Etiópia cresce a taxas chinesas na África

*escrito com Daniel Bispo e Felipe Augusto

Com uma população de 105 milhões de habitantes e um território pouco menor que o do Pará, a Etiópia tem sustentado um crescimento econômico escandaloso e constante desde 2003. Desde então até 2018, o país registra crescimentos anuais que oscilam entre 8% e 12%. Sendo assim, a Etiópia foi o país que mais cresceu no mundo durante esse período e é conhecida como a “China da África”.

O PIB da Etiópia multiplicou por dez vezes entre 2003 e 2017. Saiu de 8 para 80 bilhões de dólares. Um valor ainda baixo, que mostra que ainda há muito por fazer, mas que está no rumo certo. Isso foi escorado no programa de crescimento coordenado pelo estado do partido Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope que assumiu o poder em 2001. Além disso, houve fortes parcerias com a China. Entre 2000 e 2015, quase 14% dos empréstimos que a Etiópia recebeu foi do governo chinês, com juros e condições de pagamento bem mais sedutoras que no resto do mercado global. No entanto, apesar dos empréstimos e compensado pelo ótimo crescimento, a dívida pública da Etiópia saiu de quase 100% do PIB em 2001 para 60% do PIB em 2019.

Com uma maior produção de riqueza, a população etíope viu sua vida melhorar substancialmente. Em 2017 a taxa de desemprego foi de somente 1,8% e a expectativa de vida no país saltou de 52 anos em 2001 para 66 anos em 2019. 12% do povo etíope morria por HIV/AIDS em 2001, em 2017 eram somente 3%. A pobreza extrema reduziu em mais de 50% entre 1999 e 2015. No mesmo período, o IDH também aumentou em 50%.

Embora tenha resultados muito positivos, a Etiópia ainda tem um árduo trabalho pela frente. A complexidade econômica do país ainda é extremamente baixa, a maior parte das suas exportações é concentrada em café e oleaginosas. No entanto, o país também tem empresas próprias bem famosas, como a Ethiopian Airlines, membra da Star Alliance e que registrou uma receita de quase quatro bilhões de dólares em 2018. A indústria está em crescimento incipiente, mas predominantemente de capital estrangeiro.

A Etiópia é um excelente estudo de caso, pois se trata de um país populoso, pobre e com um histórico de capacidade estatal e nacionalismo distinto da maior parte dos seus vizinhos da África Subsaariana. Dados mostram que a participação da indústria no emprego total aumentou ao longo do período, especialmente nos últimos anos, mas em grande medida por causa da construção, e não da indústria, considerada o meio mais tradicional de convergência com o mundo desenvolvido

Esse diagnóstico está em linha com a análise de @rodrikdani, que alertou que o caminho “rápido e fácil” da industrialização inicial pode estar se fechando para países pobres. Países como a Etiópia estariam crescendo com base em setores com retornos decrescentes de escala. Se por um lado o investimento em infraestrutura aumentou a produtividade agrícola, liberando mão de obra para as cidades, por outro o setor mais moderno industrial não a absorveu, em contraste com o que se viu nos bem-sucedidos casos do leste asiático.

Aliás, outro aspecto que diferencia a Etiópia do caso asiático estaria na própria manufatura. A Etiópia tem conseguido atrair indústrias intensivas em mão-de-obra, principalmente têxteis e de couro, que costumam ser a porta de entrada de países pobres nas cadeias globais de valor. Mas, ao contrário dos asiáticos, não estabeleceu joint-ventures, que tendem a facilitar a transferência de tecnologia, know-how e técnicas gerenciais, e tampouco exigiu conteúdo local, estimulando ligações das multinacionais com fornecedores locais.

Isso tudo apesar de possuir capacidade estatal superior à média da região, com alguma tradição histórica de Estado-Nação no passado e que hoje pode ser observada pela relevância dos investimentos públicos e das empresas estatais no crescimento recente. Capacidade estatal se confunde com nacionalismo. País remete suas origens aos tempos do Rei Salomão, e se orgulha pela resistência ao colonialismo e por vitórias na II Guerra. Resistência ao avanço chinês seria menor por causa do histórico de soberania. Mesmo assim, isso não tem sido suficiente para barganhar uma inserção mais qualificada na divisão internacional do trabalho. As exportações, surpreendentemente declinantes para um país que cresce tanto, seguem dominadas por multinacionais. Em resumo, o futuro etíope não parece tão promissor quanto o passado recente parece indicar. Desenvolvimento definitivamente não é um processo trivial.

REFERÊNCIAS:

1.https://pt.tradingeconomics.com/ethiopia/gdp-growth-annual

2.https://pt.countryeconomy.com/governo/divida/etiopi

3.https://pt.theglobaleconomy.com/Ethiopia/Unemployment_rate/

4.https://super.abril.com.br/sociedade/um-novo-colonialismo/

5.https://ourworldindata.org/life-expectancy

6.https://ourworldindata.org/human-development-index

7.https://www.dw.com/pt-br/eti%C3%B3pia-%C3%A9-novo-para%C3%ADso-da-m%C3%A3o-de-obra-barata-para-a-ind%C3%BAstria-t%C3%AAxtil/a-48781556

8.https://pt.wikipedia.org/wiki/Ethiopian_Airlines

9. https://www.imf.org/~/media/Files/Countries/ResRep/ETH/ethiopia-growth-performance-july-2019.ashx

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