Embraer e o fracasso da tentativa de se criar uma indústria aeronáutica privada no Brasil

*escrito por Henrique Alvarez

A Embraer S.A., hoje terceira maior produtora de aeronaves do mundo, surgiu como uma empresa pública em 1969, na intenção de industrializar os protótipos de aeronaves desenvolvidos pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em que já se destacavam a aeronave de transporte regional Bandeirante e o avião para uso agrícola Ipanema. A empresa teve sua origem protagonizada por engenheiros do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em que se destaca Ozires Silva, que buscavam uma forma de desenvolver uma indústria aeronáutica no Brasil. Entretanto, antes de existir a solução da fundação de uma empresa de controle estatal, foram realizadas diversas tentativas de criar essa indústria aeronáutica a partir do setor privado. O CTA, com grandes esforços de seus engenheiros, conseguia desenvolver suas primeiras aeronaves utilizando seu qualificado corpo técnico e, até mesmo, importação de cérebros, como a contratação “quase” clandestina do famoso desenvolvedor de aeronaves, o francês Max Holste. Entretanto, para tornar esses protótipos um produto industrial, o Ministério da Aeronáutica buscava uma empresa privada que conseguisse levar adiante esse processo. É necessário lembrar que, nesse período, o regime militar ainda seguia um pensamento econômico liberal, tendo em seu ministério figuras como Roberto Campos. A criação de uma estatal, portanto, estava descartada.

Empresas como Neiva, Avibrás, Avitec e Aerotec eram algumas das empresas que foram procuradas ou imaginadas como aquelas que poderiam industrializar o Bandeirante. Entretanto, elas eram basicamente fornecedoras de serviços, peças e algumas aeronaves pequenas para a Força Aérea, possuindo capital e corpo técnico insuficiente para industrializar e comercializar em um mercado tão competitivo e sofisticado como o da aviação. As negociações sempre esbarravam no fato de que essas empresas não conseguiriam chegar na fase de produção em escala, mesmo com auxílio técnico e financeiro do Estado. O Ministério da Aeronáutica buscou, então, os empresários de grande porte do país que aceitassem empreender na produção de aeronaves. Foram recebidos, no entanto, com grande ceticismo, pois os industriais alegavam que o Brasil não conseguiria desenvolver um projeto nacional nessa área, devido a forte dependência tecnológica do exterior e a concorrência com os países desenvolvidos. Somente com as mudanças de rumo na política econômica do regime é que a opção pela criação de uma empresa de controle estatal começou a ganhar força e após apelos de Ozires Silva ao então presidente, Costa e Silva, a proposta foi analisada pelo corpo econômico do governo. Delfim Netto, ministro da economia, viu na iniciativa dos engenheiros do CTA uma boa oportunidade de criar um segmento industrial sofisticado no país. Em 19 de agosto de 1969 era criada a Embraer e em muito pouco tempo, seus aviões já eram exportados para o concorrido mercado de aviação civil dos EUA, Europa e algumas dezenas de outros países, além de forças aéreas de diversas nações como França, Inglaterra, Iraque e Chile.

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