Duas perguntas para 2022

As respostas que gostaríamos de receber para poder investir melhor e entender o cenário de investimentos para 2022 são: quem será o novo presidente do Brasil? Haverá um choque de juros na economia americana? A meu ver nada é mais relevante para entender o movimento dos ativos financeiros no próximo ano. Começando pelos EUA. A inflação nos EUA corre na casa de 7% ao ano; a medida de núcleo que exclui preços de alimentos e energia segue próxima a 5%. Taxas que não víamos nos EUA desde os anos 80. O mundo vive um choque inflacionário pos-pandemico. Taxas elevadas também são observadas na Europa com inflação acima de 4% e Brasil acima de 10%. O grande vilão inflacionário foi a interrupção do comércio mundial, melhor dizendo, o mal funcionamento das cadeias produtivas globais em momentos de lock-down e criação de inúmeros gargalos em diversos setores. Faltam chips e semicondutores por conta da brutal transformação digital ocorrida no planeta depois do Covid. As cadeias logísticas não estavam preparadas para tamanha explosão de transportes graças as mudanças digitais: faltam chips, faltam navios, portos mundo afora têm filas enormes de navios para descarregar. Faltam caminhões nos EUA. Os preços de transportes e fretes dispararam. O setor energético mundial também se desorganizou. A falta de investimentos em energias “sujas” somadas ao um boom de demanda por combustíveis jogou o preço do petróleo nas alturas. O gás subiu por conta disso e também por ser usado como alternativa ao petróleo em muitos casos. As cadeias produtivas de alimentos também foram desorganizadas. Por exemplo no Brasil sofremos explosão nos preços do arroz em 2020 quando Índia e Tailândia pararam de ofertar o produto no mercado mundial em períodos de lockdown. Os exemplos se multiplicam!

Além desse universo desorganizado que os economistas chamam de “choque de oferta” houve também brutal política de estímulos dos governos para trazer de volta a demanda de empresas e famílias. Nos EUA os juros foram a zero e Biden conseguiu aprovar planos de estímulos econômicos de mais de 1 trilhão de dólares. O banco central americano dobrou seu balanço imprimindo mais de 3 trilhões de dólares para compra de ativos privados e títulos do tesouro. Esse conjunto de medidas trouxe o desemprego americano de 20% no pico da pandemia para os 4% pré-pandemia. O aumento de demanda e trabalho trouxe pressões salariais que há muito não se viam no mercado de trabalho dos EUA. Diante desse cenário o FED já avisou que vai subir juros! Mas por ora o cenário é de alta gradual com três ou quatro movimentos de 0,25% durante de 2022. Isso não configuraria um choque propriamente dito e o mercado financeiro gostou das notícias. Mas sabemos que previsões são sempre incertas então uma possibilidade de piora da inflação e até mesmo altas de juros por lá não estão completamente descartadas.

No Brasil o cenário para 2022 é complexo. Estamos com inflação acumulada em 12 meses acima de 10%, algo que só havia ocorrido em 2015 e 2003. Nosso PIB caiu no segundo e terceiro trimestre, configurando recessão técnica. O desemprego cedeu a 12%, nível pre-pandemico, mas os salários reais tiveram forte queda. O choque inflacionário levou o BC a dar uma carga violenta de juros que colocará a SELIC próxima de 12%. Apesar de notável melhora fiscal em 2021 o mercado segue com expectativas deprimidas para o futuro. As boas notícias para o Brasil virão quando o ciclo de alta de SELIC terminar e a inflação começar a recuar. Isso deve ocorrer mais para o segundo semestre desse ano. 2023 deverá ser um ano bem melhor para o país, a depender claro da política econômica a ser adotada. Os prognósticos para esse ano colocam PIB em queda ou na melhor das hipóteses estagnado. Nossa inflação vai ceder pois o regime de chuvas está contribuindo. As comodities podem ficar em patamar elevado, mas não teve dobrar de preço novamente. A baixa atividade econômica deve tirar a pressão de preços dos serviços e nossa taxa de câmbio não parece ter muito mais espaço para desvalorização.

Para 2023 podemos esperar algo bem melhor para o Brasil, especialmente se a taxa SELIC voltar a cair. O mercado de trabalho deve continuar sua recuperação ainda que de maneira lenta e o setor industrial brasileiro pode se beneficiar de uma taxa de câmbio mais competitiva. O setor de serviços depende ainda do controle da pandemia, algo ainda difícil de se prever com certeza. Mas todos esses fatores apontam para um 2023 um pouco melhor, independentemente do candidato que vencer. A corrida eleitoral terá efeitos mais fortes nos preços de ativos. Se é verdade que o futuro será melhor para o Brasil, preços deprimidos de ativos em 2022 graças as turbulências eleitorais poderão abrir grandes janelas de oportunidade. Os retornos atuais de investimentos em renda fixa já são um exemplo. Não teremos um ano fácil pela frente, mas essa travessia certamente trará muitas oportunidades de ganho para quem tiver uma visão de longo prazo e for criterioso na escolha de ativos e alocação de carteiras. Que venha o 2022!

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