*escrito com João Paulo Nicolini
A distinção entre diferentes tipos de elites econômicas é central para compreender trajetórias de desenvolvimento ao longo da história. Uma forma particularmente poderosa de organizar essa análise é contrastar o que podemos chamar de elites ricardianas com elites schumpeterianas. Trata-se de uma tipologia ancorada em duas tradições clássicas da economia política: de um lado, David Ricardo, com sua teoria da renda da terra; de outro, Joseph Schumpeter, com sua ênfase no papel do empreendedor inovador e da destruição criativa.
As elites ricardianas são aquelas que se apropriam de rendas derivadas da escassez de recursos naturais. Na formulação original de Ricardo, a renda da terra emerge não do esforço produtivo adicional, mas da diferença de fertilidade entre terras — uma renda diferencial que se transforma em poder econômico e político. Expandindo essa lógica para o mundo contemporâneo, podemos incluir nesse grupo as elites associadas à exploração de petróleo, mineração, commodities agrícolas e outros recursos naturais. Trata-se de rendas que, em grande medida, independem de inovação contínua, sendo capturadas por meio do controle de ativos escassos.
Em contraste, as elites schumpeterianas derivam sua riqueza de processos dinâmicos de inovação. São grupos econômicos que prosperam ao introduzir novos produtos, novas tecnologias, novos métodos de produção e novos mercados. Sua renda não é estática, mas sim resultado de monopólios temporários associados à inovação — patentes, propriedade intelectual, capacidades organizacionais e investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento. Aqui, a acumulação está intrinsecamente ligada ao progresso tecnológico e à transformação estrutural da economia.
Essa distinção não é meramente analítica; ela tem implicações profundas sobre instituições, incentivos e trajetórias de longo prazo. Elites ricardianas tendem a favorecer arranjos institucionais que preservem o status quo e protejam suas rendas — frequentemente associadas a estruturas mais concentradas de poder, baixa mobilidade social e menor dinamismo produtivo. Já elites schumpeterianas, embora também busquem proteção (como direitos de propriedade intelectual), operam em ambientes mais competitivos e dinâmicos, nos quais a inovação constante é condição de sobrevivência.
O caso dos Estados Unidos no século XIX ilustra essa tensão de forma quase didática. No sul agrário, baseado na plantation escravista, predominava uma elite tipicamente ricardiana. A riqueza estava ancorada na posse da terra e no trabalho escravizado, especialmente na produção de algodão — uma commodity altamente demandada no mercado internacional. Essa elite tinha pouco incentivo para diversificar a base produtiva ou investir em inovação industrial, pois sua renda era garantida pela estrutura agrária e pelo comércio externo.
Já no nordeste dos Estados Unidos — particularmente em estados como Nova Iorque e na região da Nova Inglaterra — emergia uma elite de perfil schumpeteriano. Ali floresciam atividades industriais, comércio, finanças e inovação tecnológica. Era o berço de universidades, centros de pesquisa e uma cultura empresarial voltada para a manufatura e a mecanização. Essa elite estava inserida em um processo de transformação estrutural que viria a definir o padrão de desenvolvimento americano nos séculos seguintes.
O conflito entre essas duas formas de organização econômica e social não foi apenas teórico — ele culminou na Guerra Civil Americana. Em grande medida, tratou-se de um embate entre dois regimes de acumulação: um baseado em rendas ricardianas, outro em dinâmicas schumpeterianas. A vitória do norte industrial consolidou um modelo de desenvolvimento orientado pela inovação, pela expansão do mercado interno e pela industrialização acelerada.
Na América Latina contemporânea, a presença de elites ricardianas permanece marcante. A abundância de recursos naturais — petróleo, minério de ferro, cobre, soja, entre outros — gera fluxos significativos de renda que tendem a ser apropriados por grupos econômicos concentrados. Essa estrutura frequentemente reduz o ímpeto por diversificação produtiva e inovação, reforçando padrões históricos de especialização em commodities. O resultado é uma inserção internacional baseada em vantagens comparativas estáticas, com menor densidade tecnológica.
Esse fenômeno dialoga diretamente com a literatura sobre resource curse, mas pode ser reinterpretado como uma “armadilha ricardiana”: a persistência de elites que têm pouco incentivo para promover mudanças estruturais profundas. Quando a renda é facilmente obtida via recursos naturais, o custo político e econômico de investir em transformação produtiva — educação, tecnologia, indústria — tende a ser percebido como elevado e desnecessário no curto prazo.
Em contraste, o sudeste asiático oferece um contraponto poderoso. Economias como Coreia do Sul, Taiwan, China, Vietnã, Malásia e Japão construíram, ao longo das últimas décadas, elites econômicas fortemente associadas à inovação e à industrialização. Mesmo em contextos com recursos naturais relevantes, esses países adotaram estratégias deliberadas de upgrading tecnológico, investimento em educação e políticas industriais orientadas para a complexidade econômica.
Nesses casos, o Estado desempenhou papel central na formação de elites schumpeterianas — seja por meio de financiamento direcionado, proteção temporária, coordenação de investimentos ou estímulo à exportação de bens manufaturados. O resultado foi a criação de conglomerados industriais, ecossistemas de inovação e cadeias produtivas sofisticadas, capazes de competir globalmente em setores de alta tecnologia.
A diferença fundamental, portanto, não reside apenas na dotação de recursos naturais, mas na forma como as elites se organizam e nos incentivos que moldam suas estratégias de acumulação. Países que conseguem transitar de elites ricardianas para schumpeterianas tendem a apresentar maior crescimento de longo prazo, maior diversificação produtiva e maior resiliência externa.
Em última instância, essa tipologia ajuda a iluminar um dilema central do desenvolvimento: como transformar riqueza estática — derivada da natureza — em riqueza dinâmica — derivada do conhecimento. A resposta passa, inevitavelmente, por reconfigurar as coalizões de poder que sustentam cada tipo de elite. Sem isso, economias ricas em recursos podem permanecer presas a trajetórias de baixo dinamismo, enquanto aquelas que apostam na inovação constroem as bases de um crescimento sustentado e inclusivo.


Paulo, dá para fazer um “cruzamento” dessa ideia com a proposta de instituições inclusivas e exclusivas de que fala o livro “Why Nations Fail?”.