Estresse Cambial e Choque de Juros: O Papel do Banco Central em Meio ao Risco de Crise Econômica

O real está batendo entre R$ 6,00 e R$ 6,20, e estamos vivenciando a maior intervenção do Banco Central (BC) desde 2021. Até o momento, foram injetados US$ 10,745 bilhões no mercado: US$ 7 bilhões em leilões de linha com recompra e US$ 3,745 bilhões em leilões à vista no mercado spot. Essa intervenção ocorre devido à forte demanda de fim de ano para remessas de dólar ao exterior e ao cenário de estresse. Em 2024, o dólar acumula uma alta de quase 27%, o que representa uma desvalorização significativa do real. O juro longo explodiu para 15%. O BC anunciou um ciclo de aumento de juros, com a SELIC projetada para 14,25% na reunião de março, com aumentos de 100 pontos-base em janeiro e 100 pontos-base em março, antecipando todo o ciclo (frontload). Em um cenário otimista, a SELIC pode atingir 15%, com eventuais ajustes finais menores, como 0,50 p.p. ou 0,25 p.p. Isso colocará o juro real em 10%, o dobro do juro real neutro estimado pelo próprio BC, que é 5%. A inflação deste ano deve fechar em 5% (IPCA), mas já se considera que esse número pode ser positivo. Para 2025, se a inflação também ficar em 5%, será um cenário aceitável, considerando os desafios. A SELIC a 15% com um juro real de 10% gera um forte estresse financeiro, mas ainda não configura uma crise econômica real. Os dados da economia continuam robustos: o investimento cresce a 10% ao ano, o desemprego está na mínima histórica em 6%, e o crescimento do PIB é de 3,5%. Trata-se da maior expansão econômica e industrial da década, exceto durante a pandemia.

Entretanto, se o estresse financeiro persistir, ele poderá se transformar em crise econômica. Para 2025, já se espera uma desaceleração do crescimento para 2%, com riscos de recessão caso o cenário fiscal não avance. O câmbio estava em R$ 5,50 há um mês, e ajustes fiscais mínimos, como moralização de políticas sociais e controle do crescimento do salário mínimo para 2,5% ao ano em termos reais, seriam suficientes para estabilizar a situação. Contudo, tais medidas não foram implementadas, e o peso recaiu integralmente sobre o BC, que respondeu com um choque de juros. O déficit primário deste ano deve ficar em torno de R$ 30 a 40 bilhões, um valor pequeno em comparação aos R$ 800 bilhões da pandemia. O problema central é a conta de juros, que pode alcançar R$ 1 trilhão ao ano, o equivalente a 10% do PIB. Essa dinâmica da dívida pública é preocupante, e investidores exigirão prêmios mais altos para financiá-la. Sem ajuste fiscal, as soluções passam por mais inflação, cortes de gastos ou aumento de tributação. O impulso fiscal dos últimos anos, na ordem de centenas de bilhões de reais, foi sustentado pelo aumento da arrecadação. Esse estímulo foi benéfico para reduzir o desemprego de 15% para 6% e impulsionar a economia. No entanto, manter um impulso fiscal com a economia já aquecida, câmbio em R$ 6,00 e inflação de serviços em 5% gera riscos claros de inflação elevada. Se o câmbio continuar se desvalorizando, a inflação pode facilmente acelerar para 6%, 7% ou até 10%. Em resumo, o cenário atual é de estresse financeiro significativo, que poderia ser mitigado com ajustes fiscais moderados. Caso contrário, o estresse financeiro prolongado pode se converter em uma crise econômica, colocando em risco o ciclo de crescimento brasileiro.

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