios oceânicos. Essa infraestrutura possibilitou que Manaus se tornasse um polo industrial relevante no cenário nacional.

Contudo, o sucesso da ZFM é questionável quando se analisa sua dependência crônica de incentivos fiscais e sua desconexão com a estrutura produtiva do restante do país. Por estar situada no meio da floresta amazônica e longe dos principais centros consumidores e fornecedores, a região enfrenta custos logísticos elevados. Além disso, boa parte da atividade econômica local se limita à montagem de produtos importados com baixo valor agregado. Isso gerou um enclave industrial que pouco contribui para o avanço tecnológico ou para a diversificação da economia brasileira.

O contraste com a trajetória da Embraer é notável. Fundada em 1969 como empresa estatal, a Embraer nasceu de um projeto ambicioso do governo para desenvolver a capacidade brasileira de produzir aeronaves. Diferente da ZFM, a criação da Embraer envolveu investimento intenso em capital humano, com a formação de engenheiros pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e a transferência de tecnologia a partir de parcerias internacionais. Desde o início, tratava-se de um projeto de base tecnológica e com ambições de inserção no mercado global.

Durante seus primeiros anos, a Embraer lançou produtos de sucesso como o Bandeirante, um avião leve desenvolvido com tecnologia parcialmente nacional. No entanto, foi após sua privatização em 1994 que a empresa decolou definitivamente, passando a operar de forma mais ágil, com foco em inovação, gestão eficiente e orientação ao mercado internacional. A empresa rapidamente se posicionou como líder global no segmento de jatos regionais, competindo com gigantes da aviação mundial.

O caso Embraer demonstra que o sucesso de uma política industrial depende de mais do que incentivos: exige visão estratégica, construção de competências locais e integração com mercados internacionais. O apoio estatal foi crucial nos estágios iniciais, mas foi a capacidade da empresa de se adaptar e inovar constantemente que garantiu sua competitividade no longo prazo. Isso contrasta com o modelo da ZFM, onde os incentivos criaram uma dependência contínua e desestimulam a busca por eficiência e inovação.

Outro ponto importante é que a Embraer desenvolveu uma cadeia de fornecedores tecnicamente sofisticada e inserida em redes globais de produção. Isso criou efeitos de transbordamento (spillovers) importantes para outras indústrias brasileiras. A empresa também formou quadros altamente qualificados, contribuindo para o avanço do conhecimento tecnológico no país. A ZFM, por outro lado, possui uma base industrial fragmentada e pouco articulada com a economia nacional, o que limita seu impacto transformador.

Pedro Franco argumenta que o exemplo da Embraer prova que o Brasil é capaz de construir campeões industriais globais, desde que haja foco estratégico, continuidade de políticas e um ambiente institucional propício. No entanto, também mostra que esse tipo de sucesso é raro e difícil de replicar, especialmente em países com problemas crônicos de coordenação e planejamento de longo prazo. A lição principal não é rejeitar a política industrial, mas aprimorá-la com base em evidências e avaliações rigorosas.

A crítica à ZFM não implica necessariamente seu abandono, mas sim a necessidade de reformular seu papel no desenvolvimento regional. Seria preciso estimular atividades de maior valor agregado, incentivar a inovação local e melhorar a conectividade logística com o restante do país. A experiência mostra que subsídios indiscriminados, quando não acompanhados de metas de desempenho e avaliação constante, tendem a gerar dependência e desperdício de recursos públicos.

Em suma, o artigo propõe uma reflexão sofisticada sobre o papel do Estado no desenvolvimento econômico. A comparação entre a ZFM e a Embraer ilustra dois caminhos possíveis: um baseado na transferência de renda e outro na construção de capacidades produtivas. O futuro da política industrial brasileira dependerá da capacidade de aprender com seus próprios erros e acertos — e de criar as condições para que o país volte a sonhar com uma industrialização competitiva e sustentável.

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