Duas Reformas, Dois Destinos: China e México de 1989 a 2025

Após as reformas econômicas decisivas do final do século XX, China e México seguiram caminhos muito distintos, tanto na concepção de suas estratégias quanto nos resultados obtidos ao longo de três décadas. A partir de 1989, enquanto a China intensificava sua transição gradual para uma economia de mercado com forte planejamento estatal, o México apostava na liberalização rápida, na abertura comercial e na integração subordinada à economia norte-americana, especialmente após o NAFTA. Os modelos adotados moldaram trajetórias muito diferentes, tanto em termos de crescimento quanto de estrutura produtiva e capacidade tecnológica.

1. Crescimento econômico acumulado (1990–2025)

China cresceu a uma taxa média de cerca de 9% ao ano entre 1990 e 2010, desacelerando para cerca de 5–6% na década de 2010 e aproximadamente 5% ao ano entre 2020 e 2025, segundo o FMI. Com isso, o PIB da China em 2025 é estimado em mais de US$ 18 trilhões (a preços de mercado), sendo a segunda maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA. México, por outro lado, teve um crescimento muito mais modesto. Sua taxa média de crescimento no mesmo período foi de 2,1% ao ano. Em 2025, o PIB mexicano é de cerca de US$ 1,6 trilhão, o que o coloca como a 14ª maior economia do mundo, sem grandes mudanças estruturais em seu perfil produtivo.

2. Estrutura produtiva e complexidade econômica

A China investiu pesadamente em industrialização com ascensão tecnológica, aproveitando o investimento estrangeiro, mas sempre articulando com transferência de tecnologia, capacitação local e empresas estatais estrategicamente posicionadas (como Huawei, BYD e State Grid). Em 2025, é líder mundial em áreas como energia solar, veículos elétricos, semicondutores intermediários, telecomunicações e manufatura de alta tecnologia. O México se especializou como uma plataforma exportadora de montagem, com destaque para o setor automotivo e eletroeletrônicos, mas com baixo valor agregado e pouca inovação local. O conteúdo nacional de exportações manufatureiras permaneceu limitado e a complexidade econômica do país estagnou. O índice de complexidade econômica do México em 2023 é 22º no ranking do Atlas da Complexidade Econômica (Harvard), enquanto a China já figura entre os 10 primeiros.

3. Educação, ciência e tecnologia

A China aumentou fortemente os investimentos em P&D, que em 2024 representam cerca de 2,6% do PIB, ultrapassando países europeus. O país forma milhões de engenheiros e cientistas por ano e tem mais publicações científicas do que qualquer outro país. Universidades como Tsinghua e Zhejiang estão entre as melhores do mundo. O México manteve níveis baixos de investimento em pesquisa e desenvolvimento (cerca de 0,3% do PIB em 2023) e enfrentou cortes recentes em universidades e centros públicos. A fuga de cérebros também é um problema, com muitos talentos buscando oportunidades nos EUA.

4. Inserção global e soberania industrial

A China diversificou seus mercados de exportação e é hoje o principal parceiro comercial de mais de 120 países. Construiu grandes empresas estatais e privadas com alcance global. Além disso, atua geopoliticamente com projetos como a Nova Rota da Seda, exercendo influência na Ásia, África e América Latina. O México tornou-se altamente dependente dos EUA: mais de 80% de suas exportações vão para os EUA, e sua economia é altamente sincronizada com a conjuntura norte-americana. Essa dependência limita sua autonomia em decisões estratégicas e o torna vulnerável a políticas como tarifas ou regras de origem mais restritivas no USMCA.

5. Modelo institucional e papel do Estado

A China manteve um modelo de capitalismo de Estado com planejamento central, uso ativo de bancos públicos, coordenação industrial e proteção estratégica de setores-chave. O Partido Comunista controla o rumo econômico, mesmo com abertura ao capital privado. O México adotou um modelo de liberalização agressiva e desregulação, privatizou setores estratégicos (como energia e telecomunicações), e nos anos 1990 e 2000 reduziu o papel do Estado na economia. Mais recentemente, sob o governo AMLO e seus sucessores, houve tentativas de reverter parcialmente essa tendência, mas com limitações orçamentárias e institucionais.

6. Resultados sociais e desigualdade

A China retirou mais de 800 milhões de pessoas da pobreza extrema desde os anos 1980, segundo o Banco Mundial, e criou uma nova classe média urbana com acesso a educação, moradia e saúde. A desigualdade aumentou nas cidades, mas foi moderada com políticas redistributivas e investimento em infraestrutura. O México viu avanços moderados na redução da pobreza, mas a desigualdade de renda permanece elevada. O crescimento insuficiente e a informalidade persistente limitaram a mobilidade social. Em 2022, mais de 40% da população ainda vivia em situação de pobreza multidimensional, segundo dados do CONEVAL.

Conclusão

Em 2025, o modelo chinês levou a uma transformação profunda de sua economia, elevando o país ao patamar de potência industrial e tecnológica global, com crescente autonomia estratégica. Já o modelo mexicano resultou em industrialização limitada, forte dependência externa e crescimento medíocre. Enquanto a China apostou num desenvolvimento produtivo orientado pelo Estado, o México confiou no mercado e na abertura como motores de transformação — com resultados desiguais e, em grande parte, aquém das expectativas dos anos 1990. A comparação entre os dois revela o papel decisivo das instituições nacionais, da estratégia industrial e da capacidade de aprendizado tecnológico no sucesso do desenvolvimento econômico de longo prazo.

Referência: https://paulogala.com.br/por-que-a-produtividade-do-brasil-e-da-america-latina-derreteram-pos-1980/

1 thought on “Duas Reformas, Dois Destinos: China e México de 1989 a 2025”

  1. A China não caiu na armadilha do discurso liberal ou neoliberal. Soube desde sempre que o Estado é o principalmente elemento de desenvolvimento nacional combinado com apoio e regulação do mercado privado. O México, dominado por uma “elite” entreguista e subordinada aos interesses estadunidenses, privatizou o que não podia, enfraqueceu o Estado, desregulamentou sua economia, não investiu em P&D, não distribui renda e não formou novas gerações de trabalhadores qualificados principalmente em engenharias e ciências. Deu no que deu.
    A pergunta que não quer calar: com o exemplo vitorioso da China por que as nações em desenvolvimento não seguem seu exemplo?

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