Empresas americanas tentam se “chinesar”: o caso Honeywell

*escrito por Felipe Augusto

História fantástica sobre como a americana Honeywell se “chinesificou”. O conglomerado industrial cresceu exponencialmente na China e tem conseguido escapar das tensões sino-americanas. Adquiriu ‘chinesidade’ nos ossos. A empresa tem plantas em mais de 30 cidades chinesas. Emprega 13 mil pessoas. Produz desde aplicações aviônicas em Xangai, sistemas de aquecimento em Suzhou, sensores médicos em Nanjing, sistemas de controle industrial em Tianjin até turbocompressores de automóveis em Wuhan. Forneceu desde o sistema de transmissão para o Estádio “Ninho de Pássaro” de Pequim até o equipamento de segurança contra incêndio para o Museu dos Guerreiros de Terracota em Xi’an, duas grandes atrações chinesas. Fornece componentes para o jato Comac C919, aposta estatal chinesa para desbancar o duopólio Boeing-Airbus, incluindo sistemas de controle de vôo e sistemas de navegação, enfrentando a resistência americana ao programa aéreo chinês. Tudo começou quando o canadense Shane Tedjarati assumiu a unidade chinesa em 2004. Ao contrário de outros executivos ocidentais, que caíam de paraquedas por 2 ou 3 anos sem se engajarem com a cultura local, ele logo se comprometeu a falar mandarim fluentemente. Entrevistas para recrutar vendedores eram conduzidas por telefone por executivos americanos, privilegiando quem falava inglês, mesmo que não conhecesse o negócio ou as circunstâncias locais. Tedjarati garantiu que todas as entrevistas fossem realizadas em mandarim. A Honeywell concordou em ajudar uma série de estatais com a digitalização e a automação das fábricas, incluindo a química Sinochem e a siderúrgica Baowu. A empresa tem relacionamento muito próximo com as autoridades chinesas. São discussões íntimas, muitas vezes sem intérpretes. Já auxiliou a Huawei, agora sujeita às sanções dos EUA, a construir três gasodutos ligando o oeste da China à Ásia Central. Também abriu filial em Xinjiang, onde a “questão uigur” gerou severas sanções dos EUA, fornecendo equipamentos de proteção aos serviços de segurança. A empresa também apoiou abertamente a Iniciativa Belt and Road da China e executou um programa para ajudar as empresas chinesas a se expandirem no exterior, recebendo lucrativos contratos em troca, como em um Complexo Portuário na Arábia Saudita e em outro Petroquímico em Brunei.

Tedjarati se tornou professor visitante na China Executive Leadership Academy, uma escola de elite que fornece treinamento de liderança para estrelas ascendentes do Partido Comunista. Há uma década, tornou-se um dos primeiros estrangeiros a receber um visto de permanência chinês. Em 2019, a posição da empresa parecia estar a perigo quando o People’s Daily, meio de comunicação ligado ao Partido, nomeou a Honeywell como uma das várias empresas dos EUA que enfrentavam uma possível lista negra de Pequim por venderem armas a Taiwan. A Honeywell, que fornecia motores para tanques, protestou que havia entregue o equipamento diretamente para o governo dos EUA e que não tinha controle sobre o negócio de Taiwan. Conseguiu escapar das sanções. Em 2020, Trump elogiou a empresa por fabricar máscaras em solo americano. No mesmo mês, o Premier chinês elogiou a empresa depois que ela abriu uma nova instalação de P&D em Wuhan, ajudando a cidade a se normalizar vários meses após a eclosão da pandemia. Tedjarati rebateu as críticas de que empresas americanas não deveriam apoiar programas estratégicos como o C919. Na sua visão, não seria possível impedir um país como a China de construir suas capacidades produtivas. As empresas dos EUA deveriam se focar nas recompensas. Adicionou que, embora o sucesso da Honeywell na China possa ter beneficiado os chineses, os maiores vencedores foram seus acionistas, em sua maioria americanos. A empresa passou de uma capitalização de mercado de US$ 20 bilhões para US$ 160 bilhões. O pensamento de Tedjarati diz muito sobre as diferentes visões de desenvolvimento prevalecentes nos EUA e na China. Nos EUA, o principal argumento de Tedjarati a favor da atuação da Honeywell é a geração de renda financeira concentrada em alguns poucos acionistas. Na China, o valor dado à Honeywell pelos chineses decorre do longo histórico de cooperação produtiva e tecnológica com as empresas nacionais, com foco no atingimento das metas de desenvolvimento e de segurança nacionais.

 

Referencias:

https://www.globaltimes.cn/content/1188883.shtml

https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-07-15/chinese-media-hints-at-honeywell-raytheon-sanctions-over-taiwan

https://www.wsj.com/articles/honeywells-formula-for-success-in-china-11634911201

 

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